Gêmeos de pais diferentes? Colombiana engravida de dois homens; entenda fenômeno raro
É possível ter gêmeos de pais diferentes? O que parecia ser apenas um exame de rotina acabou se transformando em um caso raro que intriga a ciência. Dois anos após dar à luz gêmeos, uma mulher colombiana procurou um laboratório para confirmar a paternidade dos filhos, e recebeu um resultado inesperado: os meninos tinham pais diferentes.
A explicação da psicologia para quem só chega atrasado e por que também pode ser um sinal de boa saúde
Mãe de três filhos morre após parada cardíaca durante cirurgia para aumentar os seios na Turquia
O caso foi analisado pelo Laboratório de Genética de Populações e Identificação da Universidade Nacional da Colômbia e divulgado neste mês de abril. Diante do resultado incomum, os cientistas repetiram todo o processo para descartar qualquer erro. O diagnóstico, no entanto, se confirmou: tratava-se de um episódio de superfecundação heteroparental, quando dois óvulos do mesmo ciclo são fecundados por homens distintos.
A descoberta surpreendeu até pesquisadores experientes.
— Sou diretor do laboratório há 26 anos e este é o primeiro caso que presenciamos — afirmou à BBC News Mundo o geneticista William Usaquén.
A geneticista Andrea Casas, que também participou da análise, destacou que a equipe já conhecia a possibilidade teórica do fenômeno, mas nunca havia tido contato direto com um caso comprovado.
Como o estudo confirmou o caso
Para chegar à conclusão, os cientistas utilizaram uma técnica baseada na análise de “marcadores microssatélites”, pequenos trechos do DNA que funcionam como uma espécie de impressão digital genética.
O processo começa com a coleta de amostras de sangue da mãe, das crianças e do suposto pai. Em laboratório, o DNA é isolado, amplificado e marcado com substâncias fluorescentes. Em seguida, passa por equipamentos capazes de identificar padrões genéticos específicos, convertidos em sequências numéricas.
No caso colombiano, foram analisados 17 desses marcadores. O resultado mostrou que apenas um dos gêmeos tinha compatibilidade genética com o homem testado. O outro apresentava um perfil completamente diferente.
Diante da inconsistência, o exame foi refeito desde o início, e chegou à mesma conclusão, eliminando a possibilidade de falha técnica.
Por que isso é tão raro
Segundo Usaquén explicou à BBC, a raridade do fenômeno se deve à combinação de vários fatores pouco comuns.
— A mãe precisa ter dois parceiros em um curto espaço de tempo, ovular mais de um óvulo no mesmo ciclo e ambos precisarem ser fecundados — disse.
Ou seja, trata-se de uma sequência de eventos improváveis acontecendo simultaneamente.
Além disso, os óvulos permanecem viáveis por um período limitado, geralmente entre 24 e 36 horas, o que reduz ainda mais as chances de duas fecundações independentes.
Outro ponto destacado pelos pesquisadores é que muitos casos podem nunca ser descobertos, já que testes de paternidade não são realizados rotineiramente.
O que dizem os médicos
A obstetra Daniela Maeyama, da Maternidade São Luiz Star, explica que a superfecundação heteroparental ocorre quando há liberação de mais de um óvulo no mesmo ciclo menstrual, algo incomum, mas possível.
— Se a mulher tiver relações com parceiros diferentes dentro da janela fértil, cada óvulo pode ser fecundado por um espermatozoide distinto — afirmou ao GLOBO.
Ela destaca que o tempo de sobrevivência dos gametas favorece esse cenário: enquanto o óvulo vive até cerca de 48 horas, os espermatozoides podem permanecer ativos por até 72 horas no organismo feminino.
A estimativa é que esse tipo de gestação ocorra em cerca de um a cada 13 mil nascimentos, embora especialistas acreditem que o número possa crescer com o avanço dos testes genéticos e o uso de tratamentos de fertilidade.
Entre ciência e intimidade
Apesar do interesse científico, os pesquisadores ressaltam que há limites éticos na investigação desses casos.
Segundo Usaquén, os testes de paternidade são conduzidos com absoluto respeito à privacidade dos envolvidos, sem aprofundar aspectos da vida pessoal que não sejam relevantes para a análise genética.
O episódio colombiano, além de raro, ilustra como a biologia pode desafiar expectativas, e como avanços na genética estão revelando situações que, até pouco tempo, permaneceriam desconhecidas.
