Governo aciona 'bombeiros' para reconstruir ponte com Alcolumbre após derrota de Messias

 

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Após a derrota no Senado que barrou a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou em campo uma operação de contenção de danos e passou a acionar interlocutores para tentar reabrir o diálogo com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).

A estratégia tem sido conduzida pelos ministros José Múcio, da Defesa, e José Guimarães, das Relações Institucionais, escalados como “bombeiros” para reduzir a temperatura após a crise política aberta na última semana, considerada no Planalto como uma das mais duras derrotas do terceiro mandato de Lula.

O objetivo da aproximação dos interlocutores é viabilizar um encontro entre Alcolumbre e Lula no retorno do presidente ao Brasil, que embarcou ontem para os Estados Unidos. Hoje, Lula se reúne com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O primeiro movimento ocorreu na terça-feira, quando Múcio se reuniu com Alcolumbre na residência oficial do Senado. A conversa foi tratada por aliados como um gesto inicial de distensão, em meio ao ambiente ainda contaminado pelo revés no plenário.

Ao GLOBO, Múcio confirmou o encontro e indicou que o foco, neste momento, é evitar novos desgastes e ganhar tempo antes de qualquer nova indicação ao Supremo.

— Estive com Alcolumbre sim. Meu papel foi de averiguar a temperatura. O momento é de apaziguar. Não é hora de apresentar nova indicação, é deixar decantar — afirmou.

A ofensiva continuou nesta quarta-feira, quando Guimarães também se reuniu com o presidente do Senado, em mais um gesto de aproximação. Os dois já haviam dividido espaço horas antes na cerimônia dos 200 anos da Câmara dos Deputados, onde Alcolumbre fez um aceno público ao ministro ao elogiá-lo como exemplo de boa relação entre Executivo e Legislativo.

Nos bastidores, a leitura no governo é que a crise ultrapassou a perda de uma vaga no Supremo e escancarou a fragilidade da base no Senado, além de reforçar o peso político de Alcolumbre sobre o andamento da pauta legislativa.

Aliados de Lula atribuem ao presidente da Casa papel central na articulação que levou à rejeição de Messias. Senadores afirmam que Alcolumbre não apenas deixou de atuar pela aprovação do nome como também teria estimulado votos contrários entre parlamentares de MDB, PSD, União Brasil e PP — o que ele nega publicamente.

Ruídos atrapalham

Se, de um lado, o Planalto tenta reconstruir pontes, de outro, o próprio Alcolumbre tem evitado qualquer sinal claro de reaproximação. Questionado sobre o que espera do governo após a derrota, reagiu de forma direta:

— Eu tenho que esperar alguma coisa? Não tenho que esperar nada.

Ao ser perguntado se aguarda uma nova indicação ao Supremo ainda neste ano, repetiu:

— Não tenho que esperar nada.

A declaração expõe a distância entre os gestos do governo e a disposição do comando do Senado em, ao menos neste momento, virar a página da crise.

O cenário é agravado por ruídos dentro da própria base. Em entrevista concedida durante viagem à China, o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), afirmou que a rejeição de Messias foi usada por parlamentares para atingir politicamente Lula e admitiu desgaste direto na relação com Alcolumbre.

— Minha relação ficou muito estremecida com o presidente do Senado porque ele queria o Pacheco — disse ao Portal Bahia Notícias.

Wagner também afirmou que houve atuação “por baixo do pano” contra Messias e classificou a votação como uma “cassetada” no presidente.

As declarações repercutiram mal entre senadores e foram vistas como um novo obstáculo no esforço de distensão conduzido pelo Planalto.

Apesar disso, interlocutores do governo afirmam que a orientação segue sendo insistir na reaproximação, ainda que de forma gradual. A avaliação é que qualquer tentativa de avançar em novas pautas — ou mesmo discutir um novo nome para o Supremo — dependerá da reconstrução mínima da relação com Alcolumbre.