Gaza se prepara para realizar primeira eleição local em duas décadas neste sábado

 

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Durante 20 anos, os palestinos em Gaza enfrentaram bombardeios israelenses, deslocamentos repetidos e uma ditadura. Agora, autoridades palestinas estão nos preparativos finais para eleições municipais que acontecem neste sábado em uma única cidade de Gaza, Deir al-Balah, um dos poucos lugares onde o Exército israelense não realizou uma invasão terrestre em larga escala durante os dois anos de guerra — embora ainda apresente muitos sinais de bombardeios. O Hamas, que não participará do pleito, afirmou estar disposto a abrir mão da administração do território, mas resiste a pressões para entregar suas armas.

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Cerca de 70 mil pessoas estão aptas a votar na eleição de sábado, segundo os organizadores. Para muitos, é uma chance aguardada há muito tempo de ter voz na administração da cidade. A eleição está sendo organizada pela Autoridade Nacional Palestina (ANP), que governa a Cisjordânia ocupada por Israel, e seu envolvimento é significativo, já que foi removida à força do poder em Gaza pelo Hamas em 2007. Desde então, o grupo controla a nomeação de prefeitos e membros dos conselhos municipais em todo o território.

— Toda a minha geração esperou por essa oportunidade — disse Abd al-Rahman al-Masri, um médico de 27 anos que nunca votou.

Ele afirmou querer que o próximo conselho municipal encontre soluções para os problemas de Deir al-Balah, desde água e esgoto até a falta de espaço nos cemitérios.

Eleição é organizada pela Autoridade Nacional Palestina

EYAD BABA / AFP

Um porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, disse que o grupo apoia a realização das eleições municipais em Deir al-Balah e prometeu não interferir:

— O Hamas já decidiu entregar todas as responsabilidades e poderes à lista vencedora logo após a divulgação dos resultados.

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Alguns candidatos enfrentaram acusações de terem vínculos com o grupo, mas Qassem disse que o Hamas não está participando das eleições “em nenhum nível”.

A eleição também parece representar uma tentativa da Autoridade Nacional Palestina de se afirmar em Gaza, que há muito considera parte indivisível de um futuro Estado palestino. Desde o ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 contra Israel, o governo israelense tem buscado impedir que a ANP desempenhe qualquer papel em Gaza.

Com grande parte do território em ruínas desde a guerra, e sem sinais de reconstrução iminente, muitos moradores de Deir al-Balah disseram esperar que seus votos levem a melhorias nos serviços locais.

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Dezenas de candidatos se reuniram em quatro listas eleitorais distintas. Eles lançaram campanhas na cidade, espalhando cartazes e se reunindo com eleitores para apresentar suas propostas, focadas principalmente em melhorar o acesso a serviços como água e energia. As listas são oficialmente independentes, mas muitos dos que concorrem por uma delas, chamada Deir al-Balah Renaissance, têm ligação com o Fatah, partido governante da ANP.

'Vida apesar de toda a morte'

Analistas palestinos questionam se as eleições podem trazer mudanças significativas, já que Israel restringe fortemente a entrada de bens necessários para a reparação da infraestrutura em Gaza.

— Para os palestinos, essas eleições são uma afirmação da vida apesar de toda a morte que testemunharam durante a guerra — disse Akram Atallah, colunista palestino originário de Gaza que vive em Londres, e defendeu: — O próximo conselho municipal não conseguirá apresentar resultados substanciais enquanto não tiver os recursos necessários.

Autoridades israelenses afirmam que as restrições à entrada de certos produtos são necessárias para impedir que o Hamas obtenha materiais para a produção de armas.

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Até a tarde da última quinta-feira, a Autoridade Nacional Palestina ainda aguardava permissão de Israel para enviar urnas e outros materiais eleitorais para Gaza, segundo Fareed Taamallah, porta-voz da Comissão Eleitoral Central. Ele disse que havia preocupação de que os materiais não chegassem a tempo, mas sugeriu que a comissão tinha outras alternativas, sem dar mais detalhes.

A agência israelense responsável pela coordenação com palestinos, conhecida como COGAT, se recusou a comentar. O gabinete do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, não respondeu aos pedidos de comentário.

Taamallah afirmou que as eleições em Deir al-Balah são um “projeto-piloto” e, se tiverem sucesso, outros pleitos poderão ocorrer em diferentes municípios do território. Os locais de votação na cidade, acrescentou, serão operados por 700 trabalhadores e protegidos por uma empresa de segurança e logística. Não estava claro até que ponto o Hamas estará presente nas ruas durante a eleição.

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Em um evento na última terça-feira, Sharif al-Buheisi, gerente de campanha da Renaissance, falou com membros de uma família local influente sobre planos para ajudar jovens a desenvolver habilidades e aumentar suas oportunidades de emprego.

— Estamos aqui para representá-los e lutar pelos seus serviços — disse al-Buheisi a um grupo de cerca de 25 pessoas, sentadas em cadeiras de plástico, — a prefeitura tem recursos que podem fazer uma diferença real.

Raed Abu Asad, de 49 anos, agricultor e candidato por outra lista, chamada Deir al-Balah Future, disse que as principais prioridades são “saneamento e controle de preços nos mercados”.

— A vantagem desses temas é que não precisamos de muitas ferramentas ou maquinário pesado.

O New York Times ouviu 26 moradores de Deir al-Balah sobre as eleições, e 16 disseram que pretendem votar.

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Osama al-Louh, de 49 anos, engenheiro civil, afirmou que quer que seu voto contribua para maior transparência e igualdade na distribuição de água pela cidade.

— Algumas áreas recebem água todos os dias, enquanto outras recebem uma vez por semana — disse. — Isso não é profissionalismo, é favorecimento.

Outros moradores disseram que vão boicotar a votação, desanimados com a dimensão dos problemas enfrentados pela cidade.

— Esta cidade precisa de cerca de 1 bilhão de dólares para funcionar adequadamente — disse Nader Obaid, de 50 anos, engenheiro arquiteto. — Não existem soluções mágicas.