'Gol do lençol' de Roberto Dinamite em clássico entre Vasco e Botafogo completa 50 anos: 'Beleza, sabedoria e categoria'
“Os clubes Vasco e Botafogo têm apenas 50 segundos para marcar o gol 2”, narrava Vitorino Vieira, da Rádio Nacional, quando Luís Carlos acionava Roberto Dinamite pela esquerda. Poucos segundos depois, o Maracanã se tornaria o eterno palco de um dos gols mais bonitos da história do futebol brasileiro: o famoso “gol do lençol” de Roberto, que deu a vitória ao Vasco já no fim de um clássico com o Botafogo, pela penúltima rodada da Taça Guanabara de 1976. Se faltavam 50 segundos naquele instante, hoje, o gol completa 50 anos.
Do VHS e dos DVDs à era dos vídeos na internet, qualquer compilação que se preze de Roberto, até hoje maior artilheiro dos Campeonatos Brasileiro (190 gols) e Carioca (284), inclui esse gol em destaque. Um lance, entre as 708 vezes que foi às redes com a camisa cruz-maltina, que virou símbolo de sua carreira. Assista:
Era reta final de um Clássico da Amizade empatado em 1 a 1. Ademir havia aberto o placar no primeiro tempo e Roberto igualou no segundo. Mas o Vasco, que precisava da vitória para seguir sonhando com o título, foi por mais.
Em jogada iniciada por Luís Carlos, o próprio Dinamite recebe pela esquerda, leva para o meio e aciona o atacante Dé, o Aranha, que devolve. Ele, então, abre com Zanata na direita, que cruza e vê a bola encontrar o peito de Roberto. Num toque de genialidade, Dinamite amacia, aplica um lindo lençol no zagueiro Osmar e bate de primeira, de voleio, para o gol, fechando a partida em 2 a 1 para o Vasco e adicionando uma peça de mitologia para o futebol carioca no auge dos campeonatos estaduais.
A sequência do gol de Dinamite
Eurico Dantas
A sequência do gol de Dinamite
Eurico Dantas
A conclusão de Dinamite após lençol em Osmar
Eurico Dantas
Dé Aranha reconta a jogada
Hoje comentarista esportivo, Dé ( à esquerda, nas fotos) classifica o gol como o mais bonito que viu no Maracanã. Ele relembra detalhes da jogada:
— Apesar de na foto só aparecer eu pulando para dentro do gol, me lembro muito bem. Normalmente, eu estaria na posição em que estava o Roberto (recebendo a bola na esquerda). Nesse momento, ele recebe a bola e eu estou no meio, na posição onde ele estaria. Ele entra na diagonal e faz um toque muito forte para mim. A intenção dele era tocar para eu ajeitar e ele bater para o gol. Mas ele me deu um passe alto e com muita força. O máximo que eu pude fazer foi devolver um pouquinho na frente.
Dé Aranha, Tostão e Dinamite em foto de 1973
Arquivo O Globo
Ele exalta a capacidade de Dinamite para dar sequência e concluir a jogada:
— Em vez de bater no gol, que nem poderia, ele faz o passe para o Zanata. A tentativa do Zanata era cruzar com a direita, mas a o espaço estava fechado e ele leva para a perna esquerda e faz o cruzamento alto. Aí entrou a beleza, a sabedoria e a categoria do Roberto, que domina sem deixar cair no meio de dois zagueiros e faz um gol antológico. Muito orgulho e alegria de ter jogado com o Roberto. Fui um coadjuvante, mas um coadjuvante bastante bom. Muito feliz por ter sido coadjuvante nesse lance e nesses 50 anos, poder homenagear o inesquecível Roberto Dinamite.
Na primeira página da edição de 10 de maio de 1976, o GLOBO mostrava Roberto e Dé comemorando enquanto o goleiro do Botafogo, Wendell, aparecia caído. “Vasco reage e continua candidato ao título”, dizia a edição. E a reação valeu muito, já que o cruz-maltino ficaria com aquela Taça Guanabara. No jogo extra, regra da época após empate em pontos, derrotou o rubro-negro nos pênaltis depois de um 1 a 1. O título estadual, porém, ficaria com o Fluminense.
GLOBO de 1976 fala de virada do Vasco e golaço de Dinamite
Acervo O GLOBO
Campeão brasileiro de 1974 com o Vasco, Dinamite ainda conquistaria cinco estaduais (1977, 1982, 1987, 1988 e 1992) com a camisa cruz-maltina. Lenda inquestionável do clube e do futebol nacional, o ex-atacante e ex-presidente vascaíno morreu aos 68 anos, em janeiro de 2023. Mas vive eternamente em São Januário, na estátua com os braços abertos virados para a torcida, homenagem recebida ainda em vida.
Roberto Dinamite na inauguração de sua estátua em São Januário
Daniel RAMALHO/CRVG
Dois gols marcantes
Filho do craque, Rodrigo Dinamite conta que esse gol e o que marcou diante do Santos de Pelé, no Brasileirão de 1973 (e que rendeu elogio em campo do Rei) eram os mais marcantes para Roberto. E que o pai descrevia a jogada como instintiva.
— Onde a gente ia, tinha alguém para comentar “estava no Maracanã naquela noite”. Relatos de quem teve a honra de estar lá.
Numa época de futebol moderno em que o inglês Harry Kane, um centroavante alto, mas com capacidade técnica e inventiva para fazer o inesperado dentro da área, é um dos expoentes, vale recordar o camisa 10 de 1,86m, da Baixada Fluminense, que há 50 anos já revolucionava sua posição e invertia expectativas.
“Que golaço maravilhoso do moço que mora em Caxias! Roberto, que voltou a ser Dinamite!”, é o ápice da narração de Vitorino Vieira, e a descrição catártica e sucinta de uma das maiores joias da memória do futebol carioca.
Roberto Dinamite, ídolo máximo do Vasco
Arquivo O Globo
