Golpes, pedágio e sanções: como a guerra no Golfo pôs em evidência a bilionária criptoeconomia do Irã

 

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No começo da semana, a empresa grega de risco marítimo MARISKS emitiu um alerta para um possível golpe voltado às centenas de embarcações que aguardam uma autorização para cruzar o Estreito de Ormuz: “pessoas desconhecidas” estão exigindo o pagamento de uma “taxa de liberação” para a travessia, a ser paga em criptomoedas. O aviso, revelado pela agência Reuters, teria chegado tarde para um navio indiano atingido por disparos iranianos no fim de semana — posteriormente, a dona da embarcação negou ter sido vítima de golpe.

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Não está claro se os golpistas conseguiram enganar alguém, mas eles fizeram sua lição de casa: nos últimos anos, as autoridades iranianas ampliaram o uso de criptomoedas para transações às margens dos sistemas regulatórios internacionais, não apenas em Ormuz, onde alguns navios pagam pedágio para passar, e nutrem um ecosssistema bilionário que vai bem além da guerra no Golfo.

Segundo a empresa de análise de blockchain Chainanalysis, ao final do ano passado havia US$ 7,78 bilhões em criptomoedas no sistema iraniano, valor que vinha aumentando de ano a ano. Como boa parte da economia, a operação é centralizada e tem uma forte participação da Guarda Revolucionária.

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Um pilar é a mineração de Bitcoin, legalizada em 2019. Os operadores contam com incentivos, como eletricidade barata (mesmo com parte da população enfrentando blecautes) e subsídios em equipamentos e instalações, mas precisam enviar os Bitcoins obtidos para o Banco Central. Dessa forma, o Estado consegue dinheiro para pagar por importações, inclusive de bens sujeitos a sanções, acumular fundos e amenizar a crise inflacionária sem se aproximar do sistema bancário internacional.

— Em qualquer jurisdição com sanções abrangentes, as criptomoedas são úteis — disse Kaitlin Martin, analista sênior de inteligência da Chainalysis, ao Wall Street Journal. — É muito fácil liquidar transações e pagamentos internacionais. É rápido. E é relativamente fácil obtê-las, dada a atmosfera vibrante em torno das criptomoedas no Irã.

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No começo de março, a página Crypto Breaking, voltada ao mercado de criptomoedas, afirmou que a Guarda Revolucionária responde por mais da metade da criptoeconomia iraniana. A organização, responsável por proteger a República Islâmica, tem hoje mais de US$ 3 bilhões em carteiras identificadas, mas o valor real, escondido de órgãos fiscalizadores, seria muito maior. Em outra frente, a agência de exportações do setor de Defesa, a Mindex, já aceita criptomoedas para compras de itens como mísseis, sistemas de radar e drones.

“Deve-se notar que, dadas as políticas gerais da República Islâmica do Irã em relação à burla das sanções, não há problema na execução do contrato”, diz a Mindex em uma seção de perguntas e respostas em seu portal de vendas. “Seu produto adquirido chegará até você o mais breve possível.”

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Pouco antes de um cessar-fogo firmado com os EUA, surgiram relatos de que a Guarda Revolucionária havia estabelecido um novo mecanismo de passagem pelo Estreito de Ormuz, com rotas atravessando suas águas territoriais, aberto apenas a navios autorizados e mediante pedágio. A tarifa, prestes a ser transformada em lei, é de até US$ 2 milhões, pagos em iuanes chineses, riais iranianos ou criptomoedas. Nos golpes alertados pela MARISKS, os criminosos usam esse expediente para tornar suas argumentações mais plausíveis.

“A decisão do Irã de aceitar criptomoedas para a cobrança do pedágio de Ormuz não representa um desvio da estratégia financeira já estabelecida pela Guarda Revolucionária Islâmica — pelo contrário, é uma extensão dela”, escreveu, em análise, a empresa de pesquisa de criptomoedas TRM, que trabalha com as autoridades americanas na aplicação de sanções no meio digital. “As transações com criptomoedas podem ser liquidadas rapidamente e sem passar pelo sistema bancário correspondente dos EUA, dificultando o congelamento ou a interceptação em tempo real.”

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Arte/ O GLOBO

Como aponta a TRM, o pedágio poderia render cerca de US$ 20 milhões diários apenas com os petroleiros, e atingiria US$ 800 milhões mensais se as tarifas forem cobradas de embarcações de transporte de gás natural. Não está há detalhes sobre o mecanismo intermediário para receber os pagamentos e evadir as sanções financeiras. Nas negociações sobre um acordo de paz para o conflito, os iranianos exigem direitos sobre o trânsito por Ormuz, incluindo o pedágio.

“A forma como o Irã apresenta o sistema de pedágio como uma afirmação permanente de soberania — codificada em legislação, administrada por meio de uma estrutura de comando permanente da Guarda Revolucionária Islâmica e respaldada por uma infraestrutura dedicada à conversão de criptomoedas na Ilha de Qeshm — torna improvável uma reversão completa após o conflito”, explica a TRM

A empresa ainda menciona a dificuldade de fiscalizar movimentações suspeitas em meios digitais. Em janeiro, duas corretoras registradas no Reino Unido, Zedcex e Zedxion, foram sancionadas pelo Departamento do Tesouro dos EUA, acusadas de facilitar cerca de US$ 1 bilhão em transações da Guarda Revolucionária. A emissora da stablecoin Tether (cujo valor é ligado ao dólar) também bloqueou dezenas de contas ligadas à Guarda Revolucionária nos últimos meses. Mas as ações soam como gotas no oceano diante dos volumes negociados e das novas fontes de dividendos.

— É preciso um recurso considerável para fazer o tipo de rastreamento de blockchain e outras tarefas semelhantes, para emitir as sanções — acrescentou Tom Keatinge, diretor do Centro de Finanças e Segurança do centro de estudos britânico Royal United Services Institute, à agência Reuters.— É o jogo definitivo de "acertar a toupeira" em alta velocidade.

Portal da corretora de criptomoedas iraniana Nobitex

Reprodução

Seria incorreto creditar a explosão das criptomoedas apenas à Guarda Revolucionária ou ao Estado iraniano. A principal operadora local, a Nobitex, tem cerca de 15 milhões de clientes, 11 milhões ativos, em sua maioria pequenos investidores, que viram nas moedas digitais um campo seguro contra o derretimento do rial e a escassez de moeda estrangeira. No portal da corretora, consultado pelo GLOBO na tarde de quarta-feira, um Bitcoin era negociado a 120 bilhões de riais (R$ 453 mil).

Com o início da guerra, em fevereiro, a empresa de análise de blockchain Elliptic identificou uma alta de 700% nas movimentações de contas, sugerindo que esses fundos estavam sendo enviados para outras contas e corretoras de fora do Irã. No ano passado, a Nobitex foi alvo de um grupo de hackers israelenses, que roubaram US$ 90 milhões dos clientes.

— Quanto mais se pressiona a economia iraniana, mais se deve estar preparado para lidar com as consequências, uma das quais é o uso crescente de criptomoedas — concluiu Keatinge à Reuters.