Geraldo Vandré, ode ao tempo para sexo e bate-boca: como foi a votação da PEC da escala 6x1
A Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece o fim da escala 6x1 em uma maratona de votações que durou mais de 12 horas, entre análises em comissão e no plenário. Nesse período, houve bate-boca, vaias, gritos de comemoração, cantoria e momentos inusitados.
Fim da escala 6x1: você trabalha mais ou menos do que a média no Brasil? E no mundo? Confira
Reação: Empresários e oposição procuram Alcolumbre e pedem para fim da escala 6x1 ser discutida após a eleição
O deputado Pastor Sargento Isidório (Avante-BA) disse que a escala 5 por 2 garante aos trabalhadores e às trabalhadoras o direito de melhor honrar e criar sua família, além de cuidar de sua saúde, além de permitir mais tempo para o sexto.
– A escala 5 por 2, além de melhorar a vida das famílias, vai permitir que os trabalhadores e as trabalhadoras tenham tempo inclusive para ter mais filhos e, portanto, fazer sexo em paz e com mais tranquilidade.
O deputado também puxou músicas. Cantou "Liberdade", de Edson Gomes, que diz: "Vamos, amigo, lute, vamos, amigo, lute".
Pastor Sargento Isidório também chamou a atenção pela vestimenta. Estava trajando colete e capacete de operário, levando junto ao corpo um cartaz com a inscrição: "Trabalhadores têm família e não são robôs. Escala 5x2 já. Pastor Isidório".
O deputado Pastor Sargento Isidório
Reprodução
No início das discussões, presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), determinou que todos os homens vestidos com camisas pelo fim da escala a retirasses.
Já o deputado Otoni de Paula (PSD-RJ) puxou "Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando)”, de Geraldo Vandré, em defesa da aprovação do texto. A música também foi cantada pelos governistas ao fim da votação.
Plenário da Câmara dos Deputados durante votação do projeto 6x1
Brenno Carvalho / Agência O Globo
Quando a PEC foi aprovada, deputados da base gritaram "olê olê olá, Lula, Lula" e o relator da proposta, o deputado Leo Prates (Republicanos-BA), se emocionou. Num discurso feito pouco antes, agradeceu ao presidente da Câmara por ter sido escolhido para a relatoria e disse que estaria sempre com Motta "em todos os seus sonhos".
A análise também teve momentos de discussões acaloradas.
Desde a abertura da comissão especial, pela manhã, a sessão foi marcada pela polarização do posicionamento entre a oposição e o governo. Com a forte presença de representantes de movimentos sindicais e trabalhadores na Câmara e na reunião, deputados do governo, inclusive o presidente da comissão, Alencar Santana (PT-SP), vestiam camisetas a favor do fim da escala.
Votação do fim da escala 6x1 tem bate-boca e vaias
Parlamentares da base do governo abriram a reunião criticando deputados de oposição, que declararam que vão apoiar o projeto de autoria da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que amplia a redução para uma escala 4x3. Os governistas alegam que o movimento acontece para inviabilizar a aprovação da PEC que foi negociada com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
— O que eles estão fazendo é tentar enterrar toda a proposta. E enterrar esse texto agora seria um prejuízo gigante. Eles não querem nem 4 por 3 e nem 5 por 2, eles querem continuar a 6 por 1 e estão fazendo uma manobra desonesta — afirmou a deputada Erika Hilton.
A deputada de oposição Julia Zanatta (PL-SC) disse que o apoio anunciado ontem pelo líder Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) tem o objetivo de dobrar a aposta da proposta apoiada pelo governo em meio à pressão popular pela medida.
— Ontem o meu líder fez uma declaração que o PL vai aderir à luta do 4x3 — disse a parlamentar que foi ironicamente aplaudida e vaiada por manifestantes na reunião — Vamos ver agora como quem propôs de fato essa proposta vai se posicionar no plenário da Câmara. É óbvio que estamos preocupados com a qualidade de vida do trabalhador, óbvio que a gente está preocupado se esse custo da mão de obra não vai recair no povo — completou.
Os ânimos foram se tensionando com o passar da sessão, principalmente a partir do início da votação, pelas 16h, com o encaminhamento da posição dos partidos pelos líderes. Em seu discurso, a deputada Erika Hilton apontou que parlamentares da oposição apoiaram uma emenda ao projeto estendendo o período de transição para 10 anos.
O líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ), pediu direito de resposta, e chamou a deputada de “mentirosa”.
— Vou desmentir essa mentirosa que acabou de falar. Ela mentiu, não vai cortar minha palavra, eu vou provar que ela está mentindo (...) Quem assinou esta emenda foi o PP do Rio Grande do Sul e a deputada aqui sabe muito bem quem foi. Então não minta ao povo brasileiro, nós do PL somos a favor do trabalhador — disse o deputado sob vaias e gritos de “mentiroso”.
Mesmo com o desentendimento, o líder do PL encaminhou a favor do mérito do relatório, alegando que apresentará um destaque de preferência durante a votação da PEC no plenário para que passar na frente a PEC sugerida da deputada Erika Hilton (Psol-SP), para reduzir a jornada para 36 horas, sem prazo de transição. O destaque foi rejeitado.
Após a rejeição dos cinco destaques apresentados, o líder do PL rapidamente se encaminhou para a saída da comissão, onde foi recebido por manifestantes a favor da redução da jornada, com vaias e gritos de protesto. Com o passo apertado em direção ao plenário, Sóstenes reiterou o posicionamento da oposição.
No plenário, o PL repetiu a estratégia de dobrar a aposta e pedir a votação da escala 4x3.
– Mas posso te falar? Eles se lascaram, sabe por quê? Porque votamos lá, está votado "sim". Quer jogar o jogo? Eu sei jogar o jogo também. A narrativa vai cair. Vão falar o que agora? Que a gente votou contra, que a gente é contra o trabalhador? Não. Mas sabe o que eu vou falar, e vou falar exaustivamente? Sabe o que é? Quando houver demissão em massa, quando aumentar o preço dos produtos, quando o empreendedor não conseguir mais e tiver que demitir a pessoa para contratar outro, aí, meus amigos, esse dia vai ser maravilhoso, porque vocês queriam colocar algo e fugir da consequência, mas não. Quando acontecer, eu estarei pronto, de roupa pronta para falar que o responsável por isso são vocês, que literalmente querem enganar as pessoas – disse Nikolas Ferreira (PL-MG).
O deputado André Fernandes (PL-CE) subiu à tribuna e chamou de "vagabundagem" o período de transição de um ano. O microfone foi cortado.
– Estão querendo, inclusive, que a transição só seja concluída no ano que vem, para que os efeitos só sejam sentidos após a eleição. Isso é pura demagogia, é mentira, é vagabundagem! Estão aqui dizendo que não são a favor dos trabalhadores e que votarão contra a escala 4 por 3. Eles querem que a transição só se conclua ano que vem.
Erika rebateu:
– Presidente, é muito impressionante a cara de pau, a desonestidade intelectual e o teatro de biruta de aeroporto que a extrema direita está protagonizando dentro deste plenário.
