Gaza registra 17 mil infecções ligadas a ratos em meio a infestação em acampamentos
Entre montes de lixo, entulho e tendas improvisadas, a rotina de milhares de palestinos deslocados em Gaza passou a incluir mais uma ameaça além da guerra. Em meio a condições precárias e à destruição da infraestrutura básica, ratos e parasitas se espalham pelos acampamentos, atacando crianças durante o sono, destruindo pertences e contribuindo para o avanço de doenças, segundo reportagem da Reuters.
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A infestação ocorre em um cenário em que a maior parte dos mais de 2 milhões de habitantes do território foi forçada a deixar suas casas. Muitas dessas pessoas vivem hoje em estruturas improvisadas montadas em terrenos baldios, à beira de estradas ou sobre os restos de edifícios destruídos por bombardeios.
Em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, imagens registradas nesta segunda-feira mostram moradores caminhando ao lado de acúmulos de lixo próximos às tendas, em um ambiente que favorece a proliferação de roedores, conforme documentado pela Reuters.
Dentro desses abrigos frágeis, os impactos são diretos e cotidianos. A poucos dias do casamento, Amani Abu Selmi, de 20 anos, descobriu que ratos haviam destruído parte de seu enxoval. As roupas e bolsas guardadas na tenda onde vive com a família foram roídas. O vestido tradicional bordado em tom bordô, usado em casamentos palestinos, também foi danificado.
— Toda a minha felicidade se foi, transformou-se em tristeza, que se transformou em desgosto - minhas coisas se foram, meu enxoval de casamento se foi — lamentou Amani Abu Selmi à Reuters.
Palestinos caminham ao lado de montes de lixo e entulho perto de tendas para deslocados internos, em meio à proliferação de roedores, em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza
Bashar Taleb / AFP
Os ataques acontecem principalmente durante a noite. Khalil Al-Mashharawi, de 26 anos, contou à Reuters que seu filho de três anos teve mãos e pés mordidos por um rato enquanto dormia. Dias depois, ele próprio também foi atacado. A família vive nas ruínas da antiga casa no bairro de Tuffah, no norte de Gaza. Para tentar se proteger, ele e a esposa passaram a dormir em turnos.
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— Eles atacam enquanto dormimos. Eles podem desaparecer por um ou dois dias antes de atacarem novamente, abrindo caminho sob as telhas do piso da casa — relatou Khalil Al-Mashharawi à Reuters.
A contenção do problema é limitada. Segundo moradores, armadilhas são escassas e pouco eficazes diante das condições dos abrigos destruídos e dos acampamentos improvisados. A situação tende a se agravar com a chegada do verão, de acordo com Mohamed Abu Selmia, diretor do hospital Al-Shifa, o maior da Faixa de Gaza.
Ele afirmou à Reuters que a escassez de materiais para controle de pragas, como veneno para ratos, contribui para o avanço da infestação. Israel restringe a entrada de diversos itens no território alegando risco de uso militar.
O COGAT, órgão militar israelense responsável pela coordenação de atividades nos territórios palestinos, informou à Reuters que facilitou a entrada de cerca de 90 toneladas de materiais para controle de pragas e mais de 1.000 ratoeiras nas últimas semanas, como parte de um esforço conjunto com parceiros internacionais para enfrentar o problema sanitário.
Apesar disso, os efeitos já são visíveis no sistema de saúde. — Todos os dias, os hospitais registram casos de pacientes internados devido a incidentes relacionados a roedores, principalmente entre crianças, idosos e doentes — afirmou Mohamed Abu Selmia à Reuters. Ele também alertou para o risco de doenças como febre da mordida de rato, leptospirose e até peste.
Dentro desses abrigos frágeis, os impactos são diretos e cotidianos
AFP
A crise sanitária está diretamente ligada ao colapso da infraestrutura em Gaza. Sistemas de esgoto e saneamento foram amplamente destruídos durante a guerra, enquanto a coleta de lixo praticamente deixou de funcionar. Com isso, resíduos e água contaminada se acumulam próximos às áreas onde famílias vivem, cozinham e se lavam. Segundo grupos humanitários, esse cenário criou condições ideais para a proliferação de roedores e parasitas.
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Dados da Organização Mundial da Saúde indicam a dimensão do problema. Reinhilde Van de Weerdt, representante da entidade no território, afirmou à Reuters que cerca de 17.000 casos de infecções relacionadas a roedores e ectoparasitas foram registrados em Gaza apenas neste ano.
— Esta é apenas a consequência infeliz, mas previsível, de pessoas que vivem em um ambiente habitacional precário — avaliou Reinhilde Van de Weerdt à Reuters.
A situação se desenvolve em paralelo à continuidade do conflito. Mesmo após um cessar-fogo anunciado em outubro entre Israel e o Hamas, os ataques persistem. Segundo a Reuters, mais de 800 palestinos foram mortos desde então, enquanto quatro soldados israelenses também morreram no período. Israel afirma que suas ações são motivadas por ameaças do Hamas e mantém restrições à entrada de ajuda humanitária por razões de segurança.
