Franklin Martins e o sequestro do embaixador americano na ditadura

 

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O embaixador americano Charles Elbrick estava no banco de trás de um Cadillac Fleetwood a caminho do Centro do Rio quando foi sequestrado por grupos da luta armada contra a ditadura. Naquela tarde, em 4 de setembro de 1969, ao menos 12 guerrilheiros pararam o carro do diplomata na Rua Marques, no Humaitá, e o levaram até a Rua Caio de Melo Franco, numa área pouco movimentada do mesmo bairro, no pé do Morro do Corcovado, onde Elbrick foi forçado a entrar numa Kombi. Ele tentou reagir e levou uma coronhada na testa. O Cadillac foi deixado lá com o motorista e uma carta-manifesto.

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Escrita pelo então militante Franklin Martins, jornalista que décadas mais tarde se tornaria ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a carta dizia que os autores do sequestro estavam combatendo o regime militar em nome do povo. De acordo com o texto, o rapto do diplomata era "um ato de guerra revolucionária". Para soltar Elbrick, eles exigiam a libertação de 15 presos políticos, entre eles os líderes estudantis José Dirceu e Vladimir Palmeira, assim como a publicação do mesmo texto em jornais, rádios e TVs.

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Motorista do fusca azul que bloqueou a passagem do Cadillac, Martins foi um dos idealizadores do sequestro e, por conta disso, é proibido de entrar nos Estados Unidos até hoje. Mas a atuação do jornalista contra a ditadura foi mais ampla. Após o Ato Institucional 5 (AI-5), que agravou a repressão, ele foi acusado de participar de assaltos a bancos e residências (os guerrilheiros diziam que essas ações eram uma forma de financiar sua luta). Numa entrevista à Folha de S. Paulo, em 2008, o então ministro confirmou sua participação num roubo à casa do deputado Edgard Magalhães de Almeida.

O carro do embaixador americano atrás do fusca usado no sequestro

Arquivo/Agência O GLOBO

Na última sexta-feira, o ex-ministro de Lula foi deportado do Panamá quando fazia uma conexão no país para a Guatemala. Em relato divulgado pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), o jornalista contou que, ao desembarcar, foi levado para uma sala do aeroporto, onde os agentes o questionaram, "especialmente", sobre sua prisão em outubro de 1968, quando o então líder estudantil participou de um congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), que estava na clandestinidade. Na ocasião, centenas de pessoas foram presas depois que o encontro, em Ibiúna (SP), foi descoberto pelos militares.

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Para justificar a deportação, os agentes do governo panamenho disseram para Franklin que estavam seguindo uma lei de migração de 2008, segundo a qual estrangeiros não poderiam entrar no país da ou fazer conexões para outros países através do Panamá se tivessem cometido crimes considerados graves, como tráfico de drogas, crimes financeiros, assassinatos e sequestros.

Uma das ações de maior destaque realizadas pela guerrilha durante a ditadura, o sequestro de Elbrick foi o primeiro de uma série de raptos de diplomatas realizados por grupos da luta armada. O objetivo era sempre o de trocar o refém pela soltura de presos políticos. Depois do embaixador americano, foram sequestrados o alemão Ehrenfried von Holleben, em 1970, e o suíço Giovanni Enrico Bucher. Levado pelos militantes no dia 7 de dezembro de 1970, na Rua Conde de Baependi, em Laranjeiras, Bucher só voltou para casa 40 dias depois, em janeiro do ano seguinte.

O embaixador Charles Elbrick saindo do táxi que pegou após ser libertado

Arquivo/Agência O GLOBO

Elbrick, que estava no Brasil havia apenas dois meses, foi sequestrado por integrantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e da Ação Libertadora Nacional (ALN). Ele foi mantido em cativeiro numa casa na Rua Barão de Petrópolis, no Rio Comprido, alugada pelo então jovem jornalista Fernando Gabeira. O governo federal, na época chefiado por uma junta de militares, suspeitava do imóvel, mas relutava em agir temendo a morte do embaixador. Para não ser culpada se acontecesse o pior, a ditadura aceitou todas as exigências e libertou os presos da lista enviada pelos sequestradores.

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Os presos foram libertados e levados para o México numa aeronave da Força Aérea Brasileira. No dia 6 de setembro, os sequestradores saíram da casa na Barão de Petrópolis em dois fuscas, seguidos por uma Rural-Willys ocupada por militares que faziam tocaia no imóvel. Para despistar os agentes, os militantes foram para o Maracanã, de onde torcedores saíam após um jogo de futebol. O diplomata foi deixado no Largo da Segunda-Feira e pegou um táxi para a embaixada americana. Um dia depois, ele reuniu a imprensa para divulgar uma declaração oficial seguida de entrevista coletiva.

"A situação foi verdadeiramente enervante. Mas gostaria de dizer que, além deste galo que tenho aqui na testa, que me foi infringido nos momentos iniciais do assalto em virtude da resistência que ofereci, tudo correu da melhor maneira possível", disse o diplomata aos repórteres.

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Vários envolvidos com o sequestro foram capturados pelos militares. Gabeira viria a ser baleado e preso, em São Paulo, em 1970. Meses depois, ele próprio foi solto em troca da liberdade do diplomata alemão. O militante morou fora do Brasil até a promulgação da Lei da Anistia, em 1979, quando voltou ao país e escreveu o livro "O que é isso, companheiro?", sobre o sequestro de Elbrick. O livro inspirou o filme homônimo, dirigido por Bruno Barreto, em 1997. O autor e o ex-ministro de Lula tiveram até uma desavença porque, no livro, Gabeira não deixava claro que Martins tinha escrito a carta-manifesto.

Fernando Gabeira na 1ª Auditoria do Exército, após ser baleado e preso, em 1970

Arquivo/Agência O GLOBO