'Gente, esses meninos são tudo!': O cortejo maravilhoso da Amigos da Cacilda
Santa Teresa estava daquele jeito. Hordas de foliões besuntados de glitter se aglomeravam perto do Largo dos Guimarães, no local indicado como a concentração de um bloco "cibernético" anunciado por mensagem de WhatsApp compartilhada milhares de vezes em horas. Mais para baixo do bairro, na Rua Monte Alegre, um caminhão de som berrava chamando para o desfile de 70 anos do Bafo da Onça, com participação do Cacique de Ramos, por volta das 11h, na segunda-feira de carnaval.
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Já na querida Praça Odylo Costa Neto, debaixo de um sol pra cada ser humano, um grupo de novinhos com instrumentos se juntava atrás de um estandarte azul com a cara de uma ovelha desenhada em traços infantis que dizia: "Amigos da Cacilda". Estava começando o cortejo da banda formada por alunos da Favela Brass, projeto social que o trompetista inglês Tom Ashe criou em 2014, na favela Pereira da Silva para disseminar a cultura das fanfarras nas comunidades de Santa Teresa.
Composta pela primeira turma maior de idade do Favela Brass, a banda já tinha feito, ano passado, um belo cortejo para um punhado de foliões no bairro onde nascera. Também navegou pelas ruas do Centro depois do desfile do Cordão do Boitatá, no último domingo de pré-carnaval. Então, parte das pessoas que atenderam ao chamado nas redes sabia da qualidade dos músicos. Mas a Amigos da Cacilda surpreendeu entregando um dos melhores cortejos do carnaval de rua este ano.
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O desfile foi combinado na véspera, depois que o trompetista, soldado da Aeronáutica, avisou que não estaria de serviço na segunda-feira. Mas houve desfalques. Um trombonista precisou ajudar a mãe, cozinheira. Outro integrante não pôde tocar porque é evangélico. E um terceiro músico ficou cuidando do filho recém-nascido. Porém, mesmo com apenas oito componentes, a Amigos da Cacilda arrastou uma multidão descendo até a Glória tocando como se fossem mais de 20. Foi acachapante.
- Gente, que banda é essa!? Esses meninos são tudo, minhas amigas não vão acreditar! - gritava uma foliona enquanto filmava a evolução.
Cortejo de carnaval da Amigos da Cacilda em Santa Teresa
Lucas Bori
Palmas para os solos alucinantes do trompetista, a liderança do trombonista e as linhas de baixo absolutamente impecáveis do tubista Vinicius Pereira, um garoto de 20 anos, cego, que parecia uma máquina e não parava de tocar, guiado ladeiras abaixo pela mãe segurando a manga da camisa dele, enquanto uma massa de foliões se acabava de pular. O timbre do rapaz é alto, cirúrgico e criava um delicioso assoalho de groove sobre o qual o bloco todo brincava, deitava e rolava. Maravilhoso.
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Repertório e estilo da Amigos da Cacilda lembram o bloco 442, misturando a folia carioca e a tradição "second line" do carnaval de Nova Orleans. Os músicos são fissurados em jazz e têm a meta de tocar nos festivais do gênero, mas, nos cortejos em fevereiro, eles enfileiram clássicos de rock, soul e MPB, além de algumas marchinhas, tudo com arranjos envenenados. No pré-carnaval, depois do Boitatá, tiraram em cima da hora o hit "Banho de Chuva", brincando com a previsão do tempo naquele dia.
Cacilda, a propósito, é o nome do fantoche de ovelha que o britânico Tom Ashe usava para iniciar as crianças na música de forma lúdica, na oficina do Favela Brass, no Pereirão. Hoje, a maioria ali toca vários instrumentos. No começo do cortejo de segunda-feira, ainda na praça, estavam quase todos com instrumentos trocados. Quando a (ótima) caixeira Bárbara passou meio mal por causa do calor e foi comer uma paçoquita com água, o trombonista assumiu o robozinho. Sem caixa, não dá.
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O Favela Brass foi criado para suprir uma necessidade. Com a retomada das fanfarras liderada pelo Boitatá (sempre ele) na virada do século, havia no Rio uma grave escassez de músicos de sopro para sustentar o carnaval acústico. O contingente começou a aumentar, mas, como estamos falando de instrumentos caros, a maioria dos saxofones, trompetes e trombones estava nas mãos de uma classe mais abastada. O projeto no Pereirão levou essas ferramentas sonoras para a favela.
Músicos com tuba e saxofone no cortejo da Amigos da Cacilda
Lucas Bori
- Hoje, são centenas de crianças e adolescentes atendidos na oficina do projeto e também em escolas municipais. Os integrantes da Amigos da Cacilda estão entre os primeiros a atingir maioridade - diz o publicitário Alexandre d'Albergaria, produtor da banda. - Antes de ser assumida pelos alunos, a banda era formada por professores e músicos amigos do Favela Brass. Mas era só uma brincadeira de carnaval mesmo. Não chegava perto do que esses moleques estão fazendo hoje.
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Dá pra dizer com toda certeza que os meninos foram bons alunos e estão criando casca pra tocar na rua. Não é pra qualquer músico. Tem que operar o instrumento andando com o radar ligado, acionando o olhar periférico pra não levar esbarrão de folião desatento e nem tropeçar em buraco de calçamento. Como a banda é pequena, fica mais fácil negociar com a multidão e manter a formação compacta, se impondo graças ao altÃssimo nÃvel musical dos integrantes e com aquele fôlego de inimigos do fim.
O cortejo começou miúdo, mas assim que a galera começou a compartilhar nos Stories o tesouro que estava ali, mais gente começou a chegar. Quando viramos à direita depois do Largo dos Guimarães pra descer a Rua Cândido Mendes em direção à Glória, éramos um mundaréu de famintos devorando cada cereja do repertório e pedindo mais. Ao final, depois de mais de três horas de pulação e beijo na boca, as pessoas só queriam saber se a Amigos da Cacilda ia tocar de novo. Quando e onde?
Pois rolou um cortejo logo no dia seguinte, nas ruas da Gamboa, junto com a New York Brass Band. E vai ter, neste sábado, uma apresentação parada no Largo do Curvelo, em Santa Tersa, às 11h.
O carnaval de rua do Rio tem de tudo e pra todo mundo (o que é ótimo!). Mas tem gente que olha para uns blocos meio zoados e diz que carnaval com música de qualidade está em Olinda. Afirmar isso é desconsiderar Cacique de Ramos, Cordão do Boitatá (de novo), Céu na Terra, Prata Preta, Orquestra da Rua, Besame Mucho, 442 e vários outros, como a Amigos da Cacilda, certamente uma novidade no pelotão de bandas que estão um nÃvel acima, e o melhor, com um futuro brilhante pela frente.
