Gabinete do relator como base e ofensiva até sobre votos contrários: o périplo de Messias no Senado
A treze dias de sua sabatina na CCJ, o advogado-geral da União, Jorge Messias, intensificou nesta quarta-feira o corpo a corpo no Senado com uma estratégia que combina base fixa no gabinete do relator de sua indicação e investidas diretas até sobre senadores que já declararam voto contrário. O movimento ficou evidente na reunião com o líder do PL na Casa, Carlos Portinho (RJ), realizada mesmo após o partido fechar questão contra seu nome para o Supremo Tribunal Federal (STF).
O encontro, o primeiro entre os dois desde a indicação feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em novembro do ano passado, foi tratado como institucional pelo senador, que reafirmou sua posição contrária.
— Recebo todos, mesmo aqueles para quem disse não. É da liturgia do cargo — afirmou Portinho.
Reservadamente, porém, a conversa foi usada por Messias para apresentar o que aliados descrevem como o “pacote” da sua candidatura: um perfil técnico, compromisso com previsibilidade nas decisões e sinalizações de respeito às prerrogativas do Congresso, pontos sensíveis sobretudo para a oposição, que tem criticado o que vê como avanço do Supremo sobre o Legislativo.
Segundo relatos, o advogado-geral tem evitado entrar em temas específicos ou antecipar posicionamentos sobre pautas controversas, mas reforça a ideia de que, no tribunal, atuaria com discrição, segurança jurídica e menor protagonismo político. A linha adotada busca reduzir resistências sem gerar novos desgastes antes da sabatina.
A agenda com o principal líder da oposição sintetiza a estratégia adotada por Messias na reta final antes da sabatina, marcada para o dia 28: avançar simultaneamente sobre indecisos e sobre votos já dados como perdidos.
Para dar escala e organização à ofensiva, o ministro transformou o gabinete do relator, senador Weverton Rocha (PDT-MA), em sua base na Caa. Foi dali que concentrou parte das reuniões ao longo do dia, recebendo parlamentares em um ambiente mais controlado e com menor exposição à imprensa.
Pela manhã, esteve com senadores como Leila Barros (PDT-DF), Jaques Wagner (PT-BA) e Vanderlan Cardoso (PSD-GO). À tarde, ampliou o giro e foi aos gabinetes de integrantes da oposição, incluindo Portinho e o senador Romário (PSB-RJ), mantendo a linha de dialogar com parlamentares alinhados à orientação contrária do partido. Romário acaba de voltar de uma licença de três meses do mandato e é um dos senadores que ainda não declarou sua posição.
Ao todo, Messias se reuniu com ao menos seis senadores no dia, em uma agenda concentrada que reflete a intensificação do périplo nos corredores da Casa.
Nos bastidores, aliados afirmam que a investida sobre votos contrários não tem como objetivo imediato reverter posições públicas, mas identificar margens de flexibilização. A avaliação é que o sigilo do voto abre espaço para dissidências, inclusive entre parlamentares que hoje se colocam contra a indicação.
Interlocutores relatam que há senadores que evitam declarar apoio, mas sinalizam disposição para votar a favor na urna.
A estratégia de aproximação vem sendo construída há semanas e inclui também gestos fora da agenda institucional.
Nos últimos meses, Messias enviou mensagens a senadores em datas como o Natal e a Páscoa, iniciativa vista como tentativa de criar canais pessoais de interlocução e que foi bem recebida por parte dos parlamentares.
A articulação também mobiliza interlocutores com trânsito na oposição. O ministro do STF André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro e com boa interlocução entre senadores bolsonaristas, tem atuado como uma espécie de fiador informal do nome de Messias nesse campo.
Em conversas reservadas, a avaliação é que o aval de Mendonça ajuda a reduzir desconfianças ideológicas e a abrir portas que estariam fechadas ao indicado do governo Lula. Os dois têm em comum a fé: Messias é evangélico, da Igreja Batista, o que tem credenciado o AGU como um homem religioso e a favor da família.
Em público, o ministro chegou a sinalizar apoio ao colega:
— Faço votos de que em breve você possa estar comigo no Supremo — disse, em evento recente.
Apesar disso, aliados reconhecem que o apoio não é suficiente para reverter a orientação formal de partidos como o PL, mas pode influenciar decisões individuais no voto secreto.
Alcolumbre em gangorra
O avanço em múltiplas frentes, no entanto, gerou ruído político. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), se incomodou com a participação de Messias em um jantar na semana passada organizado pelo senador Lucas Barreto (PSD-AP), seu adversário no Amapá.
Apesar disso, aliados avaliam que ele deve recebê-lo antes da sabatina, em um gesto institucional. Pesa a favor de Messias a tração que ganhou nos últimos dias. Líderes estimam que ele tem 48 votos, apesar da maior parte dos parlamentares não declararem publicamente.
A intensificação do corpo a corpo ocorre após a leitura do relatório na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que marcou o início formal da tramitação da indicação. Com a sabatina antecipada para o dia 28, Messias concentra esforços nos próximos dias para consolidar votos em um cenário ainda aberto.
Sem antecipar posicionamentos sobre temas sensíveis, o advogado-geral tem adotado um discurso cauteloso. Ao deixar o encontro com Portinho, afirmou que o processo segue “em andamento” e que busca apresentar seu perfil aos senadores.
— A gente coloca nossa disposição, com verdade, com boa fé e com o coração, e as pessoas vão conhecendo o nosso currículo, o nosso pensamento — disse.
