Google muda Discover para reduzir conteúdo 'caça-clique' e priorizar produção original
O Google anunciou no começo do mês mudanças nos tipos de conteúdos que irá oferecer no Google Discover, ferramenta que funciona como um feed de notícias em celulares e computadores. Com o ajuste, a companhia promete entregar menos material “caça-clique” e mais conteúdo original e aprofundado, com preferência por sites localizados no país dos leitores.
“Nossos testes mostram que as pessoas consideram a experiência do Discover mais útil e valiosa com esta atualização”, informou o Google em comunicado. Assim, a companhia tenta afastar conteúdos sensacionalistas que se espalharam pela ferramenta nos últimos anos e busca priorizar esforços de produção genuínos, uma antiga demanda entre donos de sites e veículos de notícia.
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Para escolher os sites que serão exibidos, o Google afirma que seus algoritmos vão identificar o nível de especialização por tópicos individuais. “Portanto, quer um site tenha experiência em várias áreas ou se concentre profundamente em um único tópico, há oportunidades iguais de aparecer no Discover. Por exemplo, um site de notícias locais com uma seção dedicada à jardinagem pode ter experiência comprovada em jardinagem, mesmo que cubra outros tópicos. Em contrapartida, um site de críticas de filmes que escrever um único artigo sobre jardinagem provavelmente não terá”, explicou a empresa.
As mudanças entram em vigor inicialmente nos EUA para notícias em inglês e serão expandidas para outros países e idiomas nos próximos meses.
Lançado em 2018, o Discover é uma ferramenta que funciona com base no comportamento do usuário, definindo a notícia que pode ser mais relevante para determinado perfil. Assim, o leitor encontra uma seleção de links feitas pelos algoritmos da companhia. As escolhas são exibidas tanto no app do Google para celulares, como na página inicial do Google Chrome. Nos celulares Android, as informações também são exibidas quando o usuário desliza o dedo da direita para esquerda na página inicial.
Nos últimos anos, o Discover se tornou parte importante do modelo de negócios de sites e veículos de notícia por garantir grandes fluxos de audiência. Segundo a plataforma de dados Chartbeat, que atende mais de 2 mil sites em todo o mundo, o Discover representa 68% da audiência originada pelo Google — o restante corresponde à ferramenta de busca tradicional. Para os clientes do Chartbeat, o Google corresponde a 25% da audiência, mas esses números podem ser muitos maiores em outros veículos.
No entanto, parte dessa audiência passou a ser sequestrada por conteúdo caça-clique, muitas vezes não original, o que gerou descontentamento em empresas de jornalismo, que realizam investimentos na produção de conteúdo. Assim, a mudança parece agradar ao setor.
— À primeira vista, é uma mudança muito positiva e bem-vinda, na direção que temos defendido há anos: a valorização do jornalismo profissional, com reconhecimento da produção de conteúdo aprofundado e original. Ainda temos de examinar a implementação das mudanças, mas o Google claramente emitiu sinais de que pretende reduzir a visibilidade de conteúdos que se mimetizam como jornalismo para ganhar cliques, quando, na verdade, são peças produzidas para iludir os usuários e faturar com isso. Se bem sucedida, a alteração poderá dar novo impulso ao Discover e se tornar uma porta de entrada para conteúdos realmente relevantes para os usuários — afirmou ao GLOBO Marcelo Rech, presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ).
Medidas de contenção
A atualização do Discover segue uma esteira de atualizações feitas pelo Google em seus serviços para fortalecer a audiência de sites e veículos, que passaram a relatar perda de visitantes com os recursos de inteligência artificial (IA) implementados pela plataforma na ferramenta de buscas.
Em novembro de 2025, a gigante passou a permitir que os usuários escolham quais sites e criadores desejam seguir no Discover — a medida não acabou com o algoritmo, mas aumentou o controle do leitor sobre que tipo de conteúdo deseja receber.
Em dezembro, o Google lançou o “preferred sources” (fontes preferidas), que permite ao usuário escolher os sites a serem exibidos no topo da página de buscas. Na mesma época, a empresa afirmou que iria aumentar o número de URLs com visibilidade no AI Mode, a ferramenta que cria resumos de IA a partir das buscas dos usuários.
Por fim, a companhia anunciou parcerias com veículos como Der Spiegel, The Guardian e The Washington Post para usar uma ferramenta de IA que cria resumos de textos dentro do Google News.
Todas as medidas tentam minimizar o impacto da implementação de IA generativa nas buscas, embora o Google mantenha o discurso de que os resumos sintéticos não tenham reduzido a audiência de sites. Uma pesquisa global da Similarweb, publicada pela "The Economist", aponta que o tráfego de buscas no mundo caiu 15% entre junho de 2025 e o mesmo mês do ano passado. Além disso, o resultado de buscas de pesquisas, que não clicaram em links originais, subiu de 56% para 69%. Segundo o "Wall Street Journal", grandes veículos americanos como "Business Insider", "Washington Post", "HuffPost" e o próprio WSJ, tiveram uma queda de 55% em tráfego orgânico via busca entre abril de 2022 e abril de 2025.
Outra pesquisa do Pew Research Center, realizada em março de 2025, mostrou que apenas 1% dos usuários do Google clicam em links que aparecem em resumos de IA disponibilizados pela ferramenta.
