Grave acidente com Maricá, tensão na Estácio e Império com Conceição Evaristo: como foi a segunda noite da Série Ouro

 

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A segunda noite de desfiles da Série Ouro foi marcada por tensão e por um grave acidente envolvendo a Unidos de Maricá. A última alegoria da escola bateu contra a frisa do setor 12 e atingiu ao menos três pessoas. Uma das vítimas, integrante da equipe de apoio da escola, sofreu fratura grave na perna direita. O acidente mudou o clima na Sapucaí, que, até aquele momento, era de celebração, com desfiles de alto nível e arquibancadas lotadas. Um dos maiores destaques da noite foi o Império Serrano, com a presença ilustre de Conceição Evaristo, ovacionada pelo público. Confira os detalhes sobre as escolas.

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A Unidos da Ponte foi a última escola a entrar na Avenida. A agremiação viu o amanhecer enquanto atravessava o Sambódromo. A escola, que teve como enredo os bailes funk do Rio, encerrou a noite de desfiles da Série Ouro neste sábado.

Desfile da Unidos da Ponte

Alexandre Macieira | Riotur

Porto da Pedra: prostitua de 83 anos foi destaque da escola

Escola que celebra a força das prostitutas, a Unidos de Padre Miguel, sétima escola da Série Ouro a entrar na Sapucaí, teve como uma dos destaques uma profissional do sexo de 83 anos. Lourdes Barreto veio no último carro alegórico. Quem elegeu sua presença como o ponto alto da apresentação foi o próprio carnavalesco da agremiação, Mauro Quintaes.

— Lourdes Barreto é prostituta, militante e eleita uma das cem mulheres mais importantes do século. Uma mulher que fundou, junto com Gabriela Leite, o Coletivo Nacional de Prostitutas. Essa mulher está aqui hoje, representando todas as prostitutas do Brasil — definiu Quintaes.

Desfile da Porto da Pedra

João Salles | Riotur

Lourdes elogiou o samba. Um dos versos, diz: “Uma puta mulher que sabe o que quer, em casa, na cama ou rua”.

— Foi muito lindo, e eu estou muito feliz. Quero parabenizar a comunidade de São Gonçalo, a Porto da Pedra. A luta é muito grande, e esse desfile mostra que o movimento de puta está organizado no Brasil e no mundo. Em algum momento, toda mulher é vista como puta. Então, todas estamos na luta — destacou Lourdes.

O carnavalesco acredita que o enredo encenado na Avenida tem potencial de mudar a visão da sociedade em relação às prostitutas.

— A intenção do enredo é mostrar um pouco da história dessas mulheres e tentar diminuir o estigma que essas mulheres carregam por séculos e séculos. Se conseguirmos um percentual pequeno de mudança, já estaremos felizes — pontuou Quintaes. — Queremos diminuir o estereótipo em relação a essas mulheres, mostrando que são profissionais, mães, avós, filhas…A intenção não é glamourizar, muito menos fazer apologia.

No início do desfile, uma das prostitutas que atravessaram a Avenida pela escola falou ao microfone que definiu o desfile como “ultrafeminista”.

— Vamos mostrar o poder das puras — avisou.

A comissão de frente reproduziu pontos de prostituição do Rio, como a Rua Vila Mimosa, um dos redutos mais antigos do país e mais emblemáticos da cidade.

União de Maricá: grave acidente com três feridos

Na corrida para não estourar o relógio, a União de Maricá, sexta escola da Série Ouro a desfilar neste sábado, sofreu um grave acidente na Sapucaí. A última alegoria da escola bateu contra a frisa do setor 12 e atingiu ao menos três pessoas. Uma das vítimas, profissional da equipe de apoio da escola, ficou gravemente ferida. O homem foi transferido para o Hospital Municipal Souza Aguiar. Com a situação, algumas pessoas na dispersão e no setor 12 passaram mal e precisaram de atendimento no posto médico da Sapucaí.

O clima, que era de confiança, mudou totalmente depois do acidente. Até aquele momento, o desfile estava cercado de imponência, iniciado com um show de drones. A escola entrou na Avenida sob uma queima de fogos que durou 13 minutos, um a mais que o Réveillon de Copacabana. A agremiação desfilou com um tema que valoriza a joalheria afro-brasileira e os balangandãs, pequenos amuletos e adornos usados historicamente por mulheres negras como símbolos de fé, proteção, beleza e poder espiritual. A proposta, desenvolvida pelo carnavalesco Leandro Vieira — que, além do desfile da escola da Região Metropolitana, também é responsável pelo carnaval da Imperatriz — contou ainda com um time de peso, como Patrick Carvalho na comissão de frente e Zé Paulo no carro de som, entre outros.

A escola transformou a Sapucaí em uma grande vitrine para as formas, cores e significados desses artefatos, que contam histórias de movimentos culturais e da identidade negra.

