Governador exonera diretor que havia assumido como presidente interino do Rioprevidência

 

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O governador Cláudio Castro (PL) exonerou Alcione Soares Menezes Filho do cargo de diretor de Administração e Finanças do Fundo Único de Previdência Social do Estado do Rio (Rioprevidência). A decisão foi publicada no Diário Oficial desta terça-feira. Alcione Soares havia assumido interinamente a presidência do Fundo após a saída do diretor-presidente Deivis Marcon Antunes, após a Operação Barco de Papel, deflagrada na sexta-feira passada pela Polícia Federal que teve como motivação as as investigações sobre investimentos do fundo previdenciário fluminense no Banco Master.

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Na mesma edição do DO, o governador nomeia Nicholas Ribeiro da Costa Cardoso para assumir o cargo de diretor de Administração e Finanças no lugar de Alcione Soares e Gilson Feliz da Silva para o cargo de diretor de Investimento da autarquia em substituição a Eucherio Lerner Rodrigues que também foi alvo da operação da PF.

Após a ação Polícia Federal na semana passada — na qual foram apreendidos veículos de luxo, dinheiro em espécie, eletrônicos e documentos — o então presidente do Rioprevidência, Deivis Antunes, entregou uma carta de renúncia. Ele estava fora do Brasil, em viagem aos Estados Unidos desde o dia 15, segundo apuração. Na publicação no Diário Oficial à epóca constou que ele havia sido demitido pelo governador, apesar da carta de renúncia na qual ele diz que sempre agiu "com espírito público":

"Ao longo do período em que estive à frente da instituição, dediquei-me integralmente ao fortalecimento do Rioprevidência, promovendo um ciclo virtuoso de gestão, marcado pela valorização dos servidores, pelo aprimoramento dos processos internos e pela defesa intransigente e inegociável dos interesses da autarquia (...) Enfatizo que repilo tentativas de inquinar como ilegal qualquer ato que pratiquei na gestão do Riopreviência, pois, como disse, sempre agi com espírito público, correção e dentro dos mais elevados preceitos éticos, conduta essa que sempre pautou minha vida profissional nos locais onde trabalhei", diz trecho do texto.

Diretor de Investimentos do Rioprevidência é exonerado em meio a escândalo do Banco Master

Em nota, o governador diz que “determinou o afastamento imeditado” do presidente e que o governo instaurou, em dezembro, uma investigação interna para apurar “possíveis danos ao erário público, bem como eventuais e possíveis transgressões disciplinares de gestores do fundo”.

Além do ex-diretor-presidente e do diretor de Investimentos Eucherio Rodrigues, o ex-gerente de investimentos Pedro Pinheiro Guerra Leal também é um dos investigados. O Rioprevidência é a autarquia responsável por gerir aposentadorias e pensões de mais de 235 mil servidores estaduais.

O que foi apreendido

De acordo com o balanço final da operação, os agentes recolheram arquivos digitais, documentos e bens em diferentes alvos.

Na sede do Rioprevidência, foram apreendidos:

Arquivos digitais e documentos diversos.

Na residência de Deivis Marcon Antunes, em Botafogo:

Um veículo de luxo blindado;

cerca de R$ 7 mil em espécie;

um pen drive;

um relógio;

documentos diversos.

Na residência na Gávea, foram apreendidos:

um veículo de luxo;

cerca de R$ 3,5 mil em espécie;

um celular e um notebook;

pen drive e HDs;

documentos diversos.

Na residência na Urca, os agentes levaram:

um celular e um notebook;

documentos diversos.

Investigação apura aplicações de R$ 970 milhões

A apuração, aberta em novembro de 2025, investiga nove operações financeiras realizadas entre novembro de 2023 e julho de 2024, que resultaram na aplicação de cerca de R$ 970 milhões do Rioprevidência em Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master.

Segundo a investigação, entre outubro de 2023 e agosto de 2024, o fundo investiu esse valor em títulos com vencimento em 2033 e 2034 — instrumento de renda fixa usado por bancos para captar recursos e financiar operações de longo prazo. O principal risco desse tipo de investimento é a quebra do banco emissor, o que pode comprometer o resgate do valor aplicado com correção. No caso do Rio, o dinheiro integra o montante destinado ao pagamento de aposentadorias de servidores que ingressaram no serviço público na última década.

O trabalho da PF teve apoio da Secretaria de Regime Próprio e Complementar do Ministério da Previdência Social (SPREV/MPS), que elaborou um relatório de auditoria fiscal considerado decisivo para impulsionar a apuração. Estão sob análise suspeitas de crimes contra o sistema financeiro nacional, como gestão fraudulenta, desvio de recursos, induzir em erro a administração pública e fraude à fiscalização ou ao investidor, além de associação criminosa e corrupção passiva.

TCE apontou coincidência entre nova cúpula e início das aplicações

A operação ocorre três meses após o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) apontar uma “notável coincidência” entre a mudança na cúpula do Rioprevidência e o início dos investimentos no Banco Master. Entre julho e outubro de 2023, foram nomeados Deivis Marcon Antunes, Eucherio Lerner Rodrigues e Pedro Pinheiro Guerra Leal. Pouco depois, em novembro, começaram os aportes. Atualmente, segundo o próprio TCE, apenas Antunes e Leal permanecem no órgão.

De acordo com o tribunal, a nomeação de Eucherio Lerner foi publicada no Diário Oficial em 4 de outubro de 2023, mesma data em que o Banco Master teria enviado e-mail solicitando credenciamento junto ao Rioprevidência — etapa necessária para receber recursos do fundo. Ainda segundo o TCE, o processo interno foi aberto no mesmo dia e teria avançado de forma rápida: 12 dias depois, Pedro Leal comunicou que o banco atendia aos requisitos técnicos, e em 19 de outubro Antunes autorizou o credenciamento, trâmite considerado acelerado e com aparentes irregularidades pelo tribunal.

Divergência de valores e alerta ignorado

O governo do estado afirma que aplicou R$ 960 milhões em letras financeiras do Master. Já o TCE inclui no cálculo investimentos em fundos administrados pelo banco e por sua corretora, elevando o valor para R$ 2,6 bilhões. Parte relevante, segundo o tribunal, não teria cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O governo, por sua vez, sustenta que o pagamento de aposentadorias e pensões está garantido.

Em ofício enviado ao TCE, Deivis Antunes declarou que o credenciamento do banco começou no início de 2023 e teria sido concluído em 4 de outubro. Segundo ele, o Master mantinha uma relação “longa e adimplente” com o estado.

Caso Banco Master: crise, liquidação e investigação

O Banco Master entrou no centro de uma crise após o avanço de investigações e questionamentos, culminando na prisão de seu controlador, Daniel Vorcaro, e na decretação de liquidação extrajudicial pelo Banco Central, em novembro de 2025. A instituição é investigada por suspeitas como gestão fraudulenta, criação de carteiras de crédito falsas, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro.

A crise passou a ter impacto direto no Rio porque o Rioprevidência, responsável por aposentadorias e pensões de mais de 235 mil servidores, investiu aproximadamente R$ 1 bilhão em letras financeiras do banco mesmo após alertas técnicos do TCE sobre riscos elevados. Técnicos também apontaram que parte das aplicações ocorreu quando a crise já era amplamente divulgada.