Futevôlei, maratona e judô: pré-campanha de 2026 deixa pastel de lado e aposta em vida fitness
Esqueça, pelo menos por enquanto, aquela imagem clássica de um candidato com o sorriso amarelo, a camisa suada debaixo do sol e um pastel com caldo de cana na mão em plena feira livre. Ou ainda, tomando café no copo de vidro na casa de uma família da comunidade. O figurino mudou. Sai a camisa de botão dobrada no cotovelo, e entra a camiseta colorida de "dry-fit". O sapato social dá lugar ao tênis de alta performance para corrida.
A pré-campanha eleitoral deste ano está chamando atenção pela estratégia adotada por muitos políticos que pleiteiam uma vaga no Congresso ou no governos estaduais. De Norte a Sul do Brasil, pré-candidatos descobriram que, para ganhar o voto, primeiro é preciso ganhar o algoritmo e engajar nas redes sociais. E nada atrai mais seguidores do que o lifestyle saudável.
Pré-candidatos como o ex-prefeito do Recife João Campos e o ex-governador do Pará Helder Barbalho, inclusive, entregaram obras de espaços esportivos nos últimos dias de mandato à frente do executivo local. Barbalho não apenas entregou a ciclovia: ele pedalou nela junto da população.
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João Campos não apenas inaugurou um parque: postou que se despedia do mandato batendo o recorde pessoal de 5km na pista nova, atraindo, principalmente, o público mais jovem para as publicações.
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Outros pré-candidatos como a governadora do DF Celina Leão, que é figurinha carimbada nas areias do futevôlei da capital, também exploram os esportes como chamariz eleitoral. No aniversário de Brasília, no último dia 21, ela compareceu a uma maratona, um jogo de futevôlei e um campeonato de beach tennis.
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Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas, pré-candidato à reeleição, costuma mostrar sua rotina de atividades com aliados pelo estado. Desde o basquete com crianças, até uma partida de sinuca com apoiadores.
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Outra governadora, pré-candidata, que se aventurou nos esportes foi a governadora Raquel Lyra, em Pernambuco, que lutou judô no interior do estado. Além de mudar a antiga estratégia de ir até o povo, ouvir e entender as demandas da população, os políticos optam por participar de maneira ativa dos eventos.
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Mas será que isso é apenas uma ‘moda’ fitness ou uma estratégia milimetricamente calculada? Para entender o que está por trás dessa troca do café com pão na chapa pelo "whey protein", conversamos com quem estuda o tabuleiro político. Murilo Medeiros, cientista político da UnB, explica que essa é a evolução da humanização da liderança. O objetivo é ser gente como a gente, mas com um toque de vitalidade que as novas gerações admiram.
"É uma estratégia clássica de humanização da liderança. Os candidatos buscam transmitir a ideia de que é uma liderança de gente como a gente e que compreende a vida comum e agora tenta criar conexão com esse eleitorado mais jovem por meio de atividades mais lúdicas, saudáveis... O evento físico muitas vezes é pensado para render no ambiente online. É uma forma de criar conexão com o eleitor e fazer campanhas mais dinâmicas junto a essas novas temáticas."
Apesar de mostrar vigor, o ponto central da estratégia é a viralização. Antigamente, o político ia à feira para apertar a mão de 50 pessoas. Hoje, ele corre uma maratona para postar um "reels" que será visto por 5 milhões. Afinal, se o candidato tem energia para correr 10km às seis da manhã, ele terá energia para aguentar as burocracias do estado, certo? Para Deividi Lira, especialista em marketing político, a imagem, muitas vezes, fala mais alto que o discurso, mas o "shape" não governa sozinho.
"Do ponto de vista estratégico, essa associação é bastante eficiente, porque ela conecta o candidato a valores positivos, como disciplina, a energia, vitalidade, bem-estar, então se eu for eleito, eu vou apostar no esporte, na saúde, no bem-estar da população. Gera um conteúdo visual atrativo e compartilhável porque o público também pode se espelhar no sentido de que se o candidato pode acordar às 6 horas da manhã e ir para a academia, eu também posso.”
Ele aponta, no entanto, que a métrica das redes sociais não quer dizer garantia de voto.
“É importante a gente ressaltar que o engajamento, ele não é automaticamente conversão eleitoral. As métricas digitais, número de visualizações curtidas, compartilhamentos, eles podem ser entendidos, podem transformar isso em apoio político efetivo, mas depende de outros fatores. A estratégia, essa nova estratégia, ela pode até abrir a porta, mas o eleitor não vai eleger um candidato somente pelo lifestyle, o voto ainda depende da confiança dele."
No fim das contas, a política brasileira está trocando o colesterol do pastel pela endorfina do esporte. É uma tentativa de rejuvenescer a imagem e se adaptar a um mundo onde a economia da atenção é o bem mais precioso.
