Governo britânico classifica como ‘graves’ acusações de estupro ligadas a reality show de casamentos; entenda o caso

 

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O governo britânico classificou como “graves” as acusações de estupro e abuso sexual envolvendo participantes do reality show “Married at First Sight UK”, após uma investigação da BBC revelar relatos de violência durante as gravações do programa. O caso provocou pressão sobre o Channel 4, retirada de episódios do ar e a suspensão de um patrocínio comercial.

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As denúncias foram reveladas pelo programa Panorama, da BBC. Segundo a investigação, duas mulheres afirmaram ter sido estupradas durante o reality, enquanto uma terceira relatou ter sofrido ato sexual sem consentimento.

O Departamento de Cultura, Mídia e Esporte do Reino Unido (DCMS) afirmou que deve haver consequências em casos de “criminalidade ou irregularidades”.

A Ofcom, órgão regulador das comunicações no país, declarou que emissoras têm obrigação de tomar o “devido cuidado” com o bem-estar de participantes de realities.

Após a repercussão, a operadora de turismo Tui anunciou à BBC News a suspensão do patrocínio do programa. O Channel 4 retirou todos os episódios do “Married at First Sight UK” dos serviços de streaming e da programação linear, além de remover os canais da atração nas redes sociais.

Em comunicado, a emissora afirmou que encomendou uma revisão externa sobre o bem-estar dos participantes. Segundo o canal, a decisão foi tomada no mês anterior “após ser apresentado a graves alegações de irregularidades”.

Advogados da CPL, produtora independente responsável pela versão britânica do reality, afirmaram que o sistema de proteção da empresa era “padrão ouro” e referência no setor. Segundo a defesa, a produtora agiu adequadamente em todos os casos.

Canal é acusado de manter episódios no ar após denúncias

Priya Dogra, diretora-executiva do Channel 4, afirmou ter solidariedade com participantes que “claramente ficaram abalados após participar de Married at First Sight”.

Ela declarou que as acusações são contestadas pelos acusados e afirmou acreditar que a emissora “agiu de forma rápida, apropriada, sensível e com o bem-estar em primeiro plano”. Questionada sobre um possível pedido de desculpas às mulheres envolvidas, Dogra se recusou a comentar.

O ministro da Segurança do Reino Unido, Dan Jarvis, afirmou estar “extremamente preocupado” com as denúncias reveladas pela BBC. Ele pediu que o Channel 4 e a CPL conduzam uma investigação completa sobre os casos.

— Também diria que, dada a natureza extremamente grave dessas acusações, acho altamente provável que haja encaminhamento à polícia e que isso se torne um assunto para investigação policial — disse Jarvis.

Segundo a BBC, Alex Mahon, ex-diretora-executiva do Channel 4 entre 2017 e 2025, deverá prestar esclarecimentos ao Comitê de Cultura, Mídia e Esporte do Parlamento britânico. Caroline Dinenage, presidente do comitê, afirmou que o formato do MAFS UK “envolve um elemento de risco”.

— É um programa de TV que praticamente espera e prevê que pessoas que acabaram de se conhecer precisem se tornar bastante íntimas umas das outras. Elas devem compartilhar uma cama e uma vida juntas poucos minutos após se conhecerem, quase parece um acidente prestes a acontecer — declarou.

Segundo a parlamentar, o programa precisava garantir mecanismos de proteção antes, durante e depois das gravações.

Dinenage afirmou ainda que as mulheres entrevistadas pela BBC “não perceberam totalmente o que havia acontecido com elas até depois”.

Participantes relatam estupro e violência durante o programa

Descrito como um “ousado experimento social”, o “Married at First Sight” reúne desconhecidos que concordam em “se casar” em cerimônias sem validade legal. Depois disso, os participantes passam a viver juntos e têm o cotidiano filmado quase integralmente.

As três mulheres entrevistadas pela BBC acusaram os homens com quem foram emparelhadas no programa e afirmaram que o Channel 4 não fez o suficiente para protegê-las.

Segundo a reportagem, a emissora já tinha conhecimento de parte das alegações antes da exibição dos episódios, que permaneceram disponíveis até serem removidos.

Uma das participantes afirmou que o marido no reality a estuprou e ameaçou atacá-la com ácido. Segundo o texto, ela pretende processar a produtora CPL.

Advogados do acusado afirmaram que ele nega o estupro, sustenta que toda relação sexual foi consensual e rejeita qualquer acusação de violência ou ameaça.

Outra mulher afirmou ter informado ao Channel 4 e à CPL, antes da exibição do programa, que havia sido supostamente estuprada pelo parceiro no reality.

Mesmo assim, os episódios foram ao ar.

Advogados do homem afirmaram que ele contestou partes do relato. Segundo a defesa, a relação começou de forma consensual, mas ele teria interrompido o ato assim que percebeu sinais de falta de consentimento.

A terceira participante identificada publicamente é Shona Manderson. Ela acusou Bradley Skelly, seu parceiro no programa, de ejacular dentro dela sem consentimento.

Skelly afirmou acreditar que havia consentimento e negou “quaisquer acusações de má conduta sexual” ou comportamento controlador. Segundo ele, o relacionamento era “baseado em consentimento mútuo, cuidado e afeto”.

Especialistas cobram proteção maior em realities

A reportagem descreve o “Married at First Sight” como uma franquia global de grande sucesso. A versão britânica está no ar há dez temporadas, é exibida em horário nobre pelo canal E4 e frequentemente supera 3 milhões de espectadores.

A temporada mais recente já foi gravada e deve ir ao ar ainda neste ano. Jess Phillips, ex-ministra de proteção do Reino Unido, afirmou que parecia “muito provável” que problemas desse tipo surgissem no programa.

— A produção deveria ter especialistas em violência doméstica e sexual disponíveis para orientar. Literalmente qualquer sinal de problema desse tipo deveria ter levado à interrupção imediata — declarou.

Farah Nazeer, diretora-executiva da organização Women’s Aid, afirmou que os produtores deveriam ter sido “realmente proativos” ao surgirem os primeiros relatos.

— Se emissoras vão produzir programas centrados na intimidade, precisam colocar proteção e cuidado igualmente no centro — afirmou.

Ela acrescentou que participantes que relataram “hematomas, agressões e outros problemas graves” não foram afastadas imediatamente dos relacionamentos.

Em nota, o DCMS declarou que "todas as alegações devem ser encaminhadas às autoridades competentes e investigadas com total cooperação dos envolvidos”. A Ofcom afirmou que analisará as conclusões da revisão externa anunciada pelo Channel 4 e todas as demais evidências disponíveis.