'Fui internada com fortes dores na coluna e me ofereceram suicídio assistido', conta idosa canadense

 

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O caso da espanhola Noelia Castillo, que morreu por suicídio assistido na semana passada, aos 25 anos, após sofrer estupro coletivo e ficar paraplégica, levou uma canadense a contar a sua história.

Mas ela foi na contramão de Noelia.

Fim da linha: além de Noelia Castillo, outros jovens já mobilizaram a opinião pública mundial ao recorrer a suicídio assistido

No passado, aos 84 anos, Miriam Lancaster acordou um dia com uma dor excruciante nas costas, foi levada às pressas para o pronto-socorro e, prontamente, de acordo com o seu relato publicado no "Free Press", um médico lhe perguntou se ela queria ajuda para se matar.

"Fiquei atônita", escreveu Miriam num artigo. "Ninguém sequer tinha me dito o que eu tinha", completou ela, recusando a oferta médica.

Não demorou para que viesse o seu diagnóstico: havia fraturado o sacro, o pequeno osso na base da coluna. Com repouso, a fratura cicatrizou.

Miriam contou que a oferta de suicídio assistido teve efeito inverso:

"Ter a oferta do suicídio assistido mudou algo em mim. Antes, eu imaginava que aos 80 anos simplesmente diminuiria o ritmo: leria meus livros, assistiria um pouco de televisão. Mas a experiência me fez querer me entregar à vida."

Então, ela viajou para Cuba, onde cantou, dançou e tocou piano com os moradores locais.

A canadense viveu episódio semelhante com o marido. Porém a gravidade do quadro de saúde era outra.

"Os médicos haviam descoberto nele uma forma agressiva de câncer que, a essa altura, já havia se espalhado por todo o seu corpo. O padre tinha a hóstia na mão e um cálice de vinho estava sobre a mesa de cabeceira de John", relatou Miriam. "Então, um jovem médico entrou, olhou para o prontuário, olhou para John, olhou para mim e pronunciou esta frase como se estivesse lendo um roteiro: 'Sou obrigado por lei a lhe oferecer o suicídio assistido'", acrescentou ela.

Dez dias antes, quando John fora internado, ele ouviu a primeira oferta de suicídio assistido, alegou Miriam. Ele recusou.

E voltou a dizer "não" quando o quadro piorou. Após receber a extrema-unção, John morreu em 48 horas.

"No meu país, o Canadá, a morte assistida cresceu rapidamente desde sua legalização em 2016; representou 4,7% de todas as mortes no Canadá em 2023, o que equivale a cerca de 15.340 vidas encerradas por meio do suicídio assistido. Após a morte do meu marido, comecei a ver a morte assistida em todos os lugares. Alguns amigos, na casa dos 80 anos, me contaram que lhes foi oferecida durante visitas ao hospital. Nos obituários dos jornais locais, comecei a encontrar eufemismos como "morreu por vontade própria". Todos nós sabemos o que isso significa agora", escreveu Miriam.

O governo canadense defende e regula o suicídio assistido — chamado no país como MAID (Medical Assistance in Dying/Assistência Médica para Morrer) — baseando-se no direito à autonomia pessoal, dignidade e liberdade de escolha de pacientes com doenças graves e incuráveis, conforme decisões da Suprema Corte.

Em 2021, o governo expandiu o acesso à MAID, retirando a exigência de que a morte natural fosse "razoavelmente previsível", permitindo o procedimento para pessoas com sofrimento intolerável, mesmo sem uma doença terminal. O governo defende que os canadenses com sofrimento físico ou mental intolerável e sem perspectiva de melhora têm o direito de escolher o momento de sua morte. A Suprema Corte do Canadá concluiu que proibir a morte assistida viola os direitos à vida, liberdade e segurança garantidos pela Carta Canadense de Direitos e Liberdades.

O governo exige que o procedimento seja realizado por médicos ou enfermeiros habilitados, garantindo critérios de elegibilidade rigorosos para proteger os vulneráveis.