Governo Lula calcula tom de reação aos EUA sobre definição de PCC e CV como terroristas por temer que soe como ‘proteção a bandidos’
O Palácio do Planalto calibra a reação ao anúncio de que os Estados Unidos decidiram classificar as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A principal preocupação do entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é que a resposta do governo passe a imagem de que a gestão petista defende bandidos, no momento em que Lula tem endurecido o discurso contra o crime organizado.
Avaliação: Para especialistas, classificação de PCC e CV como terroristas pelos EUA pode oferecer risco à soberania nacional
Repercussão: Amorim critica decisão dos EUA de classificarem CV e PCC como terroristas
Em meio a aproximação diplomática dos dois países, o governo brasileiro foi pego de surpresa pelo anúncio do Departamento de Estado Americano e avalia o tom para uma manifestação e reação. O governo Lula vinha trabalhando contra essa classificação e tentava convencer os Estados Unidos a ampliar a cooperação policial e de inteligência no combate ao crime organizado transnacional. O primeiro a falar sobre o tema foi o assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, Celso Amorim, que afirmou que a "cooperação internacional é bem-vinda, mas pretexto para intervenção é inaceitável".
A avaliação do Planalto é que a adoção dessa medida pode produzir consequências sensíveis sobre a soberania nacional e sobre a forma de atuação bilateral em segurança. A principal preocupação do governo Lula não está relacionada às organizações criminosas em si, mas aos efeitos jurídicos, diplomáticos e institucionais que uma designação dessa natureza pode desencadear.
Integrantes do Palácio do Planalto ponderam que, embora se trate de uma prerrogativa legal americana, a medida pode introduzir riscos ao relacionamento bilateral, abrir espaço para consequências jurídicas ainda imprevisíveis e atingir diretamente a percepção brasileira sobre preservação de soberania.
Nesta quinta-feira, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciou que os Estados Unidos decidiram classificar as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. O anúncio foi feito após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário de Lula nas eleições, ter viajado aos EUA para se reunir com o presidente, Donald Trump, e outros integrantes de seu gabinete, como o vice-presidente, J.D Vance, e o próprio Rubio.
Em Washington, interlocutores ligados ao governo americano vinham afirmando há meses que a medida sairia em algum momento, assim como já aconteceu com organizações criminosas de outros países.
Após a divulgação de que Flávio Bolsonaro havia se reunido com Trump nesta semana, aliados de Lula diziam que qualquer prejuízo ao Brasil que pudesse ocorrer após essa data, como novas tarifas ou até mesmo a classificação dessas facções como organizações terroristas, seriam explorados para atacar o senador.
A avaliação, segundo aliados do petista, é que isso serviria para mostrar que a família Bolsonaro atua contra os interesses brasileiros e incentiva ataques à soberania brasileira. O mote da defesa da soberania brasileira virou uma das marcas da gestão Lula 3 e é apontada também como uma bandeira a ser explorada no processo eleitoral.
O entorno de Lula usou o tarifaço do governo Trump contra produtos importados do Brasil, no ano passado, para desgastar o bolsonarismo junto à opinião pública, atribuindo a decisão dos americanos como resultado da articulação de Eduardo Bolsonaro (PL) nos Estados Unidos.
