247 – As administrações dos presidentes Joe Biden e Donald Trump recorreram repetidamente ao empresário Elon Musk, proprietário da SpaceX, para interferir no funcionamento da rede de satélites Starlink em países envolvidos em conflitos militares e disputas geopolíticas. Os pedidos incluíram tanto a interrupção de comunicações de grupos considerados adversários de Washington quanto a ampliação do acesso à internet para forças militares aliadas e movimentos de oposição a governos estrangeiros.
As informações foram reveladas pela agência Reuters, em reportagem publicada neste sábado (24), com base em depoimentos de seis ex-altos funcionários estadunidenses familiarizados com as negociações. Segundo as fontes, que falaram sob anonimato, as solicitações ocorreram ao longo dos governos Biden e Trump e demonstram como uma empresa privada passou a desempenhar um papel estratégico na execução da política externa e militar dos Estados Unidos.
A investigação revela que autoridades estadunidenses solicitaram à SpaceX a suspensão de terminais utilizados por integrantes do Hezbollah, no Líbano, e dos houthis, no Iêmen, além da ativação do Starlink na Ucrânia e no Irã. No caso iraniano, as iniciativas envolveram tentativas de facilitar o acesso à internet durante manifestações contra o governo e após ataques militares realizados pelos Estados Unidos e por Israel.
As revelações surgem em meio a uma nova controvérsia envolvendo a SpaceX, depois que restrições impostas aos sistemas de comunicação utilizados pelas Forças Armadas ucranianas prejudicaram operações militares contra a Rússia. Trump discutiu ativação do Starlink no Irã após ataques militares
De acordo com a Reuters, integrantes do governo Trump discutiram diretamente com Musk e representantes da SpaceX a possibilidade de disponibilizar terminais Starlink no Irã após ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel em junho de 2025 e novamente em fevereiro de 2026.
O objetivo era ampliar o acesso à internet e facilitar a comunicação de manifestantes contrários ao governo iraniano, segundo um ex-alto funcionário da administração Trump e outra pessoa com conhecimento das conversas. A iniciativa ocorreu em um contexto de confrontos militares e tensões políticas envolvendo Washington, Tel Aviv e Teerã.
Apesar das discussões, nem o governo Trump nem a SpaceX confirmaram publicamente que os equipamentos foram efetivamente ativados. Em fevereiro, o jornal The Wall Street Journal informou que o governo estadunidense havia enviado milhares de terminais Starlink ao território iraniano.
A representação diplomática do Irã nas Nações Unidas não respondeu ao pedido de comentário da Reuters. A atuação de Washington no país, entretanto, não começou com Trump.
Durante a administração Biden, autoridades também solicitaram à SpaceX a ativação do serviço no Irã, em meio aos protestos desencadeados em setembro de 2022 após a morte de Mahsa Amini, detida pelas autoridades iranianas por supostamente descumprir as regras de uso do hijab. Um ex-funcionário afirmou que equipamentos Starlink foram introduzidos no território iraniano com auxílio do governo estadunidense, mas não revelou quantos terminais foram enviados.
Governo Biden pediu bloqueio de comunicações no Líbano e no Iêmen As solicitações à SpaceX também envolveram operações destinadas a restringir o acesso de organizações armadas à rede de comunicação por satélite.
Segundo cinco ex-funcionários ouvidos pela Reuters, representantes da Casa Branca e do Pentágono mantiveram contatos frequentes com a empresa para impedir que grupos associados ao Irã utilizassem equipamentos Starlink. Entre os principais alvos estavam o Hezbollah, no Líbano, e o movimento houthi, no Iêmen.
Em outubro de 2023, durante confrontos entre Israel e o Hezbollah no sul do Líbano, integrantes dos serviços de inteligência estadunidenses alertaram a Casa Branca sobre a possibilidade de pessoas ligadas à organização terem obtido terminais Starlink. Preocupações semelhantes surgiram em 2024, quando os Estados Unidos realizavam operações aéreas contra os houthis no território iemenita.
As autoridades identificaram indícios de que equipamentos originalmente destinados a outros usuários haviam chegado aos grupos armados por intermédio de terceiros. Nos dois episódios, o governo Biden solicitou à SpaceX que identificasse os terminais e interrompesse seu funcionamento.
Dois ex-funcionários confirmaram que pelo menos parte dos dispositivos foi desativada. Em uma comunicação encaminhada ao Departamento de Comércio dos Estados Unidos em 2024, a SpaceX afirmou que trabalhava em estreita colaboração com órgãos governamentais para obter autorizações de exportação e proteger suas tecnologias, em consonância com os objetivos de segurança nacional e política externa de Washington.
Restrições na Ucrânia expõem dependência militar de Musk A relação entre o governo estadunidense e a SpaceX ganhou ainda mais relevância após a recente redução da capacidade dos serviços Starlink e Starshield utilizados pelas forças ucranianas.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou na semana passada que o acesso ao Starshield, versão militar do sistema de comunicação da SpaceX, havia sido deliberadamente limitado, prejudicando o desempenho dos drones empregados pelas Forças Armadas. Zelensky também relatou uma redução na velocidade do Starlink, utilizado em diferentes operações militares, incluindo sistemas relacionados à defesa contra ataques russos com mísseis.
