Governo adota cautela com suspensão de vistos dos EUA de olho em negociação comercial

 

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A decisão do governo dos Estados Unidos de suspender o processamento de vistos de imigrantes para dezenas de países será analisada com cautela pelo governo brasileiro. Segundo um interlocutor da diplomacia, não há interesse em “jogar mais lenha na fogueira”, sobretudo em um momento em que Brasil e Estados Unidos mantêm negociações em curso para o encerramento do tarifaço imposto por Washington.

Por enquanto, no governo brasileiro a avaliação é que a medida tem alcance amplo, envolvendo 75 países, sem caráter direcionado especificamente contra o Brasil, e se insere no que um interlocutor classificou como uma “loucura mais ampla” da atual administração americana.

A suspensão foi anunciada pelo Departamento de Estado em nota publicada na rede social X, nesta quarta-feira. De acordo com o comunicado, o governo americano vai interromper o processamento de vistos de imigrantes de países cujos cidadãos, segundo Washington, recebem benefícios sociais em “taxas inaceitáveis”. O congelamento permanecerá em vigor até que, segundo o texto, os Estados Unidos possam garantir que novos imigrantes “não irão extrair riqueza do povo americano”.

Ainda segundo a nota, a medida afeta dezenas de países — entre eles Somália, Haiti, Irã e Eritreia — cujos imigrantes “frequentemente se tornam um encargo público” ao chegar aos Estados Unidos. O Departamento de Estado afirma que a decisão busca assegurar que a “generosidade do povo americano não seja mais abusada”.

A nota não trouxe detalhes. Em uma análise preliminar, não está claro se a suspensão de vistos tem como alvo turistas, trabalhadores ou se vale para qualquer autorização de entrada nos EUA. Interlocutores de Brasília lembram que este ano tem Copa do Mundo naquele país. Essa categoria, chamada “immigrant visas”, teoricamente, não envolve visto para turismo.

Integrantes do governo ressaltam que a cautela ocorre em um contexto delicado da relação bilateral, marcado pela retomada gradual do diálogo político após um período de forte tensão comercial. Brasil e Estados Unidos estão em negociação para pôr fim ao tarifaço, e o governo brasileiro já conseguiu reduzir ou eliminar parte das sobretaxas aplicadas a produtos nacionais.

Nesse processo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Donald Trump já mantiveram conversas por telefone e se encontraram pessoalmente em duas ocasiões: uma, rapidamente, à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas, e outra durante um evento em Kuala Lumpur, na Malásia. Segundo diplomatas, esses contatos ajudaram a destravar canais formais de comunicação, que só recentemente voltaram a funcionar de maneira mais regular entre os dois países.

Diante da nova medida anunciada por Washington, o governo brasileiro avalia os próximos passos com cuidado. Na diplomacia, vigora o princípio da reciprocidade, mas, segundo interlocutores, ainda não há decisão sobre eventual adoção desse instrumento. A orientação, por ora, é acompanhar os desdobramentos e evitar movimentos que possam comprometer as negociações comerciais em andamento.