Fúria “duzmércáduz” esconde frustração com o fim da agenda oculta de Flávio

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Fonte da notícia: Metropoles Metropoles

Aqueles a que chamo “uzmercáduz” reagiram muito mal à reeleição de Lula. Logo passa.

O Goldman Sachs, por exemplo, já enxerga oportunidades — outros virão daqui a pouco —, embora aposte que o presidente pouco fará para mudar a “trajetória fiscal”. Não sei bem o que quer dizer e qual seria o conteúdo de uma eventual inflexão.

Essa turma sempre arruma substantivos abstratos para tratar de gente concreta: os pobres, por exemplo. De qualquer modo, parece ser algo um tanto mais razoável do que anunciar: “Ou muda ou lhe quebramos as pernas”.

Em horas assim, quem dissente do grupo de pressão acaba levando vantagem. Basta saber a hora certa de abandonar os parceiros, cedendo à realidade.

Por ora, estão todos indignados. Vamos ver.

Eu ainda não entendi — e não entendi mesmo, a menos que alguém me explique, então, qual era a agenda secreta de Flávio — por que o candidato do PL tinha sido eleito como “o nosso (deles) homem”. Em entrevista a Renata Lo Prete, na dita “Sabatina da Globo” — não gosto do nome, mas, para ele, vale, porque estava de calças curtas e, creio, com vontade de fazer xixi —, houve a sua famosa sequência de “nãos” secos e tranquilizadores: não alteraria a política de valorização do salário mínimo; não mexeria com o ganho real dos aposentados; não desvincularia Saúde e Educação dos laços constitucionais que impõem reajustes no Orçamento.

Como observou apropriadamente a entrevistadora, há um “consenso dos economistas” — eu diria ser quase isso, ao menos entre os especialistas não ignorados pela imprensa, incluindo os que o apoiavam — que, sem mexer nessas grandes despesas, não é possível operar o prometido corte de R$ 200 bilhões/ano no gasto público.

E lhe cobrou que detalhasse, então, seu plano de ajuste fiscal. O que se ouviu foi um festival de batatadas que, vá lá, pudessem até ser inexequíveis em razão de dificuldades políticas, mas que fizessem algum sentido econômico e que lidassem, no mínimo, com dinheiro real.

Mas quê… O então candidato falou em cortar 10 ministérios; em combater a corrupção; em promover a securitização de imóveis e da dívida — apenas com isso, deu a entender, arrecadaria R$ 400 bilhões por ano. E colocou também na coluna das receitas os recursos dos royalties do petróleo da Margem Equatorial, que começará a jorrar o dito cujo só em 2033…

Àquela altura, a vontade de fazer pipi deve ter atingido o seu ponto alto. Renata não resistiu, porém, à tentação de lembrar que petróleo ainda não há e não haverá tão cedo.

Ah, sim: Flávio ainda fez um cálculo enganoso sobre o prejuízo das estatais, quando se consideram todas as contas públicas. Mimoseou o pensamento matemático somando um suposto lucro de R$ 18 bilhões nessa área durante o governo do pai com um alegado prejuízo de R$ 36 bilhões na gestão petista e conseguiu, de uma vez, achar R$ 54 bilhões em caixa.

E ele estava tentando ser sagaz, não engraçado. No debate da Band, foi ainda mais ousado: propôs um “programa” para suspender por seis meses o pagamento das dívidas de pessoas físicas e por um ano o das pessoas jurídicas.

Isso custaria alguns trilhões porque alguém teria, bem, de remunerar “uzmercáduz” enquanto isso, não? Ou se decretaria a quebradeira geral? E, pasmem!, nem assim o tal “consenso” se quebrou.

Enquanto “pesquisas de opinião” indagavam se as ditas “bondades eleitorais” de Lula eram ou não “populistas”; enquanto se faziam contas picaretas sobre os pretensos R$ 300 bilhões que o petista já teria injetado na eleição, ninguém pensou em perguntar a Flávio de onde ele tiraria a grana.

Ademais, prometeu desonerar a folha de salários e compensar o empresariado pelo fim da escala 6 X 1. Flávio criaria a cornucópia do dinheiro.

Acrescentou: sem privatizações. No debate da Globo, aproveitou para aderir à proposta de Tarifa Zero nos fins de semana, feita por Lula.

Se o presidente anunciasse injeção de graça num dos olhos, ele anunciaria imediatamente nos dois. Afinal, por que os mercados estavam excitados com ele? Qual o motivo de o baixo-ventre dessa patota se irrigar com o sangue em razão dos estímulos de Flávio se nada do que dizia fazia sentido? A resposta só pode ser uma, sem alternativa: é que ele tinha uma pauta oculta que os iniciados que conseguem fazer preço “nuzmercáduz” decerto conheciam.

Ora, dado o conjunto do que apresentava publicamente, não se podia reconhecer onde o corte seria feito; as receitas eram todas fantasiosas, e ele se comprometia, de quebra, a baixar a arrecadação. Como essa gente pode ser estranha, mas não gosta de rasgar dinheiro, pode-se sustentar sem medo de errar que estava com Flávio unicamente porque tinha a certeza de que ele faria contra os pobres tudo o que jurava não fazer.

Detalhe: ele também manteria a política de valorização dos servidores. Da noite para o dia, o candidato do PL passou a encarnar o combo das políticas sociais de Lula.

O desagrado se deve ao fato de que perderam o seu mentiroso de estimação. Seria esclarecedor nos contarem quais eram os compromissos não declarados.

E, suponho, eles não se resumiam ao “ajuste fiscal”, não é? “Sabe o que é, Reinaldo? Os mercados reagiram mal porque Lula é hostil aos bancos”.

O resultado do setor me diz que não. “Porque é hostil ao agro”.

O resultado do setor me diz que não. “Porque é hostil à indústria”.

O resultado do setor me diz que não. Não posso acreditar que tanto apreço se deva aos olhos azuis de Flávio… Além disso, ele se preparava para instaurar uma crise de longa duração com o Supremo.

Acho que esses tais “uzmercáduz” nem se deram ao trabalho de verificar a data de indicação dos futuros ministros da Corte. A tara, dele e de setores da imprensa, pelo impeachment de Alexandre de Moraes teria de ser submetida ao crivo da legalidade do tribunal tal como hoje composto.

E a primeira substituição, a de Luiz Fux, somente se dará em 28 de abril de 2028. De resto, ainda que reeleito não tivesse sido, Lula pode indicar, com o Senado que aí está, o nome para a vaga de Luís Roberto Barroso, que segue aberta.

Por que mesmo “uzmercáduz” despirocaram com a vitória de Lula? Porque apostavam na agenda clandestina de Flávio, o que, em essência, frauda a democracia. Os preços que aí estão são aqueles feitos por fraudadores da ordem democrática, que queriam a eleição de um impostor.

Perderam. Façam como o Goldman Sachs: comecem a procurar alternativas de negócio dentro da lei.

Publicação Original Metropoles metropoles.com
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