Segundo informações anteriormente divulgadas pela Reuters, a determinação para restringir o desempenho do Starshield partiu de dentro da Casa Branca. A administração Trump reconheceu a redução de velocidade, mas não esclareceu se havia determinado a medida.
Questionada sobre o episódio, a Casa Branca encaminhou a agência às declarações feitas por Trump na sexta-feira. O presidente afirmou que não havia conversado com Musk sobre as dificuldades enfrentadas pela Ucrânia e declarou:
“Se houver um problema, vou resolvê-lo.” A porta-voz da Embaixada da Ucrânia em Washington, Halyna Yusypiuk, destacou a urgência de restabelecer o funcionamento dos sistemas.
“Ter o serviço restaurado à velocidade normal o mais rápido possível, pois a vida de nosso povo depende disso.” A SpaceX não respondeu aos pedidos de comentário da Reuters.
Musk, entretanto, afirmou em uma publicação nas redes sociais que as decisões relativas ao Starshield cabem às autoridades estadunidenses. “Os sistemas Starshield pertencem ao governo dos EUA e são controlados por ele.
Quaisquer limites de velocidade ou uso são decididos pelas Forças Armadas dos EUA e, em última instância, pelo presidente dos Estados Unidos.” A situação provocou preocupação entre autoridades europeias, que passaram a questionar a dependência de uma infraestrutura controlada por uma empresa estadunidense para operações militares consideradas essenciais.
Atualmente, segundo a reportagem, não existe uma alternativa capaz de substituir integralmente, no curto prazo, os serviços fornecidos pela SpaceX. Musk já havia restringido operações ucranianas em 2022
A controvérsia atual não representa o primeiro episódio de interferência no acesso das forças ucranianas à rede Starlink. Em 2022, conforme revelou anteriormente a Reuters, Musk determinou que funcionários da SpaceX interrompessem a cobertura do sistema em áreas que a Ucrânia tentava recuperar das forças russas.
A decisão surpreendeu integrantes da Casa Branca e demonstrou a capacidade do empresário de influenciar diretamente as condições de comunicação em um conflito armado. Musk também reconheceu publicamente ter recusado uma solicitação ucraniana para ativar sua rede de satélites na cidade portuária de Sebastopol, na Crimeia, com o objetivo de apoiar um ataque contra a frota russa.
Na ocasião, o empresário justificou a recusa afirmando que temia se tornar cúmplice de um grande ato de guerra. Paralelamente, o governo Biden havia pressionado a SpaceX, logo após o início da ofensiva militar russa em fevereiro de 2022, para ampliar a disponibilidade do Starlink às forças ucranianas.
Os episódios mostram que a mesma infraestrutura tecnológica foi utilizada tanto para apoiar operações militares quanto para restringi-las, dependendo das decisões tomadas pela empresa e das negociações com o governo estadunidense. Poder de Musk sobre comunicações militares provoca críticas nos EUA
A crescente influência da SpaceX sobre sistemas considerados estratégicos para a segurança nacional dos Estados Unidos também desencadeou questionamentos sobre os limites da atuação de empresas privadas em decisões de política externa. O deputado democrata Jason Crow cobrou, na sexta-feira, esclarecimentos sobre as mudanças recentes no funcionamento dos serviços de satélite utilizados pela Ucrânia.
“Bilionários não eleitos e corporações privadas não deveriam decidir o que é melhor para a segurança nacional dos Estados Unidos”, afirmou Crow. Para Armand Musey, presidente da consultoria especializada no setor de satélites Summit Ridge Group, a posição ocupada por Musk ultrapassa as atribuições normalmente associadas a um empresário contratado pelo governo.
“Ele deveria ser um executivo empresarial, com contratos governamentais, e está essencialmente tomando enormes decisões de política externa”, afirmou. Musey também apontou a dificuldade de identificar os fatores que influenciam as decisões do proprietário da SpaceX.
“Ele é uma pessoa suficientemente ambígua para que você não saiba se suas decisões são uma espécie de peculiaridade pessoal ou se existe alguma influência externa que o esteja afetando.” A dependência dos Estados Unidos em relação à empresa tornou-se particularmente significativa porque seus sistemas são utilizados não apenas pelas forças estadunidenses, mas também por países aliados em operações militares.
Na Ucrânia, o Starlink tornou-se fundamental para as comunicações entre unidades posicionadas na linha de frente. Já os receptores Starshield são empregados na orientação de drones e na manutenção de conexões com operadores remotos, inclusive em operações realizadas atrás das linhas russas.
Esses equipamentos apresentam elevada resistência a interferências de rádio, característica considerada decisiva para seu emprego militar. A investigação da Reuters evidencia, portanto, uma relação na qual diferentes governos estadunidenses recorreram à infraestrutura privada de Musk para executar decisões estratégicas no exterior.
Ao mesmo tempo, as restrições impostas à Ucrânia expõem os riscos de concentrar em uma única empresa o controle de sistemas de comunicação essenciais à condução de conflitos e à segurança de países aliados.
Brasil 247