Globalização deve continuar, mas será fragmentada, apontam especialistas

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Fonte da notícia: Valor Valor

A globalização deve continuar, mas em um cenário de maior fragmentação, formação de coalizões regionais e busca por soberania em determinados setores, avaliaram especialistas durante o painel “Navegando pela nova economia global”, no Fórum Agenda Global 2026, iniciativa do Valor Econômico e da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), realizado em Nova York.

Daniel Erikson, consultor sênior da Covington e ex-assessor especial da Presidência dos Estados Unidos, afirmou acreditar na continuidade da globalização, mas disse observar uma retomada da soberania em alguns setores. 

Para ele, os países podem adotar uma espécie de “soberania à la carte”, escolhendo as áreas em que querem ser soberanos e aquelas em que estão dispostos a ceder algum grau de soberania em troca de benefícios econômicos, políticos ou sociais.

“Assim, embora a soberania como tema continue sendo muito presente no debate, acredito que, neste momento, o mundo está tão interconectado e interligado que não creio que todos os países, líderes ou setores possam se isolar em seus respectivos territórios, por mais tentador que isso possa parecer em certos momentos”, afirmou Erikson.

Segundo ele, esse cenário também traz mudanças para a forma como o setor privado se relaciona com governos e instituições. Erikson afirmou que as empresas estavam acostumadas a procurar governos para apresentar suas demandas, mas agora também precisam considerar o que poderá ser exigido delas nessas interações. Para ele, essa dinâmica ganhou maior destaque e “provavelmente veio para ficar”.

Ethan Zindler, diretor de Pesquisa em Políticas Públicas e Países da BloombergNEF, citou como uma mudança relevante a decisão do governo de Donald Trump de adquirir participações diretas em empresas de minerais críticos, semicondutores e outros setores. Segundo ele, governos democratas anteriores viam esse tipo de atuação como uma linha que não deveria ser cruzada, exceto em situações extraordinárias.

Zindler afirmou que uma das questões é saber se um futuro presidente democrata continuaria nessa direção. Ele ponderou que outros países adotam esse tipo de política há bastante tempo e citou a China como exemplo. “Mas, de muitas maneiras, acho que as regras do jogo foram alteradas pelo governo Trump. Veremos o que acontece depois disso.”, afirmou.

Nesse ambiente, Zindler disse que, para o setor privado, um objetivo importante é garantir que suas ações sejam percebidas como alinhadas aos interesses nacionais e, portanto, possam ser atendidas por meio de políticas públicas. "Globalização regional"

Nasser Malik, head global de Sustentabilidade e Transição no Corporate Banking do Citi, afirmou que não considera realista um cenário em que todos os países simplesmente “voltem para seus bunkers”. Ao mesmo tempo, disse haver forças estruturais que devem manter um grau de fragmentação maior do que o observado anteriormente em termos de globalização.

Malik chamou atenção para a formação de coalizões e alinhamentos entre países. “Estamos vendo o surgimento de coalizões regionais, uma espécie de globalização regional”, afirmou. Segundo ele, esses agrupamentos reforçam a ideia de globalização, embora não sejam globais em si. O resultado, disse, pode ser uma configuração “menos global” ou uma espécie de modelo híbrido.

Malik também abordou a colaboração entre capital público e privado. Segundo ele, estruturas de financiamento misto podem envolver o setor público na mitigação de riscos para possibilitar a entrada de capital privado. O desafio está em reunir partes com objetivos e restrições diferentes, o que torna esses modelos difíceis de estruturar em grande escala.

“À medida que o capital se sentir mais confortável em trabalhar com o setor público em soluções de financiamento misto, continuaremos a ver esse crescimento”, afirmou.

Na avaliação dele, porém, aproximar a trajetória de descarbonização exigirá colaboração entre empresas, capital privado e setor público.

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