França e aliados discutem resposta a possível invasão dos EUA à Groenlândia

 

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A França afirmou que está coordenando com aliados europeus uma resposta a um eventual movimento dos EUA para invadir ou tomar o controle da Groenlândia, em meio à escalada de tensões provocada por declarações do presidente Donald Trump sobre o território ártico, que integra o reino da Dinamarca. O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, disse que o tema será tratado em reunião nesta quarta-feira com os chanceleres da Alemanha e da Polônia. Segundo ele, a intenção é agir de forma coordenada no âmbito europeu.

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— Queremos agir, mas queremos fazê-lo junto com nossos parceiros europeus — afirmou Barrot à rádio France Inter.

As movimentações ocorrem após um dos principais assessores de Trump sugerir, na terça-feira, que Washington poderia estar disposta a assumir o controle da Groenlândia pela força. A fala levou líderes europeus a se mobilizarem publicamente em apoio à Dinamarca e à Groenlândia, numa rara reprimenda à Casa Branca. Em nota conjunta, ressaltaram que a ilha “pertence ao seu povo”. A Dinamarca, por sua vez, declarou que uma invasão ou apreensão da Groenlândia pelos EUA — país que, assim como Copenhague, integra a Otan — significaria o fim da aliança militar e da arquitetura de segurança construída no pós-Segunda Guerra.

Apesar disso, ainda na noite de terça-feira, o governo americano afirmou que Trump e sua equipe analisavam “uma série de opções” para adquirir a Groenlândia, incluindo o uso das Forças Armadas americanas — descrito pela porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, como algo que “é sempre uma opção”. Barrot, no entanto, disse que recebeu do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, uma sinalização diferente. Em ligação telefônica na terça-feira, Rubio teria afirmado que a possibilidade de uma invasão estava descartada.

— Eu mesmo estive ontem ao telefone com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que confirmou que essa não era a abordagem adotada — disse o chanceler francês.

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Rubio teria dito a parlamentares que o presidente republicano pretende comprar a Groenlândia, e não invadir o território. A declaração foi feita em reunião de esclarecimento com integrantes das principais comissões de serviços armados e de política externa da Câmara e do Senado na segunda-feira, segundo relatos de autoridades americanas. No mesmo dia, Trump pediu que seus auxiliares apresentassem uma versão atualizada de um plano para adquirir a ilha, segundo fontes com conhecimento do assunto ouvidas pelo New York Times.

Trump manifesta há anos interesse em adquirir a Groenlândia, em especial devido ao seu potencial de riqueza em minerais críticos. Nos últimos dias, porém, o tom do americano se intensificou, especialmente após a operação militar dos Estados Unidos na Venezuela no sábado, que resultou na deposição de Nicolás Maduro do poder. A mudança de retórica elevou as tensões internacionais e passou a levantar questionamentos sobre a própria sobrevivência da Otan.

Diante do cenário, o Parlamento dinamarquês realizou, na noite de terça, uma reunião extraordinária para discutir o que classificou como uma situação sem precedentes. Ao mesmo tempo, o chanceler da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, e a ministra das Relações Exteriores da Groenlândia, Vivian Motzfeldt, buscam uma reunião urgente com Rubio. Segundo Rasmussen, o objetivo é reduzir a escalada verbal.

“Gostaríamos de acrescentar alguma nuance à conversa. A troca de gritos precisa ser substituída por um diálogo mais sensato. Agora”, escreveu.

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No domingo, Trump afirmou afirmou a jornalistas a bordo do Air Force One que a Groenlândia estaria “cheia de navios chineses e russos” e que a Dinamarca não teria capacidade de defender o território, considerado pelo republicano vital para a segurança nacional americana. Atualmente, no entanto, são os EUA que mantêm uma base militar no território. O vice-presidente americano, JD Vance, visitou a base no ano passado, acompanhado da esposa, Usha.

— A imagem que está sendo pintada, de navios russos e chineses bem dentro do fiorde de Nuuk e de investimentos chineses maciços, não está correta — disse Rasmussen após a reunião extraordinária, avaliando que a situação atual se baseia em uma leitura equivocada da situação. — Isso se baseia em uma interpretação errada do que está acontecendo. Estamos cuidando do reino — disse.

A Estratégia de Segurança Nacional do segundo governo Trump afirma que a dominação do Hemisfério Ocidental é uma prioridade máxima. Isso ficou ainda mais evidente com a campanha de pressão militar de meses conduzida por Trump contra a Venezuela e a captura, no sábado, por tropas americanas, de Nicolás Maduro, líder do país, e de sua esposa, Cilia Flores, durante um ataque letal. Trump também disse no início do ano passado que planejava adquirir o Canadá.

No domingo, após a captura de Maduro, a esposa de Stephen Miller, Katie, publicou um mapa com o contorno da Groenlândia coberto com a bandeira americana, e os dizeres “em breve”, sugerindo que o território seria o próximo alvo. A postagem levou o chefe do governo groenlandês, Jens Frederik Nielsen, a escrever: “Chega de pressão. Chega de insinuações. Chega de fantasias de anexação. Estamos abertos ao diálogo. Estamos abertos às discussões. Mas isso deve ser feito pelos canais adequados e com respeito ao direito internacional”.