Governo Lula faz ofensiva com ministros pelo Senado e escala nomes fortes para enfrentar aliados de Bolsonaro

 

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Oito anos após a primeira onda bolsonarista nas urnas, a abertura de duas vagas no Senado por estado motivou uma ofensiva do governo Lula, que tem apostado na candidatura de ministros à Casa. O Planalto, que vive uma relação de altos e baixos com o Legislativo durante este mandato, quer priorizar nomes fortes da Esplanada em São Paulo, Paraná, Bahia e Mato Grosso, estados onde os governistas devem enfrentar aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Entre os prováveis opositores estão de ex-secretário da gestão Tarcísio de Freitas a ministros da gestão passada.

Para o PT, a eleição ao Senado é vista como essencial para a governabilidade de Lula em um eventual quarto mandato. Mas a briga nos estados não será fácil, uma vez que pesquisas locais em que nomes já foram testados mostram um equilíbrio de forças, quando não dão vantagens para a oposição.

A disputa paulista é a que mais reúne ministros cogitados para o Senado, e o clima no Planalto é de indefinição. Estão no páreo Fernando Haddad (PT), da Fazenda; Marina Silva (Rede), do Meio Ambiente; Simone Tebet (MDB), do Planejamento; e Márcio França (PSB), do Empreendedorismo. Com exceção de Marina, todos são opções também para concorrer ao governo do estado, sendo Haddad o plano principal. A construção de uma chapa forte no maior colégio eleitoral do país é vista como prioritária para a reeleição do presidente Lula.

Frentes da oposição

A oposição, por sua vez, se organiza em diferentes frentes. O ex-ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro e deputado federal Ricardo Salles é o nome do Novo na disputa, num cenário em que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tenta a reeleição. Se o governador decidir pela corrida presidencial — o que ele vem negando repetidamente —, Salles indica que será candidato ao Executivo estadual.

Aliado de Tarcísio, o ex-secretário de Segurança do estado, Guilherme Derrite (PP), também tem candidatura encaminhada ao Senado. Uma chapa com o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, como os dois nomes do bolsonarismo na disputa, havia sido selada em 2024, mas a ida do ex-parlamentar aos Estados Unidos impossibilitou a costura política.

No PL, também há indefinição. A sigla, que deve lançar ao menos um nome ao Senado, tem a família Bolsonaro dividida. Enquanto Eduardo defende a escolha dos deputados Gil Diniz (estadual) e Mário Frias (federal), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro quer a deputada federal Rosana Valle como a representante da legenda. O também deputado federal Marco Feliciano corre por fora e já afirmou a dirigentes que gostaria de disputar uma cadeira da Casa.

Na chapa a ser montada pelo Planalto, as candidaturas de Tebet e Marina dependeriam de uma troca de partido. Com divergências internas na Rede, a ambientalista foi convidada a retornar ao PT. Também demonstram interesse na filiação da ministra o PSB, PDT, PSOL e PV.

Tebet, por sua vez, sabe que seu partido, o MDB, em São Paulo, deve apoiar a campanha de reeleição de Tarcísio. O Planalto sugeriu, portanto, que ela se filie ao PSB, que está em chapas governistas em 15 estados, segundo interlocutores da sigla. Simone Tebet é vista ainda como plano B, caso Haddad não concorra ao Palácio Bandeirantes.

Em Mato Grosso, o ministro Carlos Fávaro (PSD) também chegou a ser sondado pelo PSB, mas aliados avaliam que ele deve ficar onde está. No estado, forte no agronegócio, setor simpático ao bolsonarismo, ele deve concorrer com o bem avaliado governador Mauro Mendes (União), o deputado federal José Medeiros (PL), a deputada estadual Janaina Riva (MDB) e o ex-senador Pedro Taques (PSDB).

Mendes é aliado de Bolsonaro e chegou a participar, em abril do ano passado, de um ato em São Paulo pela defesa da anistia aos envolvidos no 8 de Janeiro. Na mesma toada, Medeiros, ex-vice-líder do governo passado na Câmara, esteve ao lado do deputado Nikolas Ferreira (PL) na caminhada feita de Minas a Brasília, há duas semanas. O parlamentar aposta na pauta de costumes e já recorreu à Procuradoria-Geral da República (PGR) para impedir que o governo usasse linguagem neutra em seus canais oficiais.

Do Sul ao Nordeste

A disputa no Paraná colocará a ministra Gleisi Hoffmann (PT), de Relações Institucionais, contra símbolos do lavajatismo no estado. O deputado federal bolsonarista Filipe Barros será o candidato do PL, enquanto o ex-procurador da Lava-Jato Deltan Dallagnol concorrerá pelo Novo. Deltan teve o mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2023, enquadrado na Lei da Ficha Limpa, e deve ter sua candidatura questionada na Justiça Eleitoral. O União Brasil, por sua vez, deve lançar a jornalista Cristina Graelm, que foi ao segundo turno nas eleições de 2024 em Curitiba, com discurso conservador. Já o MDB deve ter o ex-governador Álvaro Dias como candidato.

A ideia inicial era que Gleisi disputasse a reeleição na Câmara, mas o PT quer fortalecer a chapa do deputado federal Requião Filho (PDT) ao governo do estado contra o senador e ex-juiz da Lava-Jato Sergio Moro (União), além de investir na polarização.

Barros, hoje presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, é voz atuante na defesa da anistia a Bolsonaro. Ele foi incluído pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, no mesmo inquérito que apura possível prática de crime contra a soberania nacional, praticado por Eduardo.

Na Bahia, uma chapa puro-sangue com Rui Costa e o senador Jacques Wagner ao Senado pode azedar uma aliança do PT com o PSD do senador Angelo Coronel, que deseja concorrer à reeleição na chapa do governador petista Jerônimo Rodrigues, que também busca novo mandato. Do lado bolsonarista, a aposta é na candidatura do presidente regional do PL e ex-ministro João Roma. O outro nome da direita deve ser definido pelo grupo aliado ao ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União). São cotados o ex-deputado federal Marcelo Nilo e o deputado federal Márcio Marinho, ambos do Republicanos.

Além de ministros, a sigla aposta em antigos ocupantes da Esplanada, como Paulo Pimenta, na reeleição dos senadores Randolfe Rodrigues (AP) e Fabiano Contarato (ES) e em governadores, como Fátima Bezerra (RN), para garantir cadeiras no Senado.

— A eleição de senadores é fundamental para o governo. Estamos juntos para eleger uma forte bancada de senadores e deter a hegemonia bolsonarista na Casa — afirma o deputado federal José Guimarães, líder do governo Lula na Câmara.