Grupo explora falha no Pix e movimenta R$ 150 milhões, afirma CyberGaeco do MPRJ

 

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Em segundos, o mesmo valor saía duas vezes da conta — mesmo sem existir. A exploração de uma falha no processamento simultâneo de operações via Pix permitiu que uma organização criminosa duplicasse transferências e movimentasse mais de R$ 150 milhões em fraudes eletrônicas e lavagem de dinheiro. A investigação é do Núcleo de Combate aos Crimes Cibernéticos (CyberGaeco) do Ministério Público do Rio (MPRJ), que faz operação na manhã desta quarta-feira para prender 11 acusados.

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A investigação teve início após a empresa Dock Soluções em Meios de Pagamentos identificar uma vulnerabilidade que permitia ao cliente solicitar, ao mesmo tempo, a devolução de um Pix recebido e o envio de outro Pix de igual valor para terceiro. O sistema não reconhecia que havia saldo suficiente para apenas uma das operações e acabava autorizando as duas. Apenas nesse episódio, foram registradas 166 transações fraudulentas, que geraram prejuízo superior a R$ 826 mil, de acordo com a denúncia do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPRJ.

Como funcionava o esquema

O que parecia um golpe pontual revelou-se, segundo o Gaeco, a ponta de uma engrenagem muito maior. A denúncia descreve uma organização criminosa estável, com divisão clara de tarefas, uso sistemático de documentos falsos, criação de identidades fictícias e abertura em série de contas digitais para ampliar o alcance das fraudes.

A investigação teve início a partir de um inquérito da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC) para apurar crimes de estelionato mediante fraude cibernética e falsificação de documentos. De acordo com a denúncia do MPRJ, uma das formas de execução da fraude era a abertura de contas e movimentação de recursos por "clientes", criados pela organização criminosa a partir de documentos falsos. A análise técnica indicou reutilização de fotografias em diferentes documentos, o que, para os investigadores, evidenciaria a fabricação coordenada de identidades digitais.

Com o avanço das quebras de sigilo bancário e dos relatórios de inteligência financeira — enviados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) —, o CyberGaeco conseguiu identificar movimentações incompatíveis com a renda declarada dos investigados. Apenas dois dos principais denunciados teriam movimentado juntos mais de R$ 60 milhões. No total, segundo a promotoria, as operações atribuídas ao grupo superam R$ 150 milhões entre 2021 e 2024.

Segundo a denúncia, para ocultar a origem dos valores, os criminosos criaram um esquema complexo de lavagem de dinheiro. Empresas de fachada nos ramos de locação de veículos, hospedagem e eventos teriam sido usadas para mesclar recursos lícitos e ilícitos. Depósitos fragmentados em espécie, simulações de compra e venda de veículos e imóveis — inclusive de bens inexistentes — e sucessivas transferências entre parentes e pessoas próximas faziam parte da estratégia de ocultação.

Os investigadores do Gaeco também apontam o uso de criptoativos como etapa relevante para a lavagem de dinheiro. Parte dos valores teria sido convertida em moedas virtuais por meio de plataformas nacionais e internacionais, mecanismo que, segundo a denúncia, dificultava o rastreamento e permitia a circulação transnacional dos recursos.

Ao todo, 11 pessoas foram denunciadas por organização criminosa, estelionato qualificado por fraude eletrônica, falsificação documental e lavagem de capitais. Para o Gaeco, o caso não se trata de um golpe isolado, mas de uma estrutura hierarquizada e permanente, com ramificações no Rio e no Maranhão.

Quem é quem no esquema

Yago de Araújo Silva (atualmente Yago de Araújo Nogarolli)

Apontado como chefe do grupo. Segundo o MP, idealizou a exploração da falha no sistema de pagamentos, coordenou a abertura de contas com documentos falsos e estruturou empresas de fachada usadas na lavagem de dinheiro.

Saulo Zanibone de Paiva

Descrito como braço operacional do esquema. Teria atuado diretamente na execução das fraudes eletrônicas e na movimentação dos recursos ilícitos.

Jorge Alves de Paiva

Pai de Saulo. É acusado de atuar na ocultação e movimentação de valores, realizando transferências e depósitos para dificultar o rastreamento.

Breno Fagundes dos Reis

Apontado como “laranja” e operador financeiro. Teria figurado formalmente como sócio de empresa usada para lavar dinheiro e realizado depósitos em espécie para dar aparência de legalidade aos recursos.

Graciene de Sena Nogarolli

Esposa de Yago. Segundo a denúncia, movimentava valores em contas conjuntas e participou de simulações de operações comerciais.

Leandro de Araújo Silva

Irmão de Yago. Teria atuado na intermediação de transferências e na criação de camadas de ocultação por meio de contas pessoais e empresariais.

Bruno Fagundes dos Santos

Pai de Breno. É acusado de realizar depósitos em espécie e simular operações comerciais para inserir recursos no sistema financeiro.

Beatriz dos Santos Ferreira

Companheira de Saulo. Teria disponibilizado contas bancárias usadas como “contas de passagem” para fragmentar valores.

Ianca da Conceição Pereira

Apontada como operadora de contas utilizadas para receber e redistribuir valores, auxiliando na estratificação dos recursos.

Celis de Castro Medeiros Junior

Descrito como intermediário financeiro entre o núcleo do Maranhão e o do Rio, responsável por repassar recursos entre empresas e pessoas físicas.

Alex Maylon Passinho Dominici

Indicado como responsável pela injeção inicial de recursos na cadeia de lavagem e pela criação de empresas usadas na fase inicial de ocultação dos valores.

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