Ghabi fala sobre corpo, autoestima e pressão estética: 'Não dá para se resumir às expectativas dos outros'
Ghabi aprendeu cedo que o corpo pode ser mais do que imagem: pode ser história. Cantora, compositora e criadora de conteúdo, ela fala com a tranquilidade de quem transformou a própria vivência em discurso — não como vitrine, mas como território de afeto, memória e resistência. Frequentemente apontada como símbolo da “mulher brasileira”, ela faz questão de deslocar o olhar. Para Ghabi, o desafio cotidiano não é corresponder a expectativas, mas não se deixar resumir por elas.
“Minha autoestima é uma das melhores coisas que eu tenho”, afirma. O espelho, diz, funciona mais como espaço de reconhecimento do que de cobrança, mesmo nos dias em que a relação com a própria imagem não é tão generosa. Mãe de dois filhos, ela fala com naturalidade sobre marcas na pele, celulites e curvas — sem romantizar, mas também sem constrangimento.
“Sou uma mulher de descendência árabe, com traços marcantes. Num mundo onde todo mundo parece pagar para ficar igual, aprendi a amar meus diferenciais.”
A pressão estética sempre esteve presente em sua trajetória, mas ganhou novas camadas com o passar do tempo — especialmente quando o assunto é idade. “A gente não pode se dar ao luxo de envelhecer, de descansar.” Para se proteger, Ghabi passou a buscar referências femininas que envelhecem sob seus próprios termos, fora da lógica da comparação constante.
“O problema não é mudar, é se comparar ou querer parecer alguém que você não é. A beleza está em entender o que a natureza te oferece.”
Ghabi
Divulgação
Criada sob o imaginário das paquitas e das supermodelos dos anos 1990, ela lembra de uma fase marcada por transtornos alimentares e distanciamento do próprio corpo. “Eu detestava minhas curvas. Achava tudo vulgar.” A virada veio com o tempo — e com a percepção de que padrões não são fixos. “Hoje, tem gente gastando milhares de reais para ter um corpo como o meu. Quando surgiram referências que exaltavam cintura e quadril, isso me ajudou a me enxergar bonita.”
Hoje, o cuidado com o corpo deixou de ser uma questão estética para se tornar uma escolha de saúde emocional. Diagnosticada com transtorno de ansiedade, Ghabi encara a atividade física como parte do tratamento. “É tão importante quanto escovar os dentes ou tomar uma medicação.” A meta, agora, é longevidade com qualidade: viver mais e melhor, sem negociações com o próprio bem-estar.
Nas redes sociais, onde discursos sobre corpos reais dividem espaço com comparações incessantes, ela observa com olhar crítico. Para Ghabi, o chamado lifestyle saudável muitas vezes opera como uma nova forma de distinção social.
“Existe um custo altíssimo por trás do corpo perfeito. Suplementos, treinadores, procedimentos, remédios. Pouca gente consegue acessar isso.” O problema, aponta, é quando esse ideal passa a ser tratado como obrigação moral. “Ter saúde não é ter barriga trincada. É ter exames em dia e uma vida possível. E, muitas vezes, quem tem o corpo perfeito não tem autoestima nenhuma.”
Ao se dirigir a outras mulheres, Ghabi prefere a franqueza ao discurso motivacional vazio. “Nem tudo que está na internet é real ou saudável. Muitos corpos são produtos criados para te fazer gastar dinheiro.” Em um cenário que insiste em ideais inalcançáveis, ela reforça o básico — e o mais difícil: cuidar da mente, respeitar o próprio tempo e entender que, enquanto padrões mudam, a relação consigo mesma é o que permanece.
