Grande sertão: savana
A primeira edição de “Grande Sertão: Veredas” veio a público em maio de 1956, com a chancela da José Olympio Editora. Passaram-se 70 anos. Para assinalar a data, o Museu da Língua Portuguesa organizou, em São Paulo, uma sessão de leitura do romance. Participei do evento há exatamente uma semana, ao lado de Leda Maria Martins e de Bruna Beber.
Enquanto escutava as minhas companheiras lendo trechos do livro, enquanto eu mesmo lia, espantava-me com a vitalidade das palavras de João Guimarães Rosa. Setenta anos depois, o romance continua tão novo, tão vigoroso, tão surpreendente — na linguagem e no enredo — como quando chegou pela primeira vez às livrarias.
“Grande Sertão: Veredas” mudou para sempre a literatura brasileira. O que poucos brasileiros sabem é que também mudou, para sempre, a literatura angolana e, numa segunda etapa — eco de um eco —, a literatura moçambicana.
Em 1964, o angolano José Vieira Mateus da Graça foi enviado para o campo de concentração do Tarrafal, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, acusado de ligações com os movimentos independentistas. No Tarrafal, hoje transformado em museu, estavam presos muitos portugueses ligados aos partidos que se opunham à ditadura salazarista, além de numerosos nacionalistas africanos.
Naquela época, José da Graça já era o escritor Luandino Vieira, nome com o qual assinara um breve livro de contos, “Luuanda”, que em 1965 recebeu um dos mais prestigiados prêmios literários portugueses. O caso provocou enorme escândalo político e levou ao fechamento da Associação Portuguesa de Escritores, responsável pela premiação — e acusada, por isso, de ter premiado um “terrorista”.
Em 1969, Luandino recebeu na prisão um exemplar de “Grande Sertão: Veredas”. O diretor da cadeia tentou ler o livro para averiguar sua eventual natureza subversiva, mas desistiu logo nas primeiras páginas.
— Isto é ininteligível — teria comentado.
A iliteracia da polícia política portuguesa beneficiou Luandino Vieira — e toda a literatura angolana.
Lendo João Guimarães Rosa, Luandino compreendeu que também podia subverter a língua portuguesa, angolanizando-a, criando assim uma literatura que se afastasse da portuguesa. Era um projeto político, tanto quanto literário.
Os livros de Luandino ganharam enorme densidade e um tempero único. Lendo, por exemplo, “Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto & eu” ou o belíssimo “Nós, os do Makulusu”, adivinha-se a sombra tutelar de Rosa. Contudo, já estamos, definitivamente, em outro universo.
Muitos anos depois, um jovem moçambicano leu Luandino e, estudando o português popular de seu país — profundamente contaminado pelas línguas locais —, experimentou um exercício semelhante. Assim nasceu Mia Couto.
Se Luandino é filho de Rosa, Mia é neto. Essa improvável linhagem literária constitui uma das mais belas aventuras da literatura em língua portuguesa.
Setenta anos depois, “Grande Sertão: Veredas” continua produzindo futuros. Há livros que envelhecem. Outros frutificam e espalham sementes. Às vezes, do sertão para a savana.
