Apenas 3% das terras aráveis na Faixa de Gaza permanecem intactas e acessíveis aos agricultores, uma situação crítica devido principalmente à expansão das zonas de exclusão militar, alertou a ONU nesta terça-feira.
O dado surge em meio à continuidade da violência no enclave, onde um novo ataque aéreo israelense matou seis pessoas nesta terça, e após declarações do ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, de extrema direita, que defendeu assassinatos seletivos diários em Gaza e a redução da presença palestina no território.
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Segundo o estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e do Centro de Satélites das Nações Unidas (UNOSAT), essa deterioração recente das terras aráveis no enclave se explica, entre outros fatores, pela drástica restrição de acesso aos campos, devido ao deslocamento para oeste da "linha amarela" que separa a zona de cessar-fogo da área controlada pelo Exército israelense.
De acordo com esta nova avaliação geoespacial, baseada em dados coletados no final de junho de 2026, a área agrícola utilizável e não danificada despencou, caindo de 601 hectares em outubro de 2025 para apenas 448 no final de junho de 2026, uma queda de 25,5% em oito meses.
Em todo o enclave palestino, 27% das terras agrícolas permanecem fisicamente acessíveis, mas quase toda essa área sofreu danos graves que exigem trabalhos significativos de reabilitação.
As estufas também foram afetadas, e apenas 16,6% delas permanecem utilizáveis.
A situação é especialmente dramática na região de Rafah, no sul do enclave, onde mais de 97% das terras aráveis estão agora inacessíveis.
"Sem medidas urgentes para restabelecer o acesso seguro e fornecer aos agricultores o apoio de que precisam, as chances de recuperação da produção local de alimentos continuarão a diminuir", alertou Rein Paulsen, diretor do Escritório de Emergências e Resiliência da FAO, em um comunicado, preocupado com essa "perspectiva alarmante".
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Além de não conseguirem acessar suas terras, os agricultores e criadores de gado de Gaza enfrentam uma grave escassez de fertilizantes, sementes, combustível e ração animal, agravada pelos bloqueios de fronteira, observa a FAO.
Antes do início da guerra em outubro de 2023, o setor agrícola representava cerca de 10% da economia de Gaza e sustentava mais de 560 mil pessoas.
Novos ataques
Enquanto isso, os ataques continuam no enclave palestino.
Autoridades de saúde de Gaza disseram na terça-feira que um ataque aéreo israelense matou seis pessoas no porto da Cidade de Gaza e feriu outras 12, enquanto os militares israelenses afirmaram que o alvo eram vários comandantes do Hamas.
Mahmud Basal, porta-voz da Defesa Civil de Gaza, que opera sob a autoridade do Hamas, disse à AFP que pelo menos seis pessoas foram mortas, "incluindo uma criança", e que "um grande número ficou ferido, em consequência de um ataque israelense contra tendas de deslocados no porto de Gaza".
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O Hospital al-Shifa, na Cidade de Gaza, informou ter recebido cinco corpos e 13 feridos, um dos quais faleceu posteriormente.
Por sua vez, o Exército israelense alegou ter realizado um "ataque aéreo de precisão" contra "vários comandantes do Hamas" que "estavam planejando ataques terroristas contra as tropas das forças armadas que operavam na Faixa de Gaza".
Segundo relatos da mídia israelense, o Exército israelense reduziu suas operações na Faixa de Gaza nos últimos dias devido à pressão dos Estados Unidos, realizando ataques para eliminar ameaças iminentes contra suas tropas ou para matar pessoas que participaram do ataque de 7 de outubro de 2023 contra Israel, que desencadeou a guerra em Gaza.
O ataque ocorreu um dia depois de o enviado da Casa Branca e genro do presidente Donald Trump, Jared Kushner, se reunir com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, como parte de um esforço americano para impulsionar o plano de paz de Washington para a Faixa de Gaza.
Um dia após conversar com representantes do Hamas no Egito, Kushner discutiu com Netanyahu a possibilidade dos americanos supervisionarem o desarmamento do braço armado do grupo palestino, segundo uma autoridade israelense informada sobre encontro.
O premier, entretanto, reiterou que as Forças Armadas israelenses só se retirarão de Gaza quando o Hamas estiver completamente desarmado.
Assassinatos e limpeza étnica
Também ocorrem após nova polêmica do ministro israelense Ben-Gvir, durante uma participação recente em um podcast, no qual insistiu na necessidade de uma ocupação militar e na construção de assentamentos em toda a Faixa de Gaza, bem como na promoção da limpeza étnica da região.
"Não é segredo que tenho divergências com o primeiro-ministro.
Acredito que devemos realizar assassinatos seletivos em Gaza todos os dias, 30 ou 40 por noite", disse ele.
"Não apenas daqueles que representam uma ameaça imediata.
Há pessoas lá que não merecem viver.
Elas nem são pessoas.
Não quero chamá-las de pessoas."
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As declarações foram feitas no podcast "8 de outubro", em referência ao dia após o ataque de 2023.
Durante a conversa, o ministro de extrema direita e o entrevistador (Rom Braslavski, que foi tomado como refém do Hamas na época, sendo libertado somente dois anos depois, durante o acordo de cessar-fogo) usaram broches de forca em apoio à ampliação da pena de morte aprovada pelo Parlamento israelense em março.
A nova lei estabelece o enforcamento como pena padrão para palestinos na Cisjordânia ocupada condenados por matar israelenses em atos de violência ligados ao conflito, sem a mesma previsão para israelenses judeus.
