Geração Sephora e o lápis na córnea
Manhã de segunda, eu e minha filha no carro a caminho da escola. Ela tira da mochila a bolsinha de maquiagem, inclina o tronco e começa a pintar os olhos, guiando-se pelo espelho do para-sol. Eu digo que, se frear brusco, o lápis entra na córnea. Ela observa que eu já tinha dito o mesmo semana passada, ao que eu respondo que as leis da física não mudaram desde então.
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É quando eu uso a mais inócua expressão no diálogo com adolescentes: “Na minha época...” E, vejam vocês, eu que tinha acabado de livrar minha filha do risco da cegueira, agora a induzo para a surdez. No minuto que uma jovem escuta a expressão, ela para de ouvir.
Por que então eu continuei? Mistérios. Criar filhos é como o jogo de quermesse de colocar a argola no pitoco. Jogamos várias como conselhos, sem prática ou expectativa. Em alguma hora alguma se encaixa.
Na minha época a gente só tinha um batom. De maçã verde e que durava 24 horas. Embalagem e bastão eram de um verde similar ao de um sinal de trânsito. No contato com os lábios a cor se tornava rosa. Era fim dos anos 1980, quando MacGyver nos surpreendia semanalmente após a novela das 8, fazendo bombas com clipe e amaciante. Natural, portanto, ter um batom também mágico e versátil, mudando de cor e prometendo a semi-eterna beleza labial. O batom verde só produzia um tipo de rosa. Que funcionava na boca de todas. Não importa se a menina tinha a pele moreno jambo, ébano cintilante, branco leite, morena de ovo caipira. Era aquilo e ponto.
“As meninas de hoje” (outra expressão tão clichê quanto “na minha época”, espécie de “ponta do iceberg” do vocabulário materno) têm no banheiro tanta maquiagem quanto um camarim da Globo. Dizem ser esta a geração Sephora, referência ao trambolho de loja de cosméticos que se alastrou pelos shoppings do mundo.
Parte do exagerado uso de cosméticos é promovido pela Sephora. Parte é resultado de influencers maquiando-se em vídeos, supostamente para ir a algum lugar (o subconsciente das nossas filhas). Várias delas são o raio das coreanas.
Não é que eu tenha um problema com as coreanas. É que todas as coreanas são um problema. Elas são deslumbrantes e perfeitas, independentemente da idade. A coreana passou pela guerra, sofreu maus-tratos, desertou da Coreia do Norte atravessando a nado um rio no inverno, tem oitenta anos e ainda assim estará magnífica. Lado a lado com uma, parece que todos os trens da Central passaram pelo meu rosto enquanto ela emergiu de um banho de rosas.
As coreanas se multiplicam em vídeos pelas redes, prometendo a beleza delas se usarmos os mesmos produtos. Mas a única forma de se parecer com uma é nascer na Coreia, e os benefícios de cosméticos não se estendem à reencarnação.
Ainda assim, o banheiro aqui de casa é repleto de potinhos coreanos. Os rituais dermatológicos da minha filha se estendem para além da hora de ir à escola, o que o explica o descaso com as leis da física e a maquiagem no carro. Eu quero soltar um outro “na minha época”, engatar num Dorival Caymmi e na Marina Morena que se pintou. Mas sei meus limites, e que citar essa música seria mais exótico do que falar coreano.
