Golfinhos militares no Estreito de Ormuz? EUA descartam uso na hidrovia, mas mantêm treinamento desde 1959

 

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O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou na terça-feira que o Irã não possui “golfinhos kamikazes” para uso militar, em meio ao aumento das tensões no Estreito de Ormuz. Ao ser questionado sobre o tema, ele disse: “Posso confirmar que eles não têm”, e acrescentou que não “confirmaria nem negaria se temos golfinhos kamikazes”.

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A declaração ocorreu em um contexto de preocupação com a segurança da via marítima, após relatos de que o Irã poderia instalar minas na região. Segundo a CNN, uma fonte familiarizada com as operações militares americanas no estreito afirmou que os EUA não estavam utilizando golfinhos nas ações atuais.

Apesar disso, a Marinha dos EUA mantém há décadas um programa voltado ao treinamento de mamíferos marinhos. O chamado Programa de Mamíferos Marinhos integra o setor de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (ISR) do Centro de Guerra de Informação Naval do Pacífico e tem como foco a detecção de objetos subaquáticos, especialmente minas. O programa existe desde 1959 e treina principalmente golfinhos-nariz-de-garrafa e leões-marinhos da Califórnia.

— Usamos mamíferos marinhos para ajudar a detectar objetos debaixo d’água e para proteger portos, detectando intrusos. Portanto, não é ‘O Dia do Golfinho’ — disse Scott Savitz, que já atuou no extinto comando de guerra de minas da Marinha dos Estados Unidos, em entrevista à CNN.

Estagiários no Programa de Mamíferos Marinhos da Marinha (MMP), cuidam de golfinhos da Marinha no Centro de Guerra de Informação Naval (NIWC) do Pacífico

Eckelbecker/Marinha dos EUA

De acordo com informações do próprio programa, os golfinhos não são usados como armas. Eles são treinados para localizar minas submarinas e marcar suas posições, permitindo que mergulhadores façam a desativação. Segundo a página oficial do programa, “os golfinhos possuem o sonar mais sofisticado conhecido pela ciência” e drones subaquáticos “não são páreo para esses animais”.

O site também informa que “tanto os golfinhos quanto os leões-marinhos possuem excelente visão em baixa luminosidade e audição direcional subaquática, o que lhes permite detectar e rastrear alvos subaquáticos, mesmo em águas escuras ou turvas”, e que “os golfinhos são treinados para procurar e marcar a localização de minas submarinas que possam ameaçar a segurança daqueles a bordo de navios militares ou civis”.

Durante as missões, segundo dados oficiais, os golfinhos atuam com dois a três tratadores em pequenas embarcações e sinalizam quando encontram objetos. Eles também utilizam “bóias marcadoras” para indicar a localização exata das minas, facilitando o trabalho de mergulhadores.

Uso fora de combate e cenário atual

Especialistas apontam que esse tipo de recurso não costuma ser empregado em situações de combate ativo. — As hostilidades basicamente cessaram. Você não vai tentar entrar na água lutando com golfinhos — afirmou Savitz à CNN, ao citar operações realizadas em 2003 no porto iraquiano de Umm Qasr, após a atuação de forças da coalizão.

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Savitz também destacou que, segundo o modelo do programa, os animais não são forçados a permanecer nas operações. — Eles optam por voltar porque gostam dos peixes grátis; gostam da brincadeira de encontrar objetos no fundo do mar, de encontrar a pessoa que tenta nadar perto dos píeres; gostam da proteção contra predadores. Sempre há questionamentos sobre o bem-estar animal, mas esses animais escolhem ativamente permanecer no programa quando poderiam simplesmente voltar para a natureza — disse.

Outros países também já recorreram ao uso de mamíferos marinhos. Segundo a BBC, o Irã adquiriu golfinhos treinados pela antiga União Soviética no ano 2000, embora esses animais provavelmente já não estejam em condições de uso e não haja indícios de um programa ativo.

Ainda assim, o Wall Street Journal informou que autoridades iranianas teriam considerado o uso de golfinhos para transportar minas como alternativa no estreito. Segundo o jornal, analistas avaliam que o bloqueio imposto pelos EUA — que interrompeu embarques de petróleo iraniano e afetou o comércio com a China — pode ter levado o país a buscar novas estratégias. Para alguns setores políticos iranianos, de acordo com a publicação, o bloqueio é visto como um ato de guerra que exige resposta militar.

Segundo a CNN, o aumento das tensões inclui relatos, desde março, de que o Irã teria iniciado a instalação de minas no Estreito de Ormuz. Em abril, Hegseth afirmou que a ação violaria um acordo provisório de cessar-fogo e que as forças americanas “lidariam com isso”.