Fraudes fiscais no Rio: como o estado virou epicentro das investigações da PF que apuram desvios bilionários

 

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O Rio de Janeiro se tornou o principal epicentro das investigações contra o grupo Refit, conglomerado do setor de combustíveis comandado pelo empresário Ricardo Magro. Da histórica Refinaria de Manguinhos aos condomínios de luxo da Barra da Tijuca, passando por operações ligadas à lavagem de dinheiro, evasão de divisas e suspeitas de conexão com organizações criminosas, o estado concentra o núcleo de uma das maiores ofensivas fiscais e financeiras já realizadas no país.

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A nova etapa dessa escalada ocorreu nesta sexta-feira, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Sem Refino. A ação teve como um dos alvos o ex-governador Cláudio Castro, alvo de mandados de busca e apreensão em um condomínio na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio.

A operação também mira Ricardo Magro, que teve a prisão preventiva decretada e o nome incluído na Difusão Vermelha da Interpol. Segundo os investigadores, o grupo é suspeito de ocultação patrimonial, dissimulação de bens e evasão de recursos para o exterior.

Ao todo, a Justiça determinou o bloqueio de cerca de R$ 52 bilhões em ativos financeiros e autorizou a suspensão das atividades econômicas de empresas investigadas. Mas a ofensiva desta sexta é o capítulo mais recente de uma sequência de operações que vêm ampliando o cerco sobre o grupo desde 2025.

Refinaria histórica virou centro das investigações

Fundada em 1954, a Refinaria de Manguinhos ocupa há décadas um espaço simbólico na indústria do Rio de Janeiro. Localizada na Zona Norte da capital fluminense, ela se tornou uma das estruturas mais tradicionais do setor de combustíveis no estado. Nos últimos anos, porém, o nome da refinaria passou a aparecer associado a investigações de fraude tributária, lavagem de dinheiro e estruturas financeiras usadas para blindagem patrimonial.

Em 2025, a foi alvo da Operação Carbono Oculto, conduzida pela PF com apoio da Receita Federal e de órgãos estaduais. Na ocasião, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis chegou a interditar parcialmente as operações da unidade.

As investigações apontavam suspeitas de importação irregular de combustíveis, adulteração tributária e utilização de estruturas empresariais para reduzir artificialmente impostos.

No início do ano, em janeiro, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) determinou a interdição total da Refit, antiga refinaria de Manguinhos, que já operava sob restrições desde 2025 , quando parte das atividades havia sido suspensa. A agência disse que a medida foi resultado da análise de informações e documentos coletados pela ANP, in loco, além de análise da documentação enviada posteriormente pela empresa.

União acusou grupo de operar 'no vermelho'

Em outubro de 2025, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional endureceu o discurso contra a Refit em manifestação enviada ao Tribunal de Justiça do Rio. O órgão acusou o grupo de importar gasolina praticamente pronta enquanto declarava óleo bruto às autoridades aduaneiras — prática que, segundo os procuradores, poderia configurar falsidade ideológica e crime tributário.

No documento, a PGFN sustentou que o conglomerado se mantinha ativo por meio de sonegação fiscal sistemática e manobras contábeis. A União ainda afirmou que empresas ligadas à refinaria operavam como escudo patrimonial para ocultar ativos e dificultar cobranças judiciais. Os procuradores defenderam que permitir a retomada plena das operações da refinaria representaria risco à arrecadação do estado do Rio e à concorrência no setor de combustíveis.

Megaoperação revelou estrutura bilionária

Poucas semanas depois, em novembro de 2025, uma nova ofensiva ampliou ainda mais a dimensão do caso. Batizada de Poço de Lobato, a operação mobilizou mais de 600 agentes públicos em cinco estados e no Distrito Federal. Segundo o Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal, o grupo teria causado prejuízos estimados em mais de R$ 26 bilhões em débitos tributários.

As investigações apontaram uma estrutura empresarial considerada sofisticada, baseada em distribuidoras, importadoras, fundos de investimento, offshores e empresas interpostas. Segundo as autoridades, o grupo movimentou mais de R$ 70 bilhões em apenas um ano.

Os investigadores afirmam que parte da engrenagem financeira utilizava empresas abertas em Delaware, nos Estados Unidos, além de fundos com cotistas únicos e operações financeiras desenhadas para dificultar o rastreamento dos recursos.

Durante a operação, agentes apreenderam dinheiro em espécie, documentos, equipamentos eletrônicos e pedras preciosas.

Combustível, lavagem e crime organizado

A nova operação desta sexta aprofunda outra linha considerada estratégica pelos investigadores: a possível conexão entre o setor de combustíveis e organizações criminosas que atuam no Rio de Janeiro.

Segundo a PF, a Operação Sem Refino está inserida nas apurações ligadas à chamada ADPF das Favelas, investigação que acompanha conexões entre agentes públicos, fluxos financeiros e estruturas do crime organizado.

Nos bastidores das investigações, o caso passou a ser tratado como exemplo de “crime do andar de cima”, envolvendo esquemas empresariais sofisticados, uso de estruturas internacionais e impacto bilionário na arrecadação pública.

A suspeita das autoridades é que parte do sistema investigado funcionasse como uma engrenagem permanente de evasão tributária e ocultação patrimonial, utilizando desde postos de combustíveis até fundos financeiros e operações internacionais.

A Refit nega irregularidades e afirma que os débitos tributários discutidos pelas autoridades são alvo de disputas judiciais legítimas.