Governo Lula avalia que ação dos EUA na Venezuela afasta perspectiva de eleições a curto prazo
Auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que as declarações recentes do governo dos Estados Unidos sobre a operação militar que resultou na retirada de Nicolás Maduro do poder indicam que não há, neste momento, expectativa de realização de eleições na Venezuela a curto prazo. A leitura é que Washington passou a sinalizar que a prioridade imediata é a estabilização política e institucional do país, após uma ação considerada muito mais ampla do que um ataque pontual.
Na última segunda-feira, dois dias depois de ordenar bombardeios na Venezuela e a captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, praticamente descartou a possibilidade de eleições nos próximos 30 dias. Questionado em entrevista, afirmou: “Temos que consertar o país primeiro. Não dá para fazer eleições. Não há como o povo votar”.
Segundo interlocutores, o governo brasileiro trabalhava com a hipótese de uma ofensiva limitada, semelhante a operações pontuais conduzidas pelos EUA em outros contextos. A expectativa era de uma ação cirúrgica, direcionada a alvos específicos. “Mas foi muito mais do que isso. O presidente do país foi capturado em uma operação militar que ainda precisará ser plenamente explicada”, afirmou um influente embaixador.
A curto prazo, a principal preocupação do governo brasileiro é evitar um vácuo de poder e a eclosão de conflitos armados internos. Interlocutores avaliam que a sucessão seguiu, ao menos formalmente, os mecanismos previstos na Constituição venezuelana, com a posse da vice-presidente. A maior preocupação do governo Lula sempre foi um cenário de ruptura, com divisão dentro da base governista, disputa armada nas ruas e colapso institucional com impacto direto sobre os países vizinhos, especialmente o Brasil.
Outra a avaliação é que houve, até o momento, demonstração de unidade das principais forças do chavismo em torno do novo arranjo de poder, o que contribuiu para conter mobilizações de rua e confrontos imediatos. Não houve grandes manifestações ou tentativas abertas de desestabilização, o que indica uma manutenção mínima da ordem, o que também interessa aos EUA.
A expectativa, a curtíssimo prazo, é de manutenção desse equilíbrio instável, com monitoramento diário da correlação de forças internas e do grau de intervenção americana na gestão do país e de seus recursos naturais: saiu um ponto de equilíbrio, que era Maduro, e se estabeleceu outro. A questão agora é até onde esse novo arranjo se sustenta sem provocar novas tensões, resume um diplomata.
A avaliação no governo brasileiro é que, passados poucos dias da ação, ainda é cedo para conclusões sobre o grau de envolvimento de atores internos venezuelanos ou sobre eventuais traições dentro do regime. Qualquer ilação, segundo interlocutores a par do assunto, seria precipitada, já que se tratou de uma operação atípica, fora dos roteiros mais usuais de intervenções militares recentes.
Segundo relatos, essa leitura também esteve presente na estratégia americana. Para sustentar a narrativa de que se trata de uma operação de “lei e ordem”, e não de mudança de regime", Washington teria considerado essencial preservar uma aparência de continuidade institucional. “Eles aprenderam com o Iraque, o Afeganistão e a Líbia que o caos absoluto inviabiliza qualquer objetivo posterior”, disse um interlocutor.
Apesar das fortes tensões, o governo brasileiro avalia que há espaço para convergências pontuais com Washington em torno da estabilidade regional, considerada vital para a segurança brasileira e para mitigar impactos sociais e humanitários ao longo da fronteira. Auxiliares de Lula destacam que essa preocupação se traduz em ações práticas: o Brasil enviou 40 toneladas de insumos médicos para tratamentos de hemodiálise na Venezuela, parte de um compromisso maior de até 100 toneladas, após a destruição do principal centro de distribuição de medicamentos do país durante a operação militar americana. O governo avalia que a interrupção de tratamentos vitais poderia gerar pressões migratórias e colapsos sociais com impacto direto sobre estados brasileiros fronteiriços.
Há também sinais pontuais, segundo relatos, de tentativa de redução da tensão interna na Venezuela, como a libertação de presos, incluindo estrangeiros, movimento interpretado em Brasília como positivo, embora persistam dúvidas sobre a profundidade de qualquer abertura política.
Diante do impacto regional da operação, o presidente Lula intensificou contatos com líderes estrangeiros para articular uma resposta política e diplomática. A avaliação no Planalto é de que a ação americana extrapola o caso venezuelano e projeta efeitos mais amplos sobre o hemisfério ocidental.
Nesse contexto, o governo brasileiro buscou costurar uma declaração conjunta com países como México, Colômbia, Chile, Uruguai e Espanha, com o objetivo de reafirmar princípios do direito internacional, como o respeito à soberania e a rejeição à interferência externa no controle de recursos naturais. A iniciativa também visou evitar a naturalização de precedentes desse tipo.
No plano multilateral, o Brasil levou a mesma linha ao Conselho de Segurança da ONU e à Organização dos Estados Americanos (OEA), buscando estimular uma reação que fosse, nas palavras de um interlocutor, “minimamente digna” diante do episódio. Para o Planalto, o esforço diplomático liderado por Lula busca conter a consolidação de um precedente que possa redefinir, de forma unilateral, as regras de atuação no continente.
Nesta sexta-feira, o governo venezuelano anunciou a retomada de relações diplomáticas com os EUA, seis dias após os ataques em Caracas. Em comunicado, a Venezuela reiterou a denúncia de que foi "vítima de uma agressão criminal, ilegítima e ilegal contra seu território e seu povo". Os EUA, que não têm embaixador na Venezuela desde 2010, suspenderam as operações na embaixada e retiraram todo o pessoal da embaixada em 2019.
