Grupo Astra, jóqueis e expressões da era do ex-chefe da Polícia Civil Hélio Luz ressurgem após a saída de Castro
Em junho de 1995, o delegado Hélio Luz recebeu do então secretário de Segurança Pública, general Nilton Cerqueira, a missão de “dar um jeito na Polícia Civil”. O Rio de Janeiro atravessava uma grave crise na segurança pública, e havia delegados que se comportavam como verdadeiros “donos das delegacias”. Ao assumir o comando da corporação, Luz concluiu que, para reorganizar a polícia, precisaria mexer na estrutura de poder das unidades e separar os delegados dos inspetores, que, na prática, eram quem tocava o dia a dia das delegacias.
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A reação veio rápido. Bastou a transferência de dois policiais da ponta para delegacias distantes da Região Metropolitana para que cerca de 20 inspetores e detetives pedissem uma reunião com o chefe da Polícia Civil. O grupo se apresentou como Grupo Astra.
Seus integrantes se viam como uma espécie de tropa de elite da corporação, um time de “astros” disposto a enfrentar os problemas mais urgentes da segurança pública, sobretudo a onda de sequestros que fazia empresários e seus familiares entre as principais vítimas. Dentro da polícia, o Astra dividia opiniões. Para alguns, reunia agentes eficientes; para outros, era um grupo “problemático”. Na conversa com Luz, os policiais pediram o fim das transferências. O acordo prosperou. Entre as lideranças estavam Fernando Cezar Hakme — que, à época, usava o nome Fernando César Barbosa — e José Carlos Guimarães.
Os dois foram exonerados em 31 de março pelo governador em exercício, desembargador Ricardo Couto, dos cargos de assessores especiais da Casa Civil. Hakme era o responsável pelo Projeto Sentinela, vitrine da gestão de Cláudio Castro (PL) na área da segurança. Anunciado pelo ex-governador, o programa prevê a compra de mais de 220 mil câmeras com inteligência artificial e outros equipamentos de vigilância, em um investimento de R$ 2 bilhões. A licitação foi iniciada em fevereiro deste ano, mas, até agora, ainda não havia previsão para o início da implantação do sistema.
Hakme e Guimarães são comissários da Polícia Civil — o primeiro, já aposentado — e sempre gozaram de prestígio na corporação. Hakme era um dos principais conselheiros de Cláudio Castro, que renunciou ao cargo na semana passada. Sua saída marca o fim de um ciclo de influência no governo fluminense, já que ele também teve espaço na gestão do ex-governador Sérgio Cabral.
Ao relembrar o período em que Hakme integrava o Astra, Hélio Luz afirma que os inspetores e detetives tinham seus nomes diretamente associados aos delegados. E diz que foi justamente essa lógica que tentou desmontar:
— Chefes de polícia não podem ser comprometidos. Essa é a diferença de quando assumi o cargo, há mais de 20 anos. Todos me respeitaram. É difícil resolver os problemas da polícia neste estado, principalmente quando se tem tanto político para agradar. Quando chegavam para mim pedindo algo, eu dizia: “Sinto muito, não posso fazer nada” ou “não tenho alçada para fazer isso”. A corrupção arrebenta com a democracia — resumiu Luz.
Outra expressão desse universo surgiu após a saída de Luz do comando da Polícia Civil, em setembro de 1997: “jóquei”. Com a perda de poder dos delegados, inspetores e detetives passaram a ser chamados assim porque eram eles que, na prática, mandavam nas unidades e corriam para administrar as delegacias.
