Galípolo diz que 'gordura' na Selic permitiu iniciar ciclo de queda e reforça preocupação com rotativo

 

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O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, reforçou nesta segunda-feira que a "gordura" acumulada na taxa Selic por posições conservadoras do Banco Central permitiu que o Comitê de Política Monetária (Copom) iniciasse o ciclo de corte de juros neste mês mesmo com a volatilidade causada pela guerra no Oriente Médio. Galípolo também reiterou que é preocupante que parte da população use o rotativo do cartão como parcela da renda disponível e afirmou que é necessário uma solução estrutural para o problema.

Em relação à taxa Selic, Galípolo explicitou que o BC desde o fim do ano passado tem sido bastante cauteloso com a condução dos juros, com posições mais conservadoras, inclusive, que o mercado. Na reunião deste mês, por exemplo, parte relevante dos economistas de instituições financeiras esperavam uma queda de 0,50 ponto percentual, mas o BC optou por uma redução mais modesta, de 0,25pp, de 15% para 14,75% ao ano.

Diante desse conservadorismo, o presidente do BC explicou que o Copom considerou que podia continuar na trajetória traçada de iniciar o corte de juros na última reunião mesmo com a escalada dos preços do petróleo em meio ao conflito no Oriente Médio.

— Essa gordura que foi acumulada em uma posição mais conservadora ao longo das últimas reuniões do Copom permitiu, mesmo diante de novos fatos, que esses novos fatos não alteraram a conjuntura como um todo, à luz do que vem acontecendo com a transmissão da política monetária e das incertezas que tem com choque de oferta do petróleo, para que a gente alterasse a nossa trajetória — disse Galípolo no J.Safra. — E então a gente decidiu seguir com a nossa trajetória e iniciar o ciclo de calibragem da política monetária.

O presidente do BC acrescentou que a "gordura" possibilitou que o Copom ganhasse tempo para avaliar a extensão e a magnitude do choque provocado pela guerra na inflação doméstica.

— A gente é mais transatlântico do que jet ski. A gente não vai fazer movimentos bruscos nem extremados — afirmou. — Eu não usei propositalmente a palavra esperar, porque a gente queria ter mais coerência com a decisão, que a decisão foi ganhar tempo. Significa: dá para gente continuar na trajetória que a gente entendia de iniciar o ciclo de calibragem da política monetária.

Em relação à discussão sobre o aumento do endividamento, Galípolo repetiu que o Brasil tem uma particularidade que é o uso do rotativo do cartão de crédito por uma parte da população como se fosse uma parcela da renda disponível.

— Quando a gente olha que tem 40 milhões de pessoas físicas que tomam juros a 15%, não ao ano, mas ao mês, e que a população considera o rotativo como sendo uma fatia da renda disponível, eu acho também bastante problemático. E o que demanda a gente conseguir pensar em estruturas que consigam endereçar isso.

Para efeitos de endividamento, o uso do rotativo se soma ao crescimento da bancarização e à expansão na busca por crédito em meio à pandemia de covid-19, quando os juros caíram e a renda também, mas o custo de vida subiu, fenômeno que foi mundial.

— O que sugere que a pessoa vá se endividar para complementar a renda. No Brasil, isso acontece somado a um evento de bancarização e de uma relação com crédito rotativo que acentua isso. Se a gente olhar para o endividamento das famílias, o grande degrau está ali (na pandemia). Depois volta um pouquinho.