Furto abastece desmanches e mercado ilegal, enquanto carros roubados são usados em crimes, conta pesquisador
Há uma divisão clara entre quem rouba e quem furta carros na cidade de São Paulo. É o que aponta o sociólogo Gregório Zambon, que pesquisa o mercado ilegal de peças e fez trabalhos de campo entrevistando donos de desmanches e ladrões de carro.
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Os roubos de veículos na capital paulista estão se concentrando cada vez mais em bairros das zonas Leste e Sul. Um em cada registros desse tipo em São Paulo acontecem em apenas cinco distritos policiais nos extremos da capital.
Contrariando a queda de 26% nos casos em toda a cidade, São Mateus, São Rafael e Cidade Tiradentes, na Zona Leste, e Jardim Herculano e Campo Limpo, na Zona Sul, registraram 969 ocorrências em 2025, uma alta de 13% — e sua fatia no total de crimes saltou de 14% para 22%, revelam dados do Mapa do Crime de São Paulo, ferramenta interativa de monitoramento de roubos do GLOBO.
— Carros furtados têm valor de troca e alimentam um circuito mercantil, mais profissional, dos desmanches e revenda de peças. Por isso, é raro que carros furtados sejam recuperados, eles somem. Já os carros roubados têm valor de uso e, via de regra, acabam alimentando outras modalidades criminosas, como homicídios e outros roubos. Quando um ladrão aparece num desmanche com um carro roubado, é difícil o dono aceitar, o roubo chama muita atenção — afirma o sociólogo Gregório Zambon.
Investigações da Polícia Civil, no entanto, revelam que uma pequena parcela dos carros roubados também é desmontada — sobretudo nos “fundões” das zonas Sul e Leste, onde quadrilhas especializadas se valem da proximidade com desmanches improvisados para retirar as peças. Diferentemente dos furtos, nos casos de roubos, o alerta da vítima à polícia é imediato. Por isso, o intervalo entre o crime e o desmanche precisa ser o menor possível.
— Na Zona Leste, identificamos que há uma coordenação entre quem rouba os veículos, quem leva os carros para áreas de mata e os responsáveis pelos desmanches, em barracões improvisados. É uma atuação típica de organização criminosa — conta o delegado Arnaldo Rocha, da Divisão de Investigações sobre Furtos, Roubos e Receptações de Veículos (Divecar).
O local de desmonte varia de acordo com a região: na Zona Leste, os desmanches costumam funcionar a céu aberto ou em galpões; já na Zona Sul, os criminosos costumam levar os carros para retirar peças dentro de suas próprias casas.
O delegado Daniel Borgues, da 1ª Delegacia Seccional (Centro), apontado pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) para responder os questionamentos do GLOBO, afirma que a concentração de roubos de carros nas zonas Leste e Sul é considerada no planejamento operacional.
— O combate ao roubo de veículos envolve policiamento ostensivo em áreas críticas, uso de inteligência para identificar padrões e grupos criminosos e investigações direcionadas à desarticulação de quadrilhas especializadas, incluindo aquelas voltadas ao desmanche e à revenda de peças — diz o delegado.
Ele afirma ainda que, em 2025, a polícia realizou 47 operações contra quadrilhas que praticam roubos de veículos. Procurada, a prefeitura de São Paulo afirma que a Guarda Civil Metropolitana tem reforçado o patrulhamento preventivo nas Zona Leste e Sul. A pasta também informa que possui “50 mil câmeras distribuídas em todas as regiões da cidade, com expansão contínua da cobertura nas áreas de maior incidência (criminal)”. Já o Detran informa que entre 2023 e março de 2026 fiscalizou 4110 desmanches no estado e 403 foram lacrados por irregularidades.
O que é o Mapa do Crime de São Paulo?
O Mapa do Crime de São Paulo foi produzido a partir de microdados de 330 mil boletins de ocorrência disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) do estado. Ao contrário do Rio, São Paulo torna públicas as coordenadas e os nomes das ruas das ocorrências. O levantamento cobre roubos ocorridos entre 2023 e 2025. Diferentemente do governo paulista, O GLOBO usou a data do fato — e não a do registro na polícia. Assim, um roubo ocorrido em 31 de dezembro e registrado no dia seguinte é contabilizado no ano correto. Erros de grafia e inconsistências nos dados foram corrigidos com auxílio de inteligência artificial.
Disponível no site do jornal, com acesso pelo computador, celular ou tablet, a ferramenta permite navegar por uma compilação inédita de dados de roubos na capital, com filtros sobre tipos, marcas e cores dos bens subtraídos.
Para usá-la, busque o endereço da sua casa, do trabalho ou de qualquer outro ponto da cidade e escolha um dos quatro tipos de crime disponíveis: roubo de celular, de carro, de moto e de rua — esse último inclui carteiras, colares, alianças e relógios levados de pedestres. Cada ponto no mapa corresponde a uma ocorrência e, ao ser clicado, mostra detalhes do crime e dados sobre a rua: total de casos em 2025, série histórica dos últimos três anos, bens mais roubados ali e um mapa de calor com horários e dias de maior incidência. Também é possível refinar as buscas por tipo, marca e cor do bem roubado — para descobrir, por exemplo, quantos HB20 brancos foram roubados em determinada via — ou navegar por um ranking de ruas.
