Gerson Palermo: O início da trajetória criminosa de um chefe do PCC

Gerson Palermo: O início da trajetória criminosa de um chefe do PCC

 

Fonte: Bandeira



A Polícia Federal tinha informações de que um Volkswagen modelo Passat havia cruzado a fronteira entre Paraguai e Brasil na cidade de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, com uma grande quantidade de droga, indo para o Rio de Janeiro. Os agentes, então, montaram uma operação para interceptar o veículo na altura do KM 150 da Via Dutra, perto de Resende, no Sul Fluminense. Na madrugada de 2 de maio de 1980, o carro, com placa de Curitiba, foi identificado e abordado. Só que, quando policiais tentaram abrir o bagageiro, três dos quatro ocupantes do automóvel saíram disparando contra eles.

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Houve uma intensa troca de tiros. O traficante Marcos Sandy Vale foi alvejado nas costas e levado para a Santa Casa de Resende com uma bala alojada na medula espinhal. Entre os demais bandidos, um conseguiu fugir, outro foi preso tentando se esconder no mato e um terceiro criminoso acabou detido, segundo a polícia, na rodoviária de Resende, no momento em que se preparava para embarcar em um ônibus rumo ao Sul do país. Aquele era o paranaense Gerson Palermo, que, aos 22 anos, estava apenas no início de uma vida dedicada ao comércio internacional de entorpecentes.

Hoje aos 68 anos, um dos chefes do Primeiro Comando da Capital (PCC), Palermo é considerado um dos maiores traficantes do Brasil, responsável pela comercialização de grandes remessas de droga, principalmente cocaína, do Paraguai para o território nacional. As condenações do bandido, também conhecido como "Pigmeu" e "Germano", somam quase 126 anos de prisão. Procurado pela Polícia Federal desde 2020, quando rompeu a tornozeleira eletrônica e fugiu da prisão domiciliar, o bandido paranaense foi capturado nesta terça-feira, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.

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Palermo, que também é um experiente piloto de aviões, ficou conhecido no Brasil em agosto de 2000, quando foi preso por liderar o sequestro de um Boeing 727 da Vasp no Paraná para roubar cerca de R$ 5 milhões em dinheiro que deveriam ir para o Banco do Brasil. O crime ganhou destaque nos jornais de diversos países. Mas o nome da bandido já havia aparecido no noticiário algumas vezes antes disso.

Gerson Palermo em foto de 1990 divulgada pela polícia e em imagem recente

Reprodução

Segundo uma reportagem do GLOBO na época daquela prisão em maio de 1980, Palermo trabalhava para Javier Perez Valdez, dono de plantações de maconha no Paraguai. O Passat em que ele viajava tinha saído de Pedro Juan Caballero, grande entreposto do tráfico na fronteira com o Brasil, levando os 100kg de maconha, com destino ao Rio, onde a mercadoria seria trocada por carros roubados. Ainda de acordo com a matéria, os veículos seriam, então, contrabandeados para o Paraguai. A operação era parte de um grande esquema ilegal que consistia no escambo de drogas por automóveis.

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Dias depois da apreensão da droga na Via Dutra, o traficante Marcos Sandy, que estava internado na Santa Casa de Resende com uma bala nas costas, desapareceu do hospital sem deixar rastro. O PM que fazia a guarda do suspeito disse que "foi ao banheiro de madrugada" e, na volta, verificou que o criminoso não estava mais lá. Ninguém soube informar como o homem saiu da unidade com um ferimento tão grave sem que fosse percebido. O policial foi preso administrativamente.

Palermo também não ficou muito tempo na cadeia. De volta à liberdade, subiu na hierarquia do tráfico ao longo da década de 1980. Em 1990, uma reportagem do GLOBO informou que o bandido era um dos principais responsáveis pelo envio de drogas do Paraguai para o Brasil, em uma operação a partir de Pedro Juan Caballero que incluía aviões e caminhões. Ele foi preso mais uma vez naquele mesmo ano, quando policiais o flagraram conduzindo um caminhão carregado de éter e acetona, que servem de matéria-prima para o refino de cocaína.

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Apesar de ter sido capturado algumas vezes, em flagrante, Palermo sempre conseguiu retornar à liberdade. Seu período mais longo atrás das grades ocorreu entre 1991 e 1998. Segundo policiais informaram ao GLOBO após o sequestro do voo, em agosto de 2000, ele cumpria pena em regime semi-aberto quando realizou o crime. O Boeing da Vasp deixou o Aeroporto de Foz do Iguaçu com destino a Curitiba, mas foi tomado por criminosos minutos após a decolagem. O piloto da aeronave foi forçado a pousar em Porecatu, no norte do Paraná, de onde a quadrilha fugiu com o dinheiro.

Avião da Vasp após sequestro liderado por Palermo em 2000

Reprodução/Globoplay

Palermo acabou preso dias depois e condenado a 66 anos e 9 meses de prisão. Ele cumpriu pena em regime fechado até passar, mais uma vez, para o semi-aberto, em fevereiro de 2006. A partir de então, o bandido foi preso no curso de diferentes investigações. Em setembro de 2007, por exemplo, policiais federais o capturaram em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, sob a suspeita de coordenar uma quadrilha que estava movimentando 1,4 tonelada de maconha em um caminhão.

Em 2017, Palermo foi preso acusado de chefiar outra operação, com uso de aeronaves para sobrevoar a fronteira levando toneladas de droga, que, então, eram distribuídas em caminhões. O bandido ficou sob custódia em um presídio de segurança máxima de Campo Grande, mas saiu pela porta da frente, em 2020, durante a pandemia de COVID-19, quando sua defesa pediu prisão domiciliar alegando que o bandido era idoso, diabético e hipertenso. O desembargador Divoncir Schreiner Maran, de plantão no Tribunal de Justiça, concedeu a ele uma liminar para cumprir pena em casa.

Palermo saiu da penitenciária às vésperas do feriado de Tiradentes naquele ano. Na noite de 22 de abril, rompeu a tornozeleira eletrônica que usava e, simplesmente, desapareceu do radar.

A liminar foi posteriormente cassada, sob o argumento de que, mesmo diante das alegações de saúde, Palermo era um preso de alta periculosidade. A concessão da prisão domiciliar motivou um processo administrativo disciplinar sobre a conduta do desembargador e, em fevereiro deste ano, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) puniu Maran com aposentadoria compulsória, após verificar irregularidades na decisão do magistrado. De acordo com essa que é a punição máxima da magistratura no país, o desembargador vai continuar recebendo salário integral.