Grupos criticam prisões de jornalistas nos EUA e veem ofensiva inédita contra a liberdade de imprensa sob Trump

 

Fonte:


Grupos de defesa da liberdade de imprensa, organizações civis e lideranças do Partido Democrata denunciaram as prisões de dois jornalistas independentes nos Estados Unidos — entre eles o ex-âncora da CNN Don Lemon — como um sinal de uma nova e preocupante escalada da administração do presidente Trump contra a mídia. As detenções ocorreram após a cobertura de um protesto contra ações federais de imigração em Minnesota e foram classificadas por críticos como um ataque direto à Primeira Emenda da Constituição americana.

Contexto: Com prisões de jornalistas, Trump abre novo capítulo da guerra da Casa Branca contra a imprensa

Ataque: Trump chama jornais americanos de ‘corruptos’ e sugere que cobertura crítica deveria ser ‘ilegal’

Lemon foi detido na noite de quinta-feira por agentes federais em Los Angeles, apesar de um juiz magistrado ter se recusado, uma semana antes, a autorizar acusações relacionadas à sua atuação em um protesto realizado em uma igreja de Minnesota. A manifestação ocorreu em um templo no estado e teve como alvo ações consideradas violentas do governo federal na aplicação das leis de imigração.

Outra jornalista, Georgia Fort, que também cobriu o protesto de 18 de janeiro na igreja Cities, em Saint Paul, transmitiu ao vivo sua prisão nas primeiras horas de sexta-feira por meio do Facebook. Para entidades de defesa da imprensa, o caso representa uma mudança significativa na forma como o governo federal lida com jornalistas que cobrem protestos.

— A prisão, pelo Departamento de Justiça, de jornalistas que reportam protestos anti-ICE é extremamente alarmante, especialmente considerando que múltiplos juízes se recusaram a aprovar mandados de prisão apenas na semana passada — afirmou ao The Guardian Jameel Jaffer, diretor-executivo do Knight First Amendment Institute, da Universidade Columbia.

Entrevista ao GLOBO: Imprensa pode fazer diferença na era da fragmentação, diz ex-diretor do Washington Post

Segundo Jaffer, a preocupação é ampliada pelo contexto político. Ele afirmou que “cobrir protestos não é crime”, ressaltando que a prática é protegida pela Primeira Emenda. Também disse estar “especialmente preocupado” com essas prisões porque “elas ocorrem no pano de fundo de um esforço mais amplo da administração Trump para apertar o cerco à liberdade de imprensa”, disse.

‘Ataque inequívoco’

O International Press Institute (IPI) também pediu a libertação imediata dos dois jornalistas. Em nota, o diretor-executivo da entidade, Scott Griffen, classificou as detenções como “uma escalada chocante e perturbadora da campanha da administração Trump contra a imprensa livre nos Estados Unidos”.

“As prisões de dois jornalistas independentes no exercício de suas funções constituem um ataque inequívoco à Primeira Emenda e ao direito do povo americano de saber”, afirmou Griffen. Para o IPI, o desfecho do caso terá impacto direto sobre o futuro da mídia livre no país. A entidade condenou as tentativas do governo de criminalizar o jornalismo e defendeu o arquivamento de todas as acusações.

Repressão: Ofensiva do ICE em Minneapolis tem detenção de criança, morte e imagem manipulada

A Associação Nacional de Jornalistas Negros (NABJ, na sigla em inglês) destacou, em comunicado, preocupações com o que chamou de direcionamento seletivo de profissionais da imprensa. Segundo a organização, o foco em jornalistas — “especialmente negros e LGBTQIA” — levanta questionamentos sobre aplicação desigual da lei e policiamento retaliatório contra a mídia, além de refletir um padrão mais amplo de criminalização de quem documenta injustiças.

— Como jornalistas, nossa primeira obrigação é testemunhar e informar. Quando essas obrigações são respondidas com detenção ou processo, em vez de proteção, precisamos perguntar: ‘Que mensagem estamos enviando sobre quem pode reportar e quem será silenciado?’ — disse a presidente da NABJ, Errin Haines, destacando que a detenção de jornalistas no exercício da profissão alimenta o debate sobre liberdade de imprensa.

O Comitê de Repórteres pela Liberdade de Imprensa classificou a atuação do Departamento de Justiça como “sem precedentes” e um exemplo de excesso no uso da legislação federal. De acordo com a entidade, casos envolvendo jornalistas que documentam protestos em propriedade privada, historicamente, são tratados como questões de invasão de propriedade no âmbito estadual.

— Essas acusações quase sempre são arquivadas ou, quando chegam a julgamento, os jornalistas geralmente vencem — afirmou Gabe Rottman, vice-presidente de políticas do grupo.

Sem direito ao contraditório: Trump ameaça processar autores e mídia que usam fontes anônimas

Para Jenna Ruddock, diretora de advocacy do Free Press Action, as prisões fazem parte de um “ataque total” da administração Trump às comunidades de Minnesota e de uma tentativa de silenciar a cobertura jornalística. Segundo ela, enquanto jornalistas e civis seguem documentando as condições no local “diante da escalada de violência por parte de agentes federais”, o governo estaria usando todos os meios disponíveis para sufocar esforços de documentação e reportagem.

Ruddock afirmou ainda que as detenções se inserem em uma sequência de violações da Primeira Emenda. Em sua avaliação, parte da mídia corporativa teria cedido às pressões do governo, enquanto jornalistas independentes continuam a produzir reportagens críticas em condições cada vez mais inseguras.

Uso indevido do poder

A PEN America também criticou a prisão de Don Lemon. Para Tim Richardson, diretor do programa de jornalismo e desinformação da organização, o fato de um juiz magistrado federal e um tribunal federal de apelações já terem rejeitado as provas apresentadas contra o jornalista torna a detenção ainda mais preocupante. Segundo ele, o caso evidencia o uso indevido do poder estatal para intimidar a imprensa e evitar responsabilização.

As prisões ainda provocaram reações no meio político. O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, afirmou em discurso que a detenção de jornalistas envia “uma mensagem sombria” à imprensa americana. “Se ousarem criticar esta administração, cuidem-se. Isso não é democracia. Isso é um Estado policial”, disse. Para Schumer, a democracia será prejudicada se o governo restringir as liberdades civis.

Em 2025: Governo Trump restringe acesso de jornalistas ao gabinete de imprensa da Casa Branca

Na Câmara, o líder democrata Hakeem Jeffries afirmou que não havia “base alguma” para a prisão de Lemon, também classificando o episódio como “uma afronta vergonhosa à Primeira Emenda” e uma instrumentalização do sistema de justiça criminal. Em nota, Jeffries disse que o jornalista é o alvo mais recente de ataques contra aqueles que desafiam a administração Trump e se recusam a se alinhar ao governo.

“Os extremistas ilegítimos na administração Trump serão responsabilizados por seus crimes contra a Constituição”, afirmou. “A América não será intimidada.”