França e Itália tentam negociar com Irã passagem segura pelo Estreito de Ormuz, e EUA preparam escolta a petroleiros, diz jornal

 

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Países europeus, incluindo França e Itália, teriam iniciado conversas com o Irã na tentativa de negociar garantias de passagem segura para navios pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo para o comércio de energia, publicou o Financial Times nesta sexta-feira. As discussões buscariam permitir a retomada dos envios de petróleo e gás do Golfo em meio à escalada do conflito regional e ao bloqueio do estreito prometido pelo novo líder supremo iraniano.

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Segundo autoridades informadas sobre as negociações ouvidas pelo Financial Times, capitais europeias abriram conversas preliminares com Teerã para tentar retomar as exportações sem ampliar o conflito. Empresas de navegação, por sua vez, procuram marinhas ocidentais em busca de possíveis escoltas para seus petroleiros. Ainda assim, não há garantia de avanço nas negociações nem indicação clara de que o Irã esteja disposto a discutir a reabertura da rota.

Mais tarde nesta sexta, o Ministério das Relações Exteriores da Itália negou que o país esteja negociando com Teerã. Fontes próximas ao gabinete da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, afirmaram que não houve “negociações bilaterais nem conversas diretas com o Irã para garantir a passagem de navios italianos pelo Estreito”, acrescentando que não existe nenhum acordo negociado nos bastidores.

— Em seus contatos diplomáticos, líderes italianos buscam promover as condições para uma desescalada militar geral — disseram. — No entanto, não há negociações de bastidores destinadas apenas a proteger determinados navios mercantes em detrimento de outros.

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Cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos no mundo normalmente passa pelo estreito, localizado na entrada do Golfo. No entanto, os embarques tornaram-se praticamente inexistentes após ataques iranianos contra petroleiros e a promessa do novo líder supremo do país, Mojtaba Khamenei, de manter a passagem fechada. A República Islâmica é amplamente suspeita de tentar elevar os preços do petróleo e do gás natural para pressionar o presidente americano, Donald Trump, a encerrar o conflito.

Mapa mostra onde fica localizado o Estreito de Ormuz

Arte O GLOBO

Também nesta sexta-feira, duas autoridades do governo indiano disseram ao Wall Street Journal que a Índia está em negociações ativas com o Irã para permitir que ao menos 23 petroleiros atravessem o Estreito, com as primeiras travessias previstas já para o fim de semana. Os navios, carregados com petróleo e gás natural liquefeito, estão retidos no Golfo Pérsico desde o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.

O ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, conversou duas vezes por telefone com seu homólogo iraniano, Abbas Araghchi, segundo as autoridades. Elas acrescentaram que a guarda costeira indiana informou aos proprietários de petroleiros que garantirá passagem segura até a Índia. Mais tarde, fontes informaram à agência Reuters que o Irã autorizou a travessia de dois petroleiros indianos pelo Estreito. Teerã também autorizou a saída de um cargueiro graneleiro de propriedade turca pelo estreito.

Impacto econômico

Países europeus têm evitado participação direta na guerra, e alguns governos chegaram a criticar o ataque inicial conduzido por EUA e Israel que desencadeou a escalada militar na região. Capitais europeias demonstram forte preocupação com o impacto econômico de um bloqueio prolongado da rota marítima, com governos temendo que a interrupção eleve os custos de energia para empresas e consumidores, agravando as dificuldades econômicas do continente e pressionando orçamentos nacionais já sobrecarregados.

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Desde o início do ano, o preço do petróleo subiu de cerca de US$ 60 (R$ 317) para aproximadamente US$ 100 (R$ 530) por barril. No mesmo período, o preço do gás natural na Europa aumentou 75%. Apesar dos impactos, a Casa Branca e importantes parlamentares republicanos rejeitaram nesta sexta-feira uma reportagem da CNN que afirmava que os EUA não haviam se preparado para a possibilidade de o Irã fechar o Estreito de Ormuz.

— O Pentágono vem planejando há décadas para um fechamento desesperado e imprudente do Estreito de Ormuz pelo Irã, e isso já fazia parte do planejamento do governo Trump muito antes de a operação [de fevereiro] sequer ser lançada — afirmou a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, acrescentando: — A ideia de que o general Caine e o secretário Hegseth não estavam preparados para essa possibilidade é absurda.

França, Itália e Grécia já mantêm navios de guerra no Mar Vermelho como parte da missão naval europeia Aspides, voltada à proteção da navegação. Ainda assim, autoridades afirmam que nenhuma marinha europeia está preparada para escoltar navios pelo Estreito de Ormuz caso exista risco de ataque, por temor de ampliar a guerra. Ao FT, uma das autoridades envolvidas nas discussões afirmou que é preciso ter um “ambiente permissivo”. Outro disse que nem todos os países europeus apoiam a abertura de diálogo com Teerã.

— Há divergências dentro da União Europeia sobre a estratégia a adotar. Alguns acham que precisamos falar com os iranianos. Mas os Estados da UE têm visões muito diferentes sobre isso, o que está tornando tudo mais complicado — afirmou.

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O Reino Unido, segundo autoridades britânicas, não mantém conversas diretas com o Irã sobre acesso ao estreito. No entanto, a secretária de Relações Exteriores do país, Yvette Cooper, discute com governos do Golfo a continuidade do fornecimento de petróleo durante visita à Arábia Saudita. Já o presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou nesta semana que Paris poderia participar de operações de escolta de navios caso o conflito diminua. Ele conversou recentemente com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, e destacou que Teerã “precisa garantir a liberdade de navegação para pôr fim ao fechamento do Estreito”.

O governo italiano, por sua vez, afirmou que mantém contato com o Irã apenas para entender quando o país estaria disposto a reduzir a escalada. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores insistiu que Roma não busca obter vantagem nas discussões, indicando que “talvez haja telefonemas”, mas que “este não é um momento de negociação intensa”. O ministro da Defesa da Itália, Guido Crosetto, afirmou em entrevista publicada na sexta pelo Corriere della Sera que o objetivo europeu é atuar de forma coordenada.

— Estamos tentando fazer com que a Europa fale com uma única voz, unida… pressionando por dois pontos-chave. O primeiro é solicitar oficialmente que seja permitido que navios de países que não estão em guerra atravessem Ormuz — disse ele.

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Enquanto isso, os EUA avaliam medidas militares para garantir a navegação na região. O Pentágono considera enviar navios de guerra adicionais ao Oriente Médio para se preparar para escoltar petroleiros pelo Estreito de Ormuz, dizem fontes. Mas, mesmo com reforço, autoridades afirmam que a escolta de embarcações só começaria quando a ameaça representada pelo Irã for reduzida — processo que pode levar um mês ou mais. Nesse período, Washington continuará atacando arsenais de mísseis e drones de Teerã.