Futebol sul-americano vive temporada de problemas endêmicos, com a anuência de quem o dirige

 

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O escritor e ensaísta Gore Vidal dizia que seu país, os Estados Unidos, é ao mesmo tempo o mais puritano e o mais pornográfico do mundo. Os eventos da primeira fase das competições sul-americanas, que culminaram com a interrupção do jogo entre Independiente Medellín e Flamengo na última quinta-feira, reforçam minha impressão de que essa frase pode ser aplicada ao futebol que se pratica por aqui (com um disclaimer importante: esse “aqui” inclui, geográfica e culturalmente, o Brasil, que agora está no papel de vítima mas longe de ser inocente).

A maior indecência de todas, o racismo, já se tornou sistêmica. Jogos contra clubes brasileiros que não envolvam gestos e gritos racistas na arquibancada passaram a ser a exceção em vez da regra. Não há elementos para dizer que se trata de um movimento organizado, mas também não é difícil encontrar um pano de fundo: desafiar o Brasil, único país sul-americano a tratar essa ofensa como crime, com as bênçãos da Conmebol, que despende muita energia para organizar campanhas e protocolos antes das partidas e nenhuma depois de receber as denúncias (gravadas e divulgadas com frequência pelos torcedores agredidos, deixando a impunidade cada vez mais visível).

A entidade máxima do continente só agiu, até agora, contra quem a criticou. Renato Gaúcho, que já tinha deixado de dirigir seu time fora de casa em outras edições da Sul-Americana sem qualquer consequência, se viu incluído num item do regulamento que pune quem difama a Conmebol ou suas competições depois de fazer uma analogia (ruim, é verdade) entre sua ausência numa partida do Vasco e a má atuação do árbitro em outra. E sua pena por não ir a um jogo foi... Não poder ir a outros três.

Ah, e teve multa também. Porque não há punição da Conmebol que não resulte numa graninha para os cofres da entidade — sem risco de calote, porque é debitada diretamente de direitos de TV e premiações. O Cerro Porteño só escapou, por ter diminuído a largura de seu campo para enfrentar o Palmeiras, porque havia uma omissão no regulamento. A partir de agora, quem quiser mudar as dimensões — em pleno século XXI, quando a medida padrão de 105 x 68m já vale para todas as outras competições internacionais — vai ter de avisar antes. Ou pagar, claro.

Só não inventaram ainda a multa para o crime de lesa-jogo, que o Boca Juniors praticou contra o Cruzeiro e o futebol no Mineirão. Lá, o pacote foi completo: além dos minutos roubados, torcedor racista preso e briga em campo — pelo motivo único de ter perdido. Praticamente o mesmo que o Santa Fé fez com o Corinthians, com a pequena diferença de usar uma alegação para a pancadaria: Hugo Souza se ajoelhou para comemorar o gol nos acréscimos que deu o empate a seu time. Afinal de contas, onde já se viu uma coisa dessas, não é mesmo?

E chegamos finalmente ao jogo que o torcedor não quis que fosse disputado. E que a Conmebol mandou começar, mesmo com todos os avisos das autoridades policiais de Bogotá. E que, depois de interrompido, teve a brilhante ideia de esvaziar o estádio para recomeçar. E que agora não sabemos se vai resultar em WO ou até em exclusão da competição. Mas que vai rolar uma multinha, isso sabemos. Porque somos puritanos, pornográficos e um pouco previsíveis também.