Desfile da União de Maricá

Alexandre Macieira | Riotur

Com fantasias e alegorias bem acabadas e ricas em detalhes, a escola iniciou o desfile com muito dourado e brilho, remetendo a pedras preciosas. Este é o segundo ano em que a agremiação recebe um aporte de R$ 8 milhões da Prefeitura de Maricá.

Os carros lembravam oficinas e ateliês de joalheiros, além de alas que representavam tradições e saberes ancestrais. A narrativa de Leandro Vieira se mostrou uma celebração estética, histórica e política, evidenciando como a cultura material — como as joias — pode ser um veículo de afirmação de dignidade e criatividade.

Estácio de Sá: escola sofreu tensão na Sapucaí após dificuldade para entrada de carro alegórico

Quinta escola a desfilar na segunda noite da Série Ouro, a Estácio de Sá enfrentou momentos de tensão na Sapucaí. De grandes dimensões, o último carro alegórico da escola teve dificuldade para entrar na Avenida, o que provocou apreensão no público e nos componentes. Quando a alegoria finalmente despontou ilesa, os foliões aplaudiram de pé nas arquibancadas do Setor 1 e gritaram em comemoração.

Estácio de Sá desfilando na Sapucaí

Tata Barreto | Riotur

A alegoria simbolizava a essência de Tata Tancredo, líder religioso de matriz africana homenageado pela escola, e reunia parentes, amigos e representantes de terreiros do Rio de Janeiro.

Passada a apreensão, a escola seguiu o desfile em grande estilo, com os componentes entoando o samba-enredo a plenos pulmões, especialmente o trecho “Macumba é macumba”, em exaltação às religiões de matriz africana. A Estácio conseguiu concluir a apresentação em 53 minutos, dentro do tempo limite de 55 minutos.

Conceição Evaristo é reverenciada na Sapucaí e emociona público no desfile do Império Serrano

Era 0h59 quando Conceição Evaristo se posicionou em seu lugar no carro abre-alas do Império Serrano, quarta escola a cruzar a Marquês de Sapucaí. Com a ajuda de um guincho, a escritora acomodou-se no trono confeccionado no segundo andar da alegoria. Cerca de 10 minutos depois, ao atravessar o setor 1, a homenageada da verde e branca de Madureira demonstrou toda a alegria e disposição que a acompanharam ao longo do desenvolvimento do enredo. Ficou de pé, cantou o samba com fervor e interagiu com o público, que a reverenciou.

Ao longo do percurso, Conceição Evaristo alternava entre emoção e euforia. Com a letra do samba-enredo na ponta da língua, cantava em direção ao público, acenava com as mãos e lançava beijos, esbanjando carisma.

Império Serrano desfilando na Série Ouro

Luiza Monteiro | Riotur

Ora em pé, ora sentada no trono do abre-alas, era saudada pelo público com gritos de “maravilhosa”, “deusa”, “ícone” e “te amo”, que retribuíam o carinho da homenageada. Celulares a postos registravam cada momento da escritora.

— O acolhimento do público foi o que mais me emocionou — revelou.

Na dispersão, foi a última a descer do carro, exatamente uma hora depois de ter embarcado no veículo. No chão, o corpo já demonstrava cansaço. Ainda assim, ao se dirigir para fora da área, auxiliada pelo irmão e por uma integrante da escola, Conceição manteve o olhar enérgico e o sorriso sereno, que remetem à calmaria das serras mineiras.

— Estou com uma expectativa imensa em relação à posição que a escola vai conquistar. É um prazer muito grande ver um texto literário, criado a partir da perspectiva de uma mulher negra, tornar-se uma aula pública. Isso me faz refletir e desejar, cada vez mais, a literatura como um direito. O livro e a escrita precisam pertencer a todos — completou.

O enredo inspirado na escrita e nas “escrevivências” (termômetro da experiência vivida) foi desenvolvido pelo carnavalesco Renato Esteves.

— Foi um enredo feito com muito respeito, admiração e carinho. Fazer um enredo desse no Império, escola marcada por grandes nomes de mulheres, tem um peso diferente. Então, finalmente aconteceu, lindo e tomara que tenhamos o melhor resultado — disse Renato Esteves.

A escola transformou texto em imagem, unindo personagens literários e biografia da autora em diferentes carros e alas que exploraram sua trajetória. Um dos destaques foi o abre-alas, que tinha Conceição ao centro da alegoria. A ala das baianas também tirou o fôlego do público presente nas frisas. O samba foi cantado com força pelo chão da escola e espectadores.

No fim do desfile, ocorreu uma confusão entre integrantes da escola. Com o relógio próximo de estourar e ainda tendo escolar para alcançar a apoteose, houve um desentendimento sobre o andamento da agremiação.

Entre gargalhadas e resistência, Arranco reverencia a mulher por trás do palhaço Xamego

Terceira escola a pisar na Avenida no segundo dia da Série Ouro, o Arranco do Engenho de Dentro desfilou com o enredo “A Gargalhada e o Xamego da Vida”, uma homenagem à trajetória de Maria Eliza Alves dos Reis, a mulher por trás do palhaço Xamego. A artista brilhou no circo em um tempo em que mulheres enfrentavam fortes barreiras de gênero e racismo para atuar na arte circense. O pioneirismo feminino também esteve presente em outros segmentos da escola, como no caso da mestre de bateria Laíssa.

