Governo da Venezuela tenta projetar normalidade institucional após derrubada de Maduro pelos EUA
O governo da Venezuela tenta demonstrar continuidade institucional e funcionamento regular do Estado nesta segunda-feira, em meio à crise política aberta após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos no fim de semana. A estratégia passa pela sessão anual de instalação da Assembleia Nacional, que, neste ano, foi organizada com foco na formalização de Delcy Rodríguez como presidente interina do país — embora, até o momento, a cerimônia oficial de posse ainda não tenha sido anunciada.
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Do ponto de vista do Palácio de Miraflores, a data tem como objetivo sinalizar a manutenção das rotinas institucionais apesar da instabilidade desencadeada pela retirada de Maduro do poder. A Assembleia Nacional, presidida por Jorge Rodríguez, irmão da vice-presidente, é composta majoritariamente por aliados do governo e permanece sob controle do chavismo.
Delcy Rodríguez, de 56 anos, é uma das figuras mais influentes do núcleo dirigente venezuelano. Advogada, diplomata e política de longa trajetória, ela ocupava a Vice-Presidência desde 2018 e já havia exercido cargos estratégicos nos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, incluindo os ministérios das Relações Exteriores, da Comunicação, da Fazenda e do Petróleo. Nos últimos anos, esteve à frente de iniciativas voltadas à reformulação da política econômica, mantendo o controle estatal sobre setores-chave ao mesmo tempo em que buscava diálogo com o setor privado.
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A nomeação de Rodríguez como presidente interina foi determinada pelo Supremo Tribunal no sábado à noite. No dia seguinte, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, reconheceu publicamente sua autoridade, afirmando que as Forças Armadas deveriam permanecer unidas “na missão de enfrentar a agressão imperial”. Além do apoio militar, Rodríguez conta com o respaldo de figuras centrais do governo, como o ministro do Interior, Diosdado Cabello.
Mudança de tom
As primeiras manifestações públicas de Rodríguez após a deposição de Maduro revelaram mudanças de tom. Em um pronunciamento inicial, ela denunciou a operação americana e reiterou que Maduro continuava sendo “o único presidente” da Venezuela. Já em declaração divulgada no domingo à noite, adotou uma linguagem mais conciliadora, defendendo “coexistência pacífica” e afirmando que a Venezuela, os Estados Unidos e a região “merecem paz e diálogo, não guerra”.
“Consideramos prioritário avançar rumo a uma relação internacional equilibrada e respeitosa entre os EUA e a Venezuela, e entre a Venezuela e os países da região, baseada na igualdade soberana e na não interferência. Esses princípios norteiam nossa diplomacia com o resto do mundo”, escreveu Rodríguez nas redes sociais. “Estendemos um convite ao governo dos EUA para trabalharmos juntos em uma agenda de cooperação, orientada para o desenvolvimento compartilhado, dentro da estrutura do direito internacional”.
Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodriguez, em reunião com a cúpula do governo
Reprodução/Instagram
A relação com Washington permanece no centro das atenções. O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que Rodríguez teria demonstrado disposição para cooperar com seu governo, mas também fez ameaças públicas, dizendo que ela “pagaria um preço muito alto, provavelmente maior do que o de Maduro”, caso não agisse conforme o esperado por Washington. Em resposta, Rodríguez declarou estar aberta à cooperação, desde que dentro dos limites do direito internacional.
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Entre suas primeiras medidas como presidente interina, Rodríguez anunciou a criação de duas comissões governamentais: uma voltada à libertação de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, e outra destinada a garantir e consolidar projetos de soberania alimentar e abastecimento no país. Ela também visitou feridos nos ataques que resultaram na deposição de Maduro, classificando-os como jovens que defenderam a soberania nacional.
Filha do dirigente político de esquerda Jorge Antonio Rodríguez, morto em 1976 durante um interrogatório por agentes de segurança, Delcy Rodríguez construiu sua trajetória política ao lado do irmão, Jorge, ambos profundamente ligados ao projeto chavista desde seus primórdios. Apesar de serem vistos por analistas como representantes de uma ala mais pragmática e modernizadora do governo, especialistas destacam que os principais centros de poder continuam concentrados nos ministérios responsáveis pela segurança e pelas Forças Armadas.
