Geraldo Alckmin completa 74 anos neste sábado (7/10) numa posição que pouca gente apostaria há cinco anos. Nascido em Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba, o vice-presidente chega à data menos de duas semanas depois de ter sido reeleito na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva, líder do partido que ele derrotou quatro vezes nas urnas paulistas e de quem se tornou um dos auxiliares de maior confiança.
A aproximação que mudou o rumo da eleição de 2022 começou em dezembro de 2021, numa conversa entre Alckmin, Gabriel Chalita e Fernando Haddad, segundo apurou a reportagem. Depois de 33 anos no PSDB, o ex-governador deixou o encontro convencido de que era o nome mais adequado para ocupar a vice numa frente ampla contra Jair Bolsonaro.
Coube a Haddad levar a ideia a Lula, e a tarefa foi mais fácil do que se imaginava nos bastidores. A chapa formada pelos antigos adversários venceu o segundo turno com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro, numa disputa decidida por pouco mais de 2 milhões de votos.
Médico com pós-graduação em anestesiologia, Alckmin coordenou o gabinete de transição e articulou a transferência de poder com integrantes do governo que saía. Em dezembro de 2022, foi nomeado para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, acumulando a pasta com a Vice-Presidência, e ali construiu sem alarde a fama de interlocutor paciente.
O papel ficou evidente quando Donald Trump impôs tarifas de 50% a produtos brasileiros em 2025 e Alckmin assumiu a linha de frente das conversas com o secretário de Comércio, Howard Lutnick, e com o representante comercial Jamieson Greer. Longe dos holofotes, ele apostou na negociação em vez da retaliação e levou às reuniões os números que desmontavam a tese americana, como a tarifa média de 2,7% cobrada pelo Brasil e a tarifa zero aplicada a oito dos dez produtos que os Estados Unidos mais vendem ao país.
O resultado apareceu em novembro de 2025, quando a Casa Branca retirou a sobretaxa de 40% sobre 238 itens, entre eles café, carne bovina, cacau e frutas, um alívio decisivo para o agronegócio brasileiro. Fiel ao próprio estilo, o vice evitou reivindicar a conquista, que Washington atribuiu à conversa entre Trump e Lula.
A permanência de Alckmin na chapa de 2026 chegou a ser posta em dúvida quando setores do PT negociaram a vaga de vice com o MDB e o PSD em troca de apoio nacional. Também houve pressão para que ele disputasse o Senado por São Paulo, mas o vice disse a aliados que só entraria na eleição para repetir a dobradinha.
Lula encerrou o debate em 31 de março, na reunião ministerial em que anunciou que o companheiro deixaria o ministério para ser candidato “outra vez”. Hoje a confiança entre os dois é compartilhada e pública, como ficou claro na convenção do PSB, em julho, quando Lula apresentou o vice como uma garantia de que todos precisam.
Em 25 de outubro, depois de terminar a primeira rodada atrás de Flávio Bolsonaro, a dupla virou o jogo e deu a Lula um inédito quarto mandato. Casado desde 1979 com Maria Lúcia Ribeiro Alckmin, a dona Lu, com quem teve três filhos e tem quatro netos, o vice divide a vida pública com uma mulher que construiu uma trajetória própria no trabalho social.
Quando assumiu o Fundo Social de Solidariedade de São Paulo, ela implantou como primeiro projeto o Padaria Artesanal, que ensina a fazer pães nutritivos e de bom valor comercial a pessoas em situação de vulnerabilidade e que, segundo dona Lu, já qualificou mais de 100 mil pessoas no estado.
Ao chegar a Brasília com o marido, em janeiro de 2023, ela levou o projeto para paróquias e entidades do Distrito Federal, onde mais de 2,1 mil pessoas aprenderam o ofício só no primeiro ano. Os alunos se tornam multiplicadores, e a meta declarada de dona Lu é espalhar as padarias pelo país inteiro.
A devoção a Nossa Senhora Aparecida acompanha o casal há décadas, e Alckmin frequenta a Basílica no dia 12 de outubro desde a infância. Neste ano, aproveitou a data para anunciar uma calçada de 134 quilômetros ao lado da Via Dutra, entre Arujá e Aparecida, destinada aos romeiros que fazem o caminho a pé até o Santuário Nacional.
Desde a reeleição, a disputa por ministérios movimenta Brasília, e Alckmin tem se mostrado ainda mais reservado do que de costume. Ele não gosta de ver o próprio nome em listas de cotados e não alimenta especulações sobre a Esplanada.
Segundo apurou a reportagem, o vice não tem pretensão ministerial para o novo mandato e promete a Lula apenas o que já cumpre há quatro anos, a lealdade.
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