— Esse é o desfile da minha vida. Foi muito trabalho, muita luta e chegar aqui, nessa noite, é um sonho realizado. Agora eu espero que mais mulheres tenham oportunidades — disse a mestre de bateria.

A carnavalesca Annik Salmon desenvolveu um desfile que transformou a Sapucaí num picadeiro de circo, lembrando o papel do humor e da alegria como formas de resistência.

O desenvolvimento do desfile apostou em cores fortes, como o azul e o vermelho, movimentos coreografados em diferentes alas que evoquem o ambiente circense e fantasias que remetem a homenageada.

Além do matriarcado da escola, foi destaque o samba-enredo que caiu na boca do público que longo do desfile.

O último carro, que contava com um palhaço no balanço ao topo da alegoria, também animou o público. No entanto a escola teve alguns pequenos problemas de evolução. Contudo, a escola fechou o desfile em 53 minutos.

Fé, força feminina e superação marcam desfile da Em Cima da Hora

A Em Cima da Hora colocou na avenida o enredo "Salve todas as Marias- Laroyê, Pombagiras!", uma exaltação pombagiras — entidades femininas que representam força, independência, resistência e sensualidade no imaginário das religiões de matrizes africanas. O desfile misturou elementos místicos, cores vibrantes e a energia de um samba que celebra a vida dessas figuras que, historicamente, foram marginalizadas e estigmatizadas.

Em Cima da Hora no desfile da Sapucaí

Luiza Monteiro | Riotur

Fantasia e ambientação destacaram elementos de gira de candomblé e umbanda, encruzilhadas, cores fortes e símbolos ligados à devoção dos fiéis, tudo isso com tratamento carnavalesco Rodrigo Almeida.

Mas no começo do desfile um fato chamou atenção do setor 1 e preocupou o torcedor de Cavalcanti. Igor Pitta, interprete da Em Cima da Hora, chegou na Marquês de Sapucaí com o dedo da mão quebrado após sofrer acidente no caminho da Avenida. Mesmo assim, ele não se desanimou:

— Esse problema não vai atrapalhar o desempenho do automóvel de som, muito menos da escola. Pelo contrário, dá mais disposição e concentração para colocarmos a energia no alto — disse Igor Pitta minutos antes de entrar na avenida.

O presidente da escola, Heitor Fernandes, falou brevemente no microfone da Sapucaí, mas comentou a situação do intérprete.

— Ele é um profissional muito comprometido que sabe utilizar a voz como poucos. Tenho certeza que o problema não vai atrapalhar nosso desfile. Vamos brigar pelo título — disse o presidente.

Comissão de frente

Com um tripé de grandes proporções e coreografia de Marcio Moura, a Comissão de frente da Em Cima da Hora causou empolgação nos primeiros setores da Sapucaí.

— Fazer uma Comissão de frente para um enredo tão importante quanto esse foi um desafio e tanto. Além de exaltar as entidades, estamos exaltando toda força feminina — disse Marcio Moura.

A escola buscou transmitir liberdade, coragem e a quebra de preconceitos, transformando a avenida em um espaço de festa e reflexão sobre identidade e espiritualidade.

Botafogo Samba Clube teve homenagem a Burle Marx e aposta em virada artística

A Botafogo Samba Clube abriu a segunda noite de desfiles na Série Ouro com um enredo que homenageou o paisagista e artista Roberto Burle Marx, referência do modernismo e da botânica brasileira. A agremiação apostou no desfile após receber críticas sobre a forte ligação com o futebol.

— Depois do carnaval do ano passado conversamos internamente e reconhecemos que estava na hora de apostar em algo diferente do futebol. Nossos carnavalescos vieram com essa proposta maravilhosa e resolvemos seguir. Vamos mostrar que sabemos fazer carnaval distante do futebol — disse Felipe Yaw, vice-presidente da escola.

Mesmo tendo sido fundada apenas em 2018, a escola vinha recebendo críticas por sempre apresentar enredos ligados ao futebol. Neste ano, os carnavalescos Alexandre Rangel e Raphael Torres são os responsáveis por uma mudança no estilo.

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— A gente já queria ter mudado o perfil dos desfiles da escola no ano passado, quando homenageamos o clube. Infelizmente, não foi possível, mas nesse ano apresentamos um novo perfil da Botafogo. Desfile com muita cor e segurança — revela Sandro Lima, presidente da agremiação.

A escola levou para avenida um abre-alas inspirado em jardins abstratos e composições artísticas, refletindo o olhar e a riqueza cromática que marcaram a obra de Burle Marx.

— Estou voltando para escola nesse ano e assim como a escola estou mais maduro para desenvolver um excelente desfile. Nossa bateria vai passar com calma e segurança — pontuou Marfim, mestre de bateria da escola.