Governo brasileiro temia ataque dos EUA à Venezuela, e situação na fronteira é uma das principais preocupações
O governo brasileiro cogitava a possibilidade de um ataque dos Estados Unidos à Venezuela há várias semanas. Esse cenário levou inclusive o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a viajar até a Colômbia entre a Cúpula de Líderes de Belém e a COP30 para participar da reunião de chefes de Estado e altos representantes dos países que integram a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), para defender que a América Latina continue sendo uma zona de paz. Essa mesma preocupação levou Lula a telefonar para Maduro nos primeiros dias de dezembro.
A relação entre os dois chefes de Estado estava estressada desde a decisão do Brasil de não reconhecer a segunda reeleição de Maduro nas eleições de 28 de julho de 2024, e, posteriormente, de barrar a entrada da Venezuela no Brics. Lula e Maduro ficaram mais de um ano sem se falarem. Mas a ameaça dos EUA quebrou o gelo.
Nas últimas semanas, várias ações do governo brasileiro evidenciaram seus principais temores em relação à escalada de tensão entre os EUA e a Venezuela. O telefonema de Lula a Maduro foi motivado exclusivamente, confirmaram fontes oficiais, “pela necessidade de conversar sobre uma possível invasão ou ataque ao país vizinho”.
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O governo brasileiro estava profundamente preocupado pelo impacto que um ataque americano ao território venezuelano poderia ter nas fronteiras do país vizinho com o Brasil e com a Colômbia. “Temos uma potencial crise em nossas fronteiras”, enfatizou outra fonte. Essa potencial crise colocou o Palácio do Planalto e o Itamaraty, sobretudo com o monitoramento intensivo da embaixada brasileira em Caracas, em permanente estado de alerta nos últimos dias de 2025.
A fronteira entre Brasil e Venezuela tem pouco mais de 2 mil quilômetros de extensão, dividida entre os estados de Roraima (a principal passagem é entre Pacaraima-Santa Elena de Uairén) e Amazonas. Desde que começou a crise migratória venezuelana, em 2013, ano em que Maduro foi eleito presidente pela primeira vez — já com denúncias de fraude por parte da oposição —, o Observatório da Diáspora Venezolana estima que 9,1 milhões de pessoas deixaram o país. De acordo com a Agência das Nações Unidas para os Refugiados, a Acnur, a Venezuela tem hoje o maior número de refugiados do mundo (6,3 milhões), superando países como a Síria.
Os dados variam, mas estimativas apontam que mais de 500 mil venezuelanos vivem atualmente no Brasil, número que poderia aumentar de forma expressiva em caso de um conflito bélico em seu país. Esse eventual cenário gera enorme temor no governo brasileiro, e nas Forças Armadas, que atuam na chamada Operação Acolhida, em Roraima. A iniciativa, que conta com a colaboração de ONGs e agências internacionais de ajuda humanitária, sofreu um forte corte de recursos com o retorno de Donald Trump à Casa Branca.
Num contexto de enorme incerteza, o governo brasileiro teme um panorama de desestabilização regional. Depois do primeiro e único telefonema entre Lula e Maduro em 2025, não houve mais contatos entre ambos. Nesta madrugada, as mais altas autoridades do Brasil foram informadas rapidamente sobre o que acontecia em Caracas, confirmaram fontes diplomáticas.
A partir de agora, a relação com a Venezuela poderá mudar, em função de uma crise regional de consequências ainda imprevisíveis.
