Garotinho contesta rejeição de 68%, diz ser 'honesto' e ataca Paes e antigos aliados

Garotinho contesta rejeição de 68%, diz ser 'honesto' e ataca Paes e antigos aliados - Foto
Fonte da notícia: Valor Valor

Pressionado pela rejeição de 68% no Estado, conforme o último levantamento da Quaest, e pelo desgaste de ter contra si episódios de prisão e imbróglios judiciais que ainda ameaçam o registro de sua candidatura, o candidato do Republicanos ao governo do Rio, Anthony Garotinho, adotou o ataque como defesa durante sabatina nesta quinta-feira. Na entrevista aos jornais Valor, O Globo, Extra e a Rádio CBN, o ex-governador tentou desvincular sua imagem dos problemas na Justiça e garantiu ser um político "honesto". Atribuiu o alto índice de rejeição nas pesquisas a uma suposta armação de adversários, à imprensa e à metodologia empregada nos levantamentos. A rejeição apontada na sondagem, a maior entre os postulantes ao governo do Rio, estaria equivocada, segundo Garotinho. Ele afirmou que a pesquisa utiliza o conceito de “rejeição múltipla” e sustentou que o dado correto seria o de "rejeição única". O ex-governador buscou resgatar o passado ao enfatizar, com dados do Datafolha da época, que deixou o Palácio Guanabara com 80% de aprovação.

Ao reagir aos índices e tentar se diferenciar de outros nomes da política fluminense, disparou acusações diretas contra antigos aliados e atuais rivais na disputa estadual. “Eu sou honesto. [Sérgio] Cabral é ladrão. [Luiz Fernando] Pezão roubou. Eduardo Paes é um gatuno profissional. De todos eles, é o mais esperto", acusou Garotinho, sem apresentar provas e fazendo referência direta ao ex-prefeito e adversário do PSD e ao ex-governadores do Estado.

Cabral foi preso no âmbito da Operação Lava Jato em 2016, sob acusação de comandar um esquema bilionário de propinas e corrupção. Já Pezão, que foi eleito em 2014, depois de assumir o Palácio Guanabara após a renúncia de Cabral no mesmo ano, acabou preso em 2018, acusado de integrar o mesmo esquema de repasses ilícitos. Na tentativa de reescrever o histórico de alianças, Garotinho justificou que o apoio prestado a Cabral em 2006 se deu pela governabilidade, mas garantiu ter rompido quando percebeu a montagem de um "governo para roubar". Já em relação ao ex-governador Cláudio Castro, apoiado por ele em 2022, justificou a aliança por falta de opção: disse que Castro "comprou partidos" para isolá-lo e que restou optar por ele para evitar a vitória de Marcelo Freixo, então no PSB. "Em relação ao Castro, fiquei em uma situação complicada. Era ele ou o Freixo. Eu tentei ser candidato contra o Cláudio Castro. Compraram os partidos, me deixaram sem poder participar." Prisões O candidato do Republicanos afirmou que a mídia o associa erroneamente a prisões por corrupção ocorridas durante os governos de seus adversários, ignorando que sua detenção não teve relação com sua gestão enquanto governador do Estado. Garotinho argumentou que suas prisões ocorreram enquanto era secretário municipal em Campos dos Goytacazes — município localizado na região norte fluminense e principal reduto político de sua família —, e que foram uma tentativa de forçá-lo a recuar de suas denúncias contra a "quadrilha" que administrava o Estado, liderada por Cabral. "Minha prisão não teve nada a ver com o governo do Estado. Fiz denúncias à Procuradoria-Geral da República sobre a quadrilha liderada pelo (então governador) Sérgio Cabral. Você há de convir que, batendo de frente com o grupo que eu bati, eu ia ter desgaste. Deveriam explicar por que eu fui preso", disse. A validade da candidatura de Garotinho para as eleições deste ano ainda é motivo de disputa judicial. O ex-governador foi condenado em 2018 por desvios na área da Saúde na época em que era secretário de governo na gestão de sua esposa, Rosinha Garotinho. Os efeitos da condenação, que podem deferir ou não sua candidatura, ainda estão sob julgamento nas instâncias eleitorais.

