François Ozon leva 'O estrangeiro' para as telas e encara o peso de um clássico: 'Queria respeitar Camus, mas também dar voz aos árabes'

 

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Terceiro título francófono mais vendido no mundo, “O estrangeiro” atravessa gerações. Há 80 anos, a obra-prima do franco-argelino Albert Camus vem desestabilizando leitores com seu retrato peculiar do absurdo existencial. Dá para entender, portanto, o tamanho do desafio do diretor François Ozon ao adaptá-la para o cinema.

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O filme homônimo estreia hoje, cercado de expectativa e inevitáveis comparações com o livro, eleito pelos franceses em 1999 como o mais importante do século XX. Conhecido por longas como “Swimming pool”, “Sob a areia” e “Jovem e bela”, Ozon admite que sentiu a pressão. À medida que mergulhava no projeto, porém, entendeu que precisava seguir o seu próprio caminho, sem medo de “trair” Camus, ganhador do Nobel da Literatura de 1957.

— Espero que a experiência de ler o livro e a de ver o filme sejam diferentes, mas complementares — diz o diretor, que já adaptou obras menos conhecidas, como a peça musical “Oito mulheres”. — Trago a minha interpretação, minha sensibilidade em relação a essa história. Se esse livro é tão universal e atravessa gerações, é justamente porque pode ser interpretado de maneiras diferentes, de um país para outro, de uma pessoa para outra. É isso que, na minha opinião, faz dele uma obra-prima.

François Ozon na Berlinale de 2022

Divulgação/ Elena Ternovaja

O enredo é o mesmo, ainda que o filme não siga a ordem cronológica exata do livro. Em Argel, capital da Argélia francesa, em algum momento da década de 1930, acompanhamos Meursault, um dos personagens mais opacos e impenetráveis da literatura.

Funcionário público de baixo escalão, ele recebe a notícia da morte da mãe e ganha uma folga para acompanhar o enterro. É difícil entender o que se passa em sua cabeça. Meursault não chora, não demonstra sentimentos, parece vazio. Após se despedir da mãe, vai ao cinema com a namorada e assiste a uma comédia, como se nada tivesse acontecido.

Detalhe importante: Meursault é um pied-noir, como eram chamados os europeus nascidos ou estabelecidos na Argélia colonial. Certo domingo, ele caminha pela praia e cruza com um “árabe” que havia se desentendido com um amigo seu. Desorientado pelo sol e pelo calor, aproxima-se do homem, que saca uma faca. Meursault dá o primeiro tiro e, sem razão aparente, dispara mais quatro vezes contra o corpo já inerte. A partir daí, começa a história de seu julgamento, em que o personagem passa a ser avaliado menos pelo assassinato do que por sua incapacidade de corresponder às normas sociais.

Presença sensorial

Muitos franceses conhecem essa história de cor desde o colégio. A linguagem simples e direta do livro, costuma causar forte impacto em leitores jovens, confrontados pela primeira vez com uma narrativa que recusa explicações e expõe a falta de sentido da existência. Não foi, contudo, o caso de Ozon.

— A primeira vez que li foi na escola, por obrigação — relembra o cineasta. — Devia ter uns 15 ou 16 anos, e o livro meio que passou por cima de mim. Eu me lembrava dele como um exercício escolar, não como um livro que me tocou pessoalmente.

Há três anos, o diretor voltou ao texto e teve outra reação. Ficou fascinado pela escrita aparentemente inadaptável. Mas permanecia a questão: como traduzir visualmente um romance tão ressonante e interiorizado? O cineasta italiano Luchino Visconti já havia realizado uma versão em 1967, com Marcello Mastroianni no papel principal. O resultado não agradou nem ao próprio diretor, nem à viúva de Camus. Antes de morrer, o autor francês havia manifestado sua oposição em levar sua obras às telas.

