Gestão de imóveis e apartamento como marcenaria: o histórico de brigas entre corretora e síndico que confessou homicídio

 

Fonte:


O assassinato da corretora Daiane Alves de Souza, de 43 anos, em Caldas Novas (GO), foi resultado de um longo histórico de brigas com o síndico do prédio onde ela morava, Cléber Rosa de Oliveira, que confessou o crime à Polícia Civil. Muito antes do desaparecimento da vítima, em 17 de dezembro de 2025, os dois protagonizavam uma sucessão de disputas administrativas, judiciais e pessoais que, segundo a investigação, ajudam a explicar a motivação do homicídio.

‘Raiva, alívio e dor’: Mãe de corretora assassinada em Caldas Novas se revolta após prisão de síndico

Morte do cão Orelha: Com salto de 1.400% em quatro anos, Brasil soma 13 novos processos de maus-tratos a animais por dia

De acordo com a Polícia Civil, o estopim dos conflitos remonta à perda, por parte do síndico, da administração de seis apartamentos pertencentes à família de Daiane. A gestão dos imóveis foi transferida para a corretora, o que teria gerado atritos constantes.

“Desde então, houve uma série de conflitos. Ele foi denunciado por perseguição”, afirmou o delegado André Luiz durante coletiva nesta quarta-feira.

Paralelamente à disputa pelos apartamentos, outro foco de tensão surgiu no início de 2025, quando o condomínio notificou a família da corretora sob a acusação de que o apartamento estaria sendo usado como marcenaria. A administração alegava que a atividade feria regras internas, causava transtornos e exigia a retirada de máquinas e materiais em até 72 horas, sob pena de multa. Daiane sempre negou a existência de marcenaria, sustentando que fazia apenas a montagem eventual de móveis próprios.

A relação se deteriorou de vez em abril, quando Daiane registrou boletim de ocorrência por violação de domicílio. Ela acusou o síndico de ter entrado em seu apartamento sem autorização, após receber mensagens que indicavam a invasão. Cléber confirmou à época que entrou no imóvel, afirmando que o objetivo era filmar e comprovar a suposta atividade irregular.

Nos meses seguintes, as acusações passaram a envolver o cotidiano do condomínio. Daiane afirmava que era impedida de exercer a profissão de corretora no prédio e que a portaria barrava encomendas destinadas a ela. A administração, por sua vez, expediu notificações relatando discussões com funcionários, abordagens consideradas inadequadas e uso indevido das áreas comuns.

As medidas se intensificaram em maio, com avisos de possível corte de água por suposta inadimplência e a interrupção do fornecimento de energia elétrica do apartamento — apesar de não haver atraso nas contas, segundo a família. A Justiça determinou a religação da luz e proibiu novas suspensões enquanto o caso era analisado.

Em agosto, o síndico convocou uma assembleia extraordinária para votar a expulsão de Daiane do condomínio. A pauta listava 19 acusações, incluindo exercício irregular da profissão, manutenção de marcenaria, constrangimento a funcionários, ameaças a moradores e exposição indevida da administração. A maioria dos condôminos votou pela saída da corretora, com prazo de 12 horas para deixar o prédio e ordem de manter distância mínima de 100 metros da recepção.

A decisão, no entanto, foi suspensa pela Justiça após recurso de Daiane, que alegou irregularidades na convocação da assembleia. O juiz André Igo Mota de Carvalho acatou o pedido de forma provisória, e uma audiência de conciliação entre as partes terminou sem acordo.

Segundo a Polícia Civil, esse histórico de disputas culminou no crime. Daiane desapareceu em 17 de dezembro, após descer ao subsolo do prédio para verificar o corte de energia em seu apartamento. Câmeras de segurança registraram a corretora entrando no elevador com o celular na mão, filmando o trajeto. O local dos disjuntores, porém, é um ponto cego do sistema.

Cléber confessou ter matado Daiane no subsolo após uma discussão e, de acordo com a polícia, usou as escadas para evitar ser filmado. Imagens mostram ainda o carro do síndico saindo do prédio com a capota fechada e retornando cerca de 40 minutos depois com a capota aberta. O corpo da corretora foi encontrado nesta quarta-feira (28), em uma área de mata às margens da GO-213, a cerca de 15 quilômetros de Caldas Novas.

Além do homicídio, Cléber responde a ao menos 12 processos envolvendo a vítima. O Ministério Público de Goiás o denunciou por perseguição (stalking), com agravante de abuso de função, ao apontar que ele teria usado o cargo de síndico para vigiar Daiane por câmeras, criar obstáculos à sua rotina e submetê-la a constrangimentos. O filho dele, Maicon Douglas de Oliveira, também foi preso, suspeito de auxiliar na obstrução das investigações.