Gargalos da logística reversa, regulação e falta de incentivos freiam potencial para mineração urbana - QTU Questões do Universo

Gargalos da logística reversa, regulação e falta de incentivos freiam potencial para mineração urbana

Fonte: Bandeira da fonte

O Brasil tem tudo para ser uma potência no mercado da mineração urbana (extração de metais e minerais de lixo eletrônico, como celulares e computadores): diversidade de fontes de energia renovável, aumento progressivo no consumo de equipamentos eletrônicos e avanço da indústria da reciclagem.
Esse mercado gigantesco e multibilionário, no entanto, permanece praticamente inexplorado no país, que gera 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano (quinto maior produtor global), mas recicla apenas 3% desse total, segundo dados do Monitor Global de Lixo Eletrônico da Organização das Nações Unidas (ONU).

“O Brasil detém um enorme potencial para a indústria da reciclagem, mas os gargalos se concentram na coleta de materiais secundários, mecanismos de rastreabilidade e na redução do custo (econômico e ambiental) de transporte”, avalia a pesquisadora Lucia Helena Xavier, do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), unidade do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Devido à forte dependência externa, os países do G7 decidiram combinar esforços e impulsionar a reciclagem para garantir o acesso a minerais essenciais para a transição energética e tecnológica de baixo carbono, reduzindo a dependência de fornecedores únicos, como a China.
No Brasil, a falta de coleta seletiva, uma logística reversa frágil e o alto custo da reciclagem ainda são entraves para o desenvolvimento desse mercado.

A estimativa é que das cinco mil empresas fabricantes ou importadoras do mercado eletroeletrônico, somente 180 (ou 3,6%) financiam a logística reversa, segundo estudo da Green Eletron, gestora de logística reversa.
“O Brasil ainda está em estágio inicial na mineração urbana em comparação a países da Europa e Ásia, mas já existe uma cadeia de reciclagem funcional para eletroeletrônicos, pilhas e baterias.
Atualmente, boa parte dos minerais críticos usados pela indústria nacional ainda vem de importação e de extração primária, não de fontes recicladas, e isso mostra o tamanho da oportunidade ainda não explorada”, diz Ademir Brescansin, gerente-executivo da Green Eletron.
O setor vive a expectativa da aprovação do Projeto de Lei nº 2.780/2024, que passou na Câmara dos Deputados e aguarda votação no Senado, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE).
O texto prevê a criação de um programa com incentivos federais da ordem de R$ 5 bilhões ao longo de cinco anos.
Para a pesquisadora do Cetem, a regulamentação é importante caminho para estimular as práticas de economia circular, como a mineração urbana.
“Pode colocar o Brasil em posição de protagonismo mundial no setor em curtíssimo tempo”, observa.
Mapeamento do Centro de Tecnologia Mineral aponta que o Brasil já possui tecnologia em nível laboratorial e de testes (planta-piloto) para processar minerais estratégicos, como alumínio, cobre, ferro, lítio, cobalto, nióbio, tântalo e terras raras.
Contudo, para que essas tecnologias sejam transferidas para a indústria, é preciso superar três desafios: fortalecer a logística reversa, garantir incentivos econômicos e consolidar a regulação do setor.

"Temos que criar mecanismos de coleta e depois incentivar a instalação de empresas que façam reprocessamento.
Atualmente, temos pouca gente trabalhando com isso no Brasil”, destaca Julio Nery, diretor de assuntos minerários do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram)
Glenio Campregher/Divulgação
Os processos de recuperação de metais críticos exigem tecnologia especializada e escala para se tornarem economicamente viáveis, o que limita o número de recicladores especializados no país.
Sem uma cadeia de suprimentos circular eficiente, a maior parte do minério urbano acaba perdida em aterros comuns ou no mercado informal.
“Muita gente tem um celular velho guardado na gaveta, que não vai para uma reciclagem de produto eletrônico.
Temos que criar mecanismos de coleta e depois incentivar a instalação de empresas que façam esse reprocessamento.
Atualmente temos pouca gente trabalhando com isso no Brasil”, destaca Julio Nery, diretor de assuntos minerários do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).

Enquanto tenta destravar as questões de coleta e regulação, o consumo de eletrônicos e a necessidade de minerais críticos aumentam a cada ano.
O mercado brasileiro de eletrônicos de consumo deve crescer 6,18% ao ano entre 2026 e 2034, alcançando US$ 47,9 bilhões, segundo o Imarc Group.
A demanda nacional projetada por cobre, importante para as tecnologias de transição energética e descarbonização, deve saltar de 8,2 mil toneladas para 255,6 mil toneladas em 2045, segundo o Ibram.

A expectativa é que o alto valor de mercado dos minerais críticos aumente as chances de eles serem realmente reciclados.
É o que ocorre com as latas de alumínio, em que o Brasil é campeão mundial de reaproveitamento e existe uma cadeia econômica robusta em torno do material reciclado.
“O alumínio não apresenta alto valor de mercado, mas o custo ambiental e energético do processamento da bauxita torna a reciclagem mais atraente.
Fatores como risco de suprimento, custo de processamento da matéria-prima mineral e emissões dos processos produtivos tendem a motivar a recuperação de minerais críticos e estratégicos a partir de fontes secundárias”, diz Xavier, do Cetem.
Urban Mining - Precious scraps
Brazil has all the ingredients to become an urban mining powerhouse: renewable energy, growing electronics consumption, and a growing recycling industry.
Yet this multibillion-dollar market remains largely untapped in the country, which generates 2.4 million tonnes of electronic waste a year but recycles only 3%.
“The main bottlenecks are collection of secondary materials, traceability mechanisms and cutting transportation costs,” says Lucia Helena Xavier, a researcher at the Mineral Technology Center (CETEM).
Because of their heavy dependence on external suppliers, G7 countries have stepped up recycling to secure minerals essential for the energy transition.
In Brazil, however, the lack of selective waste collection, weak reverse logistics and the high cost of recycling remain major obstacles.
According to Green Eletron, only 3.6% of the roughly 5,000 companies in the consumer electronics sector finance reverse logistics.
“A large share of these minerals still comes from imports and primary extraction, which shows just how much potential this market has,” says the organization’s executive manager, Ademir Brescansin.
The sector awaits approval of Bill No.
2,780/2024, which provides R$5 billion in incentives.
But beyond financial incentives and stronger logistics, CETEM points to the need for a more robust regulatory framework.
“We need to create collection mechanisms and encourage the launch of companies capable of carrying out this reprocessing,” says Julio Nery, director of mining affairs at the Brazilian Mining Institute (Ibram).