Ozon, por sua vez, optou por um preto e branco que remete às imagens de arquivo da Argélia Francesa. Também buscou materializar o não dito da prosa através da sensualidade de sua câmera. Seu Meursault é marcado pela presença física e sensorial do ator Benjamin Voisin. Ele não expressa sentimentos, mas é sensível aos sentidos do mundo: o mar, o sol, os corpos...

— Eu sabia desde o início que não poderia trabalhar com a identificação do público — diz o diretor. — A ideia foi apostar na observação e na fascinação. Escolher um ator com presença forte, alguém que o espectador observe quase como um cientista observa um inseto. Meursault é como uma folha em branco, onde projetamos sentidos

Benjamin Voisin e Rebecca Marder em cena de "O estrangeiro", de François Ozon

Divulgação/ Carole Bethuel

Contexto colonial

François Ozon também precisou lidar com a dimensão política da obra. Embora universal, o romance é marcado pelo contexto colonial. O homem morto não tem nome, é tratado apenas como “árabe”, como se não existisse para o narrador. Da mesma forma, Meursault acaba sendo julgado muito mais por não ter chorado no funeral de sua mãe do que por tirar a vida de um argelino. Se sua vítima fosse um francês, a história seria diferente.

Mais de 80 anos após a publicação da obra e quase 65 anos após a independência da Argélia, essas tensões ganharam outro peso, gerando novos debates. Publicado em 2013, o romance “Meursault, contra-investigação”, do argelino Kamel Daoud, reinterpretou o conflito pelo ponto de vista da vítima, dando-lhe um nome: Moussa.

Na tela, Ozon amplia ainda mais a existência dessa figura antes fantasmagórica. Além de nome, ele agora tem uma irmã disposta a contar sua história no tribunal. O diretor optou ainda por mudar o começo da trama. Em vez da célebre frase “Hoje, mamãe morreu”, o filme abre com a prisão de Meursault e só então volta para o início com um flashback. A primeira fala do protagonista agora é “Matei um árabe”, explicitando o seu racismo.

— Durante a promoção do filme, conversei com muitos argelinos — conta Ozon. — Lembro de uma senhora que disse que ler o livro sempre foi doloroso, porque, como argelina, ela não existia nele, não tinha nome. Isso é muito violento. O livro de Daoud nasce dessa invisibilização. E, para mim, era importante respeitar Camus, mas também dar voz aos árabes.

Elemento queer

Talvez o ponto mais surpreendente da adaptação esteja na cena do assassinato. Ao intensificar os brancos da fotografia em preto e branco na praia, o diretor potencializa o sol ofuscante que confunde Meursault (o nome é uma junção de “morte” e “sol”). Não deixa de ser paradoxal, já que Camus, obcecado pela luz argelina, usava muitas cores para descrevê-la.

Benjamin Voisin em "O estrangeiro"

Divulgação/ Carole Bethuel

Conhecido por obras queer como “Verão 85” e “O tempo que resta”, Ozon oferece um possível subtexto homoerótico no duelo entre o assassino e sua vítima. A câmera se demora no corpo de Moussa com certa tensão carnal, mas o cineasta relativiza essa intenção.

— Acho que que muita gente tem enxergado homoerotismo na cena porque sou eu na direção — brinca Ozon. — Pessoas me disseram que Meursault estava matando a sua própria sexualidade. Bom, não era o que eu queria contar, mas tudo bem, cada um interpreta como quer. O que eu queria era imprimir sensualidade ao filme. Queria que houvesse beleza em torno de Meursault, e que o espectador sentisse isso.

Com homoerotismo ou não, o diretor segue o que está descrito no livro: dois homens frente a frente, o tempo suspenso, como num duelo de faroeste.

— O que me interessa, antes de tudo, é o absurdo desse confronto, um homem em pé, outro deitado, uma posição de dominação e outra de submissão — explica Ozon. — E esses objetos inevitavelmente fálicos, se entrarmos numa leitura psicanalítica: um revólver e uma faca. Afinal, o que esses homens fazem? É verdade, eles poderiam fazer amor. Mas não: eles atiram um no outro. É isso.