Ao comentar o caso, Garotinho explicou que, quando exercia o cargo de secretário na gestão da esposa, assinou um ofício contrário à terceirização de um órgão do Estado. Ele sugeriu que a promotora responsável pelo caso teria conflito de interesses, alegando que o filho dela trabalhava no gabinete de Eduardo Paes, e insinuou ser vítima de perseguição política. "Meu governo incomodou interesses de uma máfia que governa o Rio há muito tempo e que eu enfrentei", apontou. Além deste caso, Garotinho foi preso em uma investigação por compra de votos e por supostas irregularidades na construção de casas populares durante a gestão de Rosinha em Campos dos Goytacazes. Trocas de partido Na entrevista, Garotinho negou que a troca frequente de partidos ao longo de sua trajetória seja por conveniência eleitoral e declarou que é "trabalhista desde sempre". Ele afirmou que ainda estaria no PDT se a legenda mantivesse o perfil ideológico da época em que era filiado, quando o partido era liderado por Leonel Brizola. O ex-governador acrescentou que o herdeiro natural do trabalhismo seria o PTB, mas ponderou que, após a legenda passar para o controle do ex-deputado federal Roberto Jefferson, o diálogo ficou inviável: "Não dá". “Não é inconstância. Se vivêssemos em um país onde vale o que está escrito, meu partido seria o PDT. Sou firme em minhas posições, nunca deixei de ser trabalhista”, afirmou. Ele ressaltou ainda que sua filiação ao atual partido, o Republicanos, ocorreu a convite de sua filha, a ex-deputada federal Clarissa Garotinho. Na última pesquisa Quaest, divulgada na terça-feira, Garotinho aparece em terceiro lugar, com 8% das intenções de voto. Paes lidera a disputa, com 39% das preferências, conforme o levantamento. O segundo colocado é o candidato do PL, o deputado estadual Douglas Ruas, com 18%. Cyro Garcia (PSTU) e William Siri (Psol) registraram 2% e 1%, respectivamente. Os indecisos somam 16%, enquanto brancos, nulos e pessoas que não pretendem votar totalizam 14%. Segurança pública Ao abordar seus planos para a área de segurança pública, o ex-governador resgatou marcas registradas de sua gestão no Palácio Guanabara (1999-2002), como a implantação do programa Delegacias Legais, a fundação do Instituto de Segurança Pública (ISP) — voltado à compilação e análise de estatísticas criminais — e a construção da sede do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) no bairro do Catete. Garotinho também direcionou críticas aos modelos adotados por gestões posteriores, em especial ao programa das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), implementado na gestão de Sérgio Cabral a partir de 2008. Para o candidato, o projeto não passou de "marketing eleitoral". As ocupações em favelas, afirmou, eram anunciadas previamente, permitindo que as lideranças do tráfico fugissem antes da chegada das forças de segurança. Se eleito, Garotinho prometeu focar a atuação das forças de segurança em ações de inteligência contra as maiores bases operacionais do crime organizado no Estado. O plano prevê estrangular cerca de 20 comunidades estratégicas que, segundo ele, funcionam como "casas de diretoria" — locais utilizados para o recrutamento, treinamento e abrigo de criminosos vindos de outros estados. "Se você desarticula essas 20 comunidades, você gera um impacto imediato em 80% do restante do território, porque é ali que estão concentrados os comandos. O Comando Vermelho deixou de atuar como uma simples facção; ele virou uma franquia", afirmou. Em sua opinião, a raiz dos problemas de segurança pública seriam a corrupção que assola o Estado e que teria atingido "níveis nunca vistos". Ele apontou para as instâncias de poder como principal fonte dessa corrupção. "Hoje você tem três escritórios do crime no Rio de Janeiro. Um é o sistema penitenciário. O segundo é a Assembleia Legislativa e o terceiro é o Palácio Guanabara", disse. Desenvolvimento urbano e infraestrutura No âmbito da mobilidade e do desenvolvimento urbano, o ex-governador propôs substituir o antigo projeto da Linha 3 do Metrô — que historicamente previa a ligação entre a Praça XV, na capital, e os municípios de Niterói e São Gonçalo — por um novo modelo integrado. A alternativa envolve a implantação de um "metrô de superfície" combinado a "superbarcas" para atender às cidades do entorno da Baía de Guanabara. Inspirando-se no sistema de transporte marítimo de Sydney, na Austrália, Garotinho sugeriu a criação de cerca de 70 trajetos aquaviários ligando os municípios litorâneos e a construção de um túnel subaquático sob a Baía. Em relação ao saneamento, o candidato do Republicanos prometeu reverter o processo de privatização dos serviços de distribuição de água e esgoto no Rio de Janeiro. Afirmou que pretende anular o leilão de concessão que fatiou as operações da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) e transferiu a gestão para concessionárias privadas. Segundo ele, após a invalidação do certame, o controle do saneamento retornaria ao governo do Estado, podendo ser submetido a uma nova licitação em diferentes moldes ou mantido diretamente sob gestão estatal.

Questionado sobre os bilhões repassados às prefeituras fluminenses a partir da venda da estatal, o ex-governador ex-governador sustentou que os municípios deveriam ressarcir o Estado, minimizando o impacto financeiro do eventual reembolso. A série de entrevistas foi aberta na terça-feira, com Ruas. Já Siri foi sabatinado na quarta-feira. Paes fecha a programação, na sexta. Cada entrevista tem uma hora e meia de duração. As sabatinas são realizadas no estúdio da redação do O Globo e conduzidas pelos apresentadores da CBN Rio Bianca Santos e Leandro Resende, pelo editor de Política dos jornais O Globo e Extra, Thiago Prado, pelo colunista Bernardo Mello Franco e por Francisco Góes, chefe da sucursal do Valor no Rio.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site Valor