Futebol na rua, jogo de botão e bloco de carnaval: A vida de Zico em Quintino

 

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O documentário "Zico, O Samurai de Quintino", em cartaz nos cinemas, reconstrói a trajetória do maior ídolo da história do Flamengo, a partir do bairro no subúrbio do Rio onde o atleta deu os seus primeiros toques numa bola. Um dos grandes craques do futebol mundial em todos os tempos, Arthur Antunes Coimbra começou jogando entre os irmãos e vizinhos, todos mais velhos, no chão de terra batida da Rua Lucinda Barbosa, em Quintino, onde ele cresceu. Tinha também um campo na Rua Franco Vaz. Foi ali, "no meio dos grandes", que o pequeno Zico descobriu a sua paixão e seu enorme talento.

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O jogador era uma estrela em ascensão no Flamengo quando uma equipe do Jornal O GLOBO esteve na casa dele em Quintino para conversar com a família do craque, semanas depois da estreia do atleta na seleção brasileira, em uma partida contra o Uruguai válida pela Copa do Atlântico, em fevereiro de 1976. Os jornalistas foram recebidos pelos pais de Zico: Dona Matilde e Seu José Antunes Coimbra, além de Sandra Carvalho de Sá, então recém-casada com o camisa 10 do Flamengo. Cercada pelos troféus do filho, Dona Matilde foi quem melhor descreveu a infância do craque.

"Menino esfomeado. Mamou no meu peito até 6 anos de idade. Viu o que o leite materno faz?", disse ela. "Só largou a chupeta aos 10 anos. Trocou por um time de futebol de botões".

Dona Matilde, mãe de Zico, com radinho para ouvir jogo do Flamengo em 1976

Anibal Philot/Agência O GLOBO

A dona de casa lembrava com detalhes ("parece que foi ontem") de quando levava o caçula de seis filhos para a Escola Rocha Pombo todo dia. Na volta, ele só queria saber de jogar bola com os irmãos na rua ou botão dentro de casa. "Todo Natal ele pedia a mesma coisa em carta para o Papai Noel. Um time de botões do Flamengo. Ele tinha tanto botão do Flamengo quando era pequeno que acabava jogando sozinho um jogo impossível. Flamengo contra Flamengo. Ninguém entendia nada. Só mesmo ele. Eu assistia a tudo aqui na varanda. Entendo bem de futebol. Também, pudera..."

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Na casa de Seu José, futebol era coisa séria. Alfaiate aposentado, o português nascido em Tordelas tinha sido goleiro amador na sua juventude. Dois de seus filhos mais velhos que Zico também foram jogadores profissionais. Edu alcançou status de ídolo do América-RJ. Foi o segundo maior artilheiro da história do clube. Muita gente achava que ele era melhor que o caçula. Já Nando atuou nas categorias de base do Fluminense e, como profissional, defendeu clubes como o Madureira e o Ceará. Mas teve a carreira abreviada porque sofreu perseguição da ditadura militar, que o considerava subversivo.

Zico e Edu em 1974: Dois filhos de Dona Matilde em Quintino

José Santos/Agência O GLOBO

Na adolescência, Zico e seus irmãos formaram um time de futebol local, o Juventude, que depois virou um bloco de carnaval. Era uma farra de bons amigos que ganhou fama na vizinhança, principalmente quando o camisa 10 virou ídolo. No carnaval de 1976, o desfile começou ali mesmo na casa da família, no número 7 da Rua Lucinda Barbosa, às 16h de domingo, segunda e terça, com cerca de 250 pessoas cantando o samba do bloco, cuja letra havia sido modificada para homenagear o craque. "Vem gente de navio/ De avião e vem a pé/ Pra ver o Juventude/ E o Galinho de Quintino dar olé".

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Dona Matilde contou que o caçula teve diversos apelidos enquanto crescia. Foi chamado de Pascoal, por causa de um calombo pequeno no alto da cabeça, em homenagem ao monte na Bahia que teria sido o primeiro naco de terra avistado por Pedro Álvares Cabral em 1500. Caroço, por causa de um cravo mal extraído debaixo do olho esquerdo. Qüem-Qüem, porque era um verdadeiro "Tio Patinhas" e cobrava juros dos irmãos quando emprestava dinheiro da mesada. Já o apelido mais famoso veio de Arthurzinho, que virou Arthurzico e, então, simplesmente, e finalmente, Zico.

Zico aos 8 anos, na Escola Rocha Pombo, em 1963

Reprodução

A entrevista para o jornal acontecia enquanto a família aguardava o início de um jogo entre Flamengo e Desportiva Ferroviária, em Vitória (ES), válido pelo Campeonato Brasileiro (o rubro-negro venceria por 3 a 0, com um gol de Zico). Seu José falava pouco, mas de vez em quando interrompia a conversa pra perguntar se já estava na hora de ligar o rádio. Em determinado momento, ele leu um trecho de uma crônica do escritor Nelson Rodrigues no GLOBO dizendo que seu filho não apenas o melhor jogador do mundo. "Vezes há em que se torna uma força da natureza, e, então, ele chove, troveja, relampeja".

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Sandra conheceu o craque do Flamengo em 1969, quando ela tinha 13 anos e frequentava os treinos do time na Gávea para ver seu ídolo, o argentino Doval. Não podia imaginar que se apaixonaria pela revelação de Quintino, então com 17 anos. O namoro começou em 1970, e eles se casaram em 1975 (fizeram bodas de ouro ano passado). Na entrevista ao GLOBO, Sandra disse que o marido queria dois filhos "para já". Contou que Zico chegava ao ponto de esconder suas pílulas anticoncepcionais. "Ou então chuta todas pela janela". (O casal acabou tendo três meninos: Arthur, Bruno e Thiago).

Casamento de Zico com Sandra, em dezembro de 1975

Paulo Moreira/Agência O GLOBO

Naquela época, eles tinham acabado de se mudar para uma cobertura de dois quartos na Tijuca, mas já pensavam em procurar um apartamento maior, no Leblon. Sandra contou que, no começo, sentia ciúmes, mas que isso acabou depois do casamento ("agora ele não pode dar mais as escapulidas de antes"). Também disse que Zico amava a comida que ela preparava e que ela, por sua vez, não perdia um jogo dele e sabia quando ele ia fazer um gol. "É uma coisa esquisita, em campo, eu só vejo o Zico", disse a moça, apaixonada. "Gosto muito quando ele fica de ponta-de-lança. Fica na dele."

Os dois colecionavam chaveiros e cinzeiros. Tinham mais de mil peças. Mas, de acordo com Sandra, o marido gostava mesmo era de uma partida de buraco e de um bom som. "Ele adora Martinho da Vila, escola de samba. Adora praia. A gente ia sempre à Praia da Barra, mas agora está difícil porque, logo, ele é reconhecido e cercado. Antes, as pessoas só apontavam, mas, hoje, querem autógrafos, fazem mil perguntas sobre a seleção. Temos que inventar uma praia particular", disse a mulher do craque. "Mas de uma coisa tenho certeza. A camisa amarela não vai mudar o Zico. E nem eu".