Guerra abala regime de terror no Irã, mas não garante seu fim
Talvez não haja evidência mais contundente do significado da morte do aiatolá Ali Khamenei para o mundo que a irrupção espontânea de manifestações de júbilo por Teerã e outras cidades iranianas com a notícia — ainda que o país estivesse (e esteja) sob bombardeio de forças americanas e israelenses, que deflagraram ataques com o fito declarado de derrubar a teocracia e acabar em definitivo com suas pretensões nucleares.
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Khamenei comandou por quase quatro décadas um dos regimes mais cruéis do planeta — de 1981 a 1989 como presidente, de lá para cá como líder supremo. Só neste ano, para sufocar protestos iniciados em dezembro, a teocracia massacrou um contingente estimado em dezenas de milhares. Mantém sob feroz opressão minorias religiosas, mulheres e a população LGBT+. Imiscui-se na vida dos cidadãos a ponto de determinar o que podem ler, ouvir, assistir ou como devem se vestir. Patrocinou ao longo desses anos um eixo de grupos terroristas que espalhou dor não apenas pelo Oriente Médio, mas de Bangkok a Buenos Aires, passando por locais como Madri, Nova Délhi ou Sydney. Sempre matando civis inocentes.
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Dezenas de líderes e comandantes militares iranianos foram mortos na ofensiva de Estados Unidos e Israel. A reação iraniana se voltou sobretudo contra Israel, mas também contra aliados americanos como Catar, Bahrein e Emirados Árabes Unidos. Há temor de que a guerra se espalhe. Seus artífices — o americano Donald Trump e o israelense Benjamin Netanyahu — conclamaram a população iraniana a ir às ruas para derrubar o regime. Tentam se aproveitar do momento de fraqueza sem precedentes em quase cinco décadas de teocracia. Economicamente, as sanções e a corrupção endêmica têm piorado as condições de vida dos iranianos. Politicamente, os protestos abriram fissuras na elite e até na todo-poderosa Guarda Revolucionária que sustenta a ditadura. Militarmente, os ataques de junho, que destruíram instalações nucleares e o poderio defensivo iraniano, demonstraram a vulnerabilidade do país e tornaram possível a ofensiva de sábado.
Trump na certa foi incentivado pelo êxito dos ataques e pela facilidade com que derrubou o ditador venezuelano, Nicolás Maduro (embora Venezuela e Irã sejam incomparáveis). Também deve apostar no fim da teocracia como bandeira nas eleições de meio de mandato em novembro. Mas a eficácia eleitoral da iniciativa é questionável. Ele foi eleito com um discurso isolacionista, prometendo acabar com as “guerras eternas” ao estilo de Iraque e Afeganistão — intervenções americanas cujo objetivo inicial era acabar com ditaduras, mas que resultaram em atoleiros ao custo de milhares de vidas e bilhões de dólares. Desde a posse, porém, já deflagrou oito ataques externos sem aval do Congresso. Terá de se explicar aos eleitores e, caso a campanha iraniana e seus efeitos no mercado de petróleo se estendam, suas ambições podem vir a ser facilmente frustradas pelos fatos.
Com mais de 90 milhões de habitantes, o Irã é uma sociedade complexa e sofisticada. Khamenei já cuidava havia algum tempo da sucessão. A Guarda Revolucionária se mantém fiel aos princípios da Revolução Islâmica, e seu núcleo ideológico demonstra tenacidade. Há esperança de que, como o abalo agora é mais forte, derrube a teocracia. Mas não há garantia.
