Gabinete de Segurança do México afirma que agentes da CIA mortos após operação não tinham autorização para atuar no país
O Gabinete de Segurança do México anunciou neste sábado que os dois agentes da CIA mortos após uma operação de combate a grupos ligados ao tráfico de drogas em Chihuahua, no norte do país, não tinham autorização para atuar em território mexicano. O anúncio ocorre dias após a presidente Claudia Sheinbaum ordenar a abertura de uma investigação sobre o caso e classificar a presença de agentes estrangeiros no país como uma clara violação dos protocolos de segurança nacional.
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Em um comunicado à imprensa, as autoridades federais detalharam que um dos americanos entrou no país como visitante, o que não permitia envolvimento com atividades remuneradas. O outro agente apresentou um passaporte diplomático ao passar pela fronteira. O comunicado acrescentou ainda que as instituições que compõem o Gabinete de Segurança e o Ministério das Relações Exteriores não tinham conhecimento sobre a presença de agentes estrangeiros operando ou planejando participar de qualquer atividade operacional em território mexicano e, portanto, estão revisando o caso com as autoridades locais e a Embaixada dos EUA no México.
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Quatro pessoas morreram em um acidente de carro no fim de semana passado, após uma operação para destruir laboratórios clandestinos de produção de drogas. Além dos dois homens identificados como agentes da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA, na sigla em inglês), havia dois policiais mexicanos no veículo, que, segundo testemunhas, saiu da pista, caiu em um barranco e explodiu.
O caso provocou reação em diferentes instâncias do governo mexicano por apresentar conflito direto com a Lei de Segurança Nacional federal, reformada em 2020 pelo antecessor e mentor de Sheinbaum, Andrés Manuel López Obrador, que restringiu a atuação de agentes estrangeiros no país. O Congresso também aprovou, em 2025, uma mudança legal impulsionada pela líder mexicana para endurecer as penas contra atividades de espionagem estrangeira, em meio à pressão do presidente Donald Trump para ampliar os esforços no combate aos cartéis de drogas.
Versões divergentes foram apresentadas por autoridades após a identificação das vítimas do acidente como cidadãos americanos e agentes de inteligência. Inicialmente, o embaixador dos EUA no México, Ronald Johnson, afirmou que os americanos eram "funcionários da embaixada" que estavam "apoiando os esforços das autoridades do estado de Chihuahua para combater as operações dos cartéis". O Departamento de Estado americano e a CIA se recusaram a comentar, enquanto a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, pediu "um pouco de compaixão" por parte de Sheinbaum após a perda dessas duas vidas americanas, sem confirmar a identidade dos supostos agentes, mas referindo-se a esforços dos EUA para "conter o narcotráfico no México".
Blindado do Exército dos EUA na fronteira em Juárez, estado de Chihuahua, México, na sexta-feira, 18 de julho de 2025
Mauricio Palos/Bloomberg
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O Gabinete de Segurança mexicano expressou em seu comunicado mais recente "profundo pesar" pelas mortes dos quatro indivíduos, manifestando condolências e solidariedade às famílias. Porém, reafirmou que a legislação do país proíbe a participação de agentes estrangeiros em operações em território nacional, com a cooperação em segurança se dando por meio do compartilhamento de informações, da coordenação institucional e da colaboração técnica.
Ontem, a governadora de Chihuahua, María Eugenia Campos Galván, anunciou a criação de uma unidade especializada para investigar o desmantelamento do laboratório de drogas e a morte dos agentes da CIA. Sheinbaum anunciou na quarta-feira a ida da secretária de Governo, Rosa Icela Rodríguez, para dialogar com Maru, a fim de esclarecer se alguma autorização teria partido de autorides estaduais.
Trump tem adotado uma postura agressiva em relação à América Latina. Entre as ações, a captura do presidente da Venezuela, o bloqueio de remessas de petróleo a Cuba e o lançamento de operações militares conjuntas no Equador, país também marcado pela violência provocada pelo crime organizado. Sobre o vizinho mexicano, o líder republicano tem reiteradamente se oferecido para agir contra cartéis, uma intervenção que Sheinbaum classifica como "desnecessária". O tema é sensível para ela, que busca manter equilíbrio com o governo Trump — preservando a relação bilateral para evitar ameaças de intervenção contra cartéis e possíveis tarifas comerciais, ao mesmo tempo em que enfatiza a soberania mexicana.
— Não aceitamos participação em campo, em operações. Isso está muito claro — disse Sheinbaum na quarta-feira, reforçando que a cooperação com os EUA tem se limitado ao intercâmbio de informações de inteligência. — Em todos os casos dissemos ao presidente Trump que isso não é necessário. A forma como estamos colaborando tem sido muito boa, e qualquer outro cenário violaria nossa Constituição e nossas leis. Somos muito rigorosos na defesa da soberania nacional. (Com El Universal, Bloomberg e AFP)
