Fronteira da Venezuela com o Brasil amanhece reaberta após ataque dos EUA, e venezuelanos relatam tensão
Um dia após os ataques dos Estados Unidos contra a Venezuela, a fronteira com o Brasil amanheceu reaberta, com um fluxo intenso de carros e pessoas em direção a Pacaraima, em Roraima, a primeira cidade do lado brasileiro. Venezuelanos que deixavam seu país de origem relatavam tensão com os bombardeios registrados na madrugada de sábado e incertezas sobre o que irá acontecer daqui para a frente.
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Além de lançar bombas em postos militares e outros pontos na região de Caracas, no norte venezuelano, o governo de Donald Trump levou o presidente Nicolás Maduro para uma prisão em Nova York, sob acusação de narcoterrorismo.
Entre os que cruzaram a fronteira na manhã deste domingo, o engenheiro mecânico Maikeel Contrera diz que a sensação é de insegurança com o que chamou de "vazio de poder".
— Há que evitar sair às ruas porque na Venezuela não há governo, há um vazio de poder e está cada um por um lado. As pessoas inocentes correm os risco de os grupos armados se enfrentarem. O risco é que não há lei. Há grupos armados em cada estado mandados por coronéis — disse o venezuelano Maikeel Contrera, que deixou uma filha de 9 anos e um filho de 14 no estado de Mérida, região andina da Venezuela, para buscar oportunidades no Brasil.
O engenheiro diz ainda que não sabe o que esperar do futuro da Venezuela, mas espera poder voltar um dia para o seu país.
— Não há estabilidade. Não sabemos se haverá novas eleições, nem se haverá democracia. Espero que o Trump leve para lá as empresas internacionais, que haja infraestrutura e emprego e um dia eu possa voltar. Temos tudo na Venezuela, minerais, agricultura, mas o governo fechou todas as oportunidades a quem não estava com eles — completa.
O trabalhador ambulante David Andrés, de 56 anos, e o operário Robert Rodrigues, de 25 anos, também chegaram ao Brasil em busca de oportunidade. Ao cruzar a fronteira neste domingo, eles dizem temer por quem ficou para trás.
— Minha família está toda lá. Está muito complicado. Estamos com medo por quem ficou — diz David.
O trabalhador ambulante David Andrés (à esq.) e o operário Robert Rodrigues, cruzam a fronteira em direção ao Brasil
Patrik Camporez/Agência O Globo
Após os ataques, a fronteira com o Brasil chegou a ser fechada no sábado pelo lado venezuelano, mas segundo relataram integrantes do governo brasileiro, foi reaberta no fim do dia. O fluxo maior é de venezuelanos deixando o país.
Do lado brasileiro, militares montaram uma blitz, como revista minuciosa de todos os carros que entram e identificação de seus ocupantes.
Militares revistam carro na fronteira do Brasil com a Venezuela
Patrik Camporez/O Globo
Isso não impediu o casal Antonio Cardenas e Geisa Freitas, de cruzar a fronteira de bicicleta na manhã deste domingo. O técnico de comércio exterior e a despachante residem na cidade de Santa Elena de Uairén, a primeira do lado venezuelano após a fronteira com o Brasil. Eles são céticos de que Trump vá resolver a situação no seu país, nem instaurar uma democracia após os ataques e a prisão de Maduro.
— O que os EUA fizeram foi um show. Uma mentira. Maduro foi embora, mas o regime fica. Não foi invasão, foi uma negociação. Negociaram a saída do Maduro. O povo segue sofrendo, essa é a verdade. Nosso futuro é incerto. Não há um poder democrático na Venezuela. Os extremos, de direita e esquerda, sao essa mentira. Quem está no meio sofre, o povo trabalhador e que quer uma economia que seja pujante. As pessoas estão decepcionadas e com muito medo, porque afinal não houve liberdade na Venezuela. Não acredito que os EUA vão solucionar nada. Eles não estão interessados na venezuela, estão interessados nos recursos da venezuela — diz Antonio.
O técnico de comércio exterior Antonio Cardenas e sua esposa, a despachante Geisa Freitas
Patrik Camporez/Agência O Globo
Governador defende fechar fronteira
Ao GLOBO, o governador de Roraima, Antonio Denarium (PP), disse temer que a crise na Venezuela gere uma nova onda de refugiados no estado e sugeriu ao governo federal o fechamento temporário da fronteira com o país. O pedido foi feito aos ministros da Defesa, José Múcio, da Casa Civil, Rui Costa, e de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, com quem o governador conversou neste sábado.
Em entrevista na noite de ontem, após uma reunião no Itamaraty, o ministro da Defesa afirmou que a situação na fronteira era "tranquila", mas que haveria um "plantão" para o caso de novos acontecimentos.
Como mostrou o GLOBO, uma das principais preocupações do governo brasileiro diante dos ataques dos Estados Unidos à Venezuela é a extensa fronteira terrestre compartilhada pelos dois países, com mais de 2 mil quilômetros de extensão. Avaliações feitas no Palácio do Planalto e em áreas da segurança indicam que a instabilidade no território venezuelano pode gerar impactos diretos sobre a região norte do Brasil.
A apreensão não se limita a um eventual aumento do fluxo de imigrantes venezuelanos em direção ao Brasil, movimento que já ocorre há anos em função da crise econômica e social no país vizinho. Autoridades brasileiras também veem risco de que a intensificação do conflito facilite a entrada, pela fronteira, de pessoas ligadas a organizações criminosas, especialmente ao narcotráfico.
Desde que começou a crise migratória venezuelana, em 2013, ano em que Maduro foi eleito presidente pela primeira vez — já com denúncias de fraude por parte da oposição —, o Observatório da Diáspora Venezolana estima que 9,1 milhões de pessoas deixaram o país. De acordo com a Agência das Nações Unidas para os Refugiados, a Acnur, a Venezuela tem hoje o maior número de refugiados do mundo (6,3 milhões), superando países como a Síria.
