África o berço do canto
Como berço da humanidade e das primeiras civilizações, a África também foi um dos grandes berços do canto no mundo. Muito antes dos estudos europeus sobre técnica vocal, povos africanos já utilizavam a voz como instrumento de comunicação, espiritualidade, emoção e conexão com a natureza. O canto estava presente nos rituais, nas guerras, nas plantações, nos nascimentos, funerais e celebrações. A voz era considerada sagrada.
Entre muitos povos da África Ocidental, especialmente entre antigos grupos yorùbás como os Egbá, Huassá, Ijẹ̀sá, Èkìtì e Ìjẹ̀bú, era comum o uso de timbres mais agudos, vibrantes e anasalados. Esses povos observavam os sons das matas, dos ventos e principalmente dos pássaros, reproduzindo na voz a leveza, o brilho e o encantamento da natureza. O canto africano não era apenas música; era força espiritual, identidade ancestral e expressão coletiva.
Os povos sudaneses, que abrangiam yorùbás, jejes e fanti-ashantis, utilizavam o canto em louvores às divindades, encantamentos, rezas e manifestações religiosas. A musicalidade vinha carregada de emoção e intensidade espiritual. Já muitos povos bantus, sobretudo os angolanos, congoleses e moçambicanos, desenvolveram cantos mais graves, marcados pela força da voz de peito, criando outra estética vocal igualmente poderosa.
Essas formas africanas de cantar atravessaram o Atlântico durante a diáspora e chegaram ao Brasil. Nos terreiros de Candomblé, principalmente nas tradições de matriz yorùbá, ainda é possível perceber a presença dessas antigas características vocais africanas. Os cânticos entoados para os Orixás frequentemente utilizam timbres elevados, ressonâncias nasais, agudos intensos e uma musicalidade profundamente ancestral.
A própria língua yorùbá favorece esse tipo de emissão vocal. Por ser uma língua tonal e bastante anasalada, ela conduz naturalmente a voz para regiões mais altas e ressonantes, facilitando o uso da chamada voz de cabeça. Isso faz com que muitos cânticos religiosos africanos tenham uma sonoridade elevada, marcante e espiritualizada, como se a voz enchesse o ar em direção ao sagrado.
Muito antes de surgirem os termos técnicos como “falsete”, “voz de cabeça” ou “voz mista”, os povos africanos já exploravam intuitivamente diferentes possibilidades vocais. Eles compreendiam que a voz podia transmitir força, transe, autoridade, doçura e elevação espiritual. A técnica existia na prática ancestral antes mesmo de receber nomes acadêmicos.
Séculos depois, estudiosos da antiga Grécia passaram a observar o funcionamento da voz no teatro e na música. Mais tarde, entre os séculos XVI e XVIII, a Itália aprofundou os estudos sobre o canto erudito, especialmente com o nascimento da ópera e da tradição do bel canto. Foi nesse ambiente que os registros vocais começaram a ser organizados tecnicamente.
O termo “falsete”, inclusive, possui origem italiana. Vem da palavra falsetto, derivada de falso, utilizada para descrever uma voz mais leve e diferente da voz natural de peito. Posteriormente, o termo espalhou-se pela Europa, chegando ao francês como fausset e ao português como “falsete”.
Apesar disso, é importante compreender que os sons agudos, as mudanças de timbre e as emissões leves da voz não pertencem exclusivamente à tradição europeia. Povos africanos, árabes, asiáticos, indígenas e muitos outros já utilizavam essas possibilidades vocais muito antes da música clássica moderna existir.
Professor de canto Alan Lemos
arquivo pessoal do professor Alan Lemos
Para o professor de canto Alan Lemos, a voz de cabeça e o falsete são registros reais e diferentes, embora muitas pessoas os confundam. Segundo ele, a voz de cabeça mantém maior fechamento das pregas vocais, produzindo um som mais firme, cheio, afinado e com maior projeção. Já o falsete possui uma emissão mais leve, aérea e soprosa, resultado de um fechamento parcial das pregas vocais. Alan destaca ainda a importância da voz mista, ajuste técnico que une elementos da falsete e da voz de cabeça, permitindo alcançar notas agudas com potência, leveza e conforto.
Professor de ajustes vocais Elvis Cavalcante
Arquivo pessoal do professor Elvis Cavalcante
Já o professor de ajustes vocais Elvis Cavalcante explica que a ciência vocal comprova a existência desses registros através do funcionamento muscular da laringe. Segundo ele, os músculos TA (tireoaritenoideo) e CT (cricotireoideo) são fundamentais para o equilíbrio vocal. O TA atua principalmente na voz de peito, produzindo sons mais encorpados e potentes, enquanto o CT participa das regiões agudas, favorecendo emissões mais leves e brilhantes, presentes na voz de cabeça e no falsete. Elvis afirma que a voz mista acontece justamente quando há equilíbrio entre esses músculos, permitindo agudos mais confortáveis, estáveis e saudáveis.
A explicação técnica dos especialistas apenas confirma algo que muitos povos africanos já compreendiam intuitivamente há milhares de anos: a voz humana é um instrumento profundamente ancestral, emocional e espiritual.
A África não apenas ajudou a criar o canto; ela ajudou a dar alma ao canto do mundo. Seus povos transformaram a voz em ponte entre o humano e o divino, entre a floresta e o espírito, entre a memória e a eternidade. Nos cantos ancestrais africanos ainda ecoam os pássaros, os ventos, os tambores e a própria pulsação da vida.
Ìmọ̀ àti àìlópin jọra nítorí àwọn méjèèjì kò l’ópin. (Conhecimento e o infinito se parecem, pois ambos não têm fim.)
Axé